Buraco da camada de ozônio altera padrão de chuva nos trópicos

Estudo mostra impacto da camada de ozônio sobre as mudanças climáticas em todo o Hemisfério Sul

Maria Fernanda Ziegler, iG São Paulo |

As alterações no padrão das chuvas do Hemisfério Sul estão tão relacionadas com o buraco da camada de ozônio, localizado em cima da Antártida, como com o aumento dos gases causadores do efeito estufa. É o que afirma estudo da Universidade de Columbia, em Nova York, o primeiro a mostrar os impactos do buraco na camada de ozônio sobre as mudanças climáticas em regiões próximas à linha do Equador.

De acordo com o estudo publicado na edição desta semana do periódico científico Science , a destruição da camada de ozônio, que fica entre 15 e 30 quilômetros acima da superfície terrestre, induz o resfriamento na atmosfera da Antártida. Sara Kang, autora do estudo, explica que o resfriamento do Polo Sul altera a circulação atmosférica tanto em regiões subtropicais quanto naquelas próximas ao polo. Como consequência a circulação próxima ao Equador também é deslocada para o sul, induzindo mudanças na distribuição das chuvas.

“Sendo mais específica, há um movimento descendente no subtrópico, que é responsável pelas secas nas regiões mais áridas do subtrópico. Como toda a circulação de latitude média e alta se desloca ainda mais para o sul, a região subtropical se torna menos úmida. É como um efeito dominó”, disse ao iG .

No entanto, Sara se recusa a afirmar que a descoberta explicaria as grandes chuvas na região serrana do Rio ou a recente seca na Amazônia. Para a pesquisadora, seria necessário estudar com maior profundidade cada caso. “Sou relutante em fazer considerações específicas sobre eventos regionais que não seja a tendência clara de maior umidade que vi sobre o leste da Austrália”, disse.

Os autores apontam que acordos internacionais para a mitigação das mudanças climáticas não podem se limitar apenas a redução das emissões de gases causadores do efeito estufa, como dióxido de carbono, metano e óxido nitroso. "Esta poderia ser uma verdadeira mudança de jogo", disse o também autor do estudo, Lorenzo Polvani.

Duas questões diferentes
O efeito estufa é provocado pela alta concentração de gases como o dióxido de carbono (CO2), metano (CH4) e óxido nitroso (N2O) – que são provenientes da indústria, automóveis e da queimada de florestas. A Terra absorve a energia do Sol, e também irradia esta energia de volta para o espaço. No entanto, grande parte desta energia que vai para o espaço é absorvida por partículas destes gases e ocorre o chamado aquecimento global, o aumento das temperaturas atmosféricas e oceânicas da Terra.

Outra questão diferente que preocupa cientistas há alguns anos é o buraco na camada de ozônio. A camada funciona como um bloqueio de parte dos raios ultravioleta do Sol. Desta forma, ela evita efeitos nocivos a saúde como câncer de pele e catarata, por exemplo.

Nos últimos 50 anos, o uso generalizado de compostos sintéticos, principalmente domésticos e comerciais aerossóis que contenham clorofluorocarbonos (CFCs), de forma significativa diminuíram a camada de ozônio, a um ponto em 1980 cientistas descobrirem a formação de um buraco na camada sobre a Antártida.Em 1989, países se comprometeram a reduzir a emissão de CFC e o resultou na redução do buraco e acredita-se que até o fim do século ela seja totalmente recuperada.

Polvani afirma que mesmo que o problema seja considerado quase sanado é preciso investigá-lo. "Embora o buraco de ozônio tenha sido considerado como um problema resolvido, estamos agora percebendo que ele causou grande parte da mudança climáticas", disse.

Para ele, mesmo que os CFCs não sejam mais adicionados à atmosfera, e acamada de ozônio se recupere é preciso considerar que o fechamento do buraco de ozônio vai ter também impactos consideráveis sobre o clima.

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