Caça de baleias tem forte motivação geopolítica

Para superintendente da WWF-Brasil, Japão insiste na questão pelo fato da pesca ser fundamental para sua economia

Thiago André, especial para o iG |

© AP
Sushiman em Tóquio mostra sashimi de baleia, feito com fatias de carne crua do animal
Após uma semana de intensas discussões na 62ª reunião anual da Comissão Baleeira Internacional (CBI), encerrada na sexta-feira, em Agadir, no Marrocos, o superintendente de conservação do WWF-Brasil (World Wildlife Fund), Carlos Alberto de Mattos Scaramuzza, disse que a caça de baleias no Japão teria forte motivação geopolítica.

“O fato de o país não aceitar restrições ao uso de recursos dos oceanos é, talvez, uma questão mais de geopolítica do que simplesmente econômica, considerando que o país está em um arquipélago e explorar sua biodiversidade marinha é fundamental para a sobrevivência de sua população. A motivação geopolítica para a caça de baleias é muito forte no Japão”, afirmou.

Uma proposta de consenso para a exploração comercial e científica dos animais foi discutida pelos 88 países-membros da CBI. Os representantes de governos presentes no evento, que pretendiam elaborar um pacote de medidas concretas relacionadas à exploração das baleias, não chegaram a um acordo. Essa tentativa foi adiada para o ano que vem durante a próxima reunião da comissão, em local ainda a ser definido.

O presidente da CBI, o chileno Cristián Maquieira, propôs a liberação da captura de baleias por dez anos com uma cota anual limitada de indivíduos. Os representantes da comunidade científica internacional, em contrapartida, consideraram essa proposta parcial aos interesses dos países baleeiros, como Japão e Noruega, desfavorecendo os conservacionistas que não se interessam por esse tipo de captura.

No Marrocos, o comitê de conservação da entidade defendeu o “uso sustentável dos recursos” ou, em outras palavras, a captura dos mamíferos para fins comerciais. A CBI proíbe, desde 1986, a caça comercial de baleias e, caso fosse aprovada, a nova proposta derrubaria essa moratória ilimitada, permitindo a captura até mesmo sobre espécies ameaçadas de extinção.

Brechas na proibição

Além da proibição da caça de baleias no chamado Santuário de Baleias do Oceano Austral, uma das questões levantadas no encontro foi o fim da caça para fins científicos: o Japão, apesar de ter aderido à moratória, utiliza essa brecha na legislação da CBI, que autoriza a caça em nome da pesquisa científica com cotas limitadas, para fazer o uso comercial das espécies. “Essa cláusula científica nas regras da CIB tem sido mal utilizada há muito tempo. Se pensamos em reformular a comissão como um todo, esse artigo precisa ser removido do documento”, avalia Scaramuzza.

Os países favoráveis a autorização da pesca comercial propuseram ainda, até 2014, a captura de 3.860 baleias, uma redução de apenas 8% em relação às capturas atuais. Brasil e Argentina também defenderam a criação do Santuário de Baleias do Atlântico Sul, onde não seria permitida nenhuma modalidade de caça de baleias. “O Brasil possui áreas importantes para a reprodução de várias espécies e isso, por si só, justifica a criação desse santuário. Ele seria fundamental para recuperar a viabilidade das populações baleeiras em todo o mundo. A proibição da caça comercial, em 1986, certamente ocorreu porque algumas espécies realmente corriam riscos de se extinguir”, aponta Scaramuzza.

Outra questão em pauta na reunião dessa semana foram os desafios relacionados aos cálculos que estabelecem os limites de captura dos animais: em mais de duas décadas de estudos não existe um consenso entre os cientistas sobre a estimativa populacional de algumas espécies, sobretudo as que correm risco de extinção como a baleia-azul, a baleia-de-bossa e a baleia-franca.

“A baleia é uma espécie que requer uma área muito extensa para sobreviver. Por isso, se estamos querendo poupar o animal, isso significa que temos que pensar na preservação dos ambientes marinhos como um todo”, explica.

Entre os países a favor da caça comercial estão Japão e Noruega, nessa ordem os dois maiores caçadores de baleias do mundo, além de Rússia, Dinamarca e Islândia. Os conservacionistas são liderados por Austrália e dezenas de outras nações da Europa e América Latina. Calcula-se que os três países que caçam baleias (Japão, Noruega e Islândia) tenham capturado cerca de 1500 animais em 2009, sendo que, destes, mais de mil teriam sido caçados pelos japoneses.

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