Acidente expõe falta de mão de obra no setor

Faltaria pessoal qualificado na indústria petroleira, segundo técnicos da área. Petrobrás ficou 12 anos sem contratar

Natasha Madov, iG São Paulo |

Se for provado que houve falha humana no incêndio da Deepwater Horizon, no Golfo do México, como sugere o documento obtido pelo iG , o acidente traz motivos para preocupação além dos ambientais: a escassez de mão de obra qualificada na indústria petrolífera.

AP
Vazamento afetou pássaros, que ficaram cobertos de óleo
“Um acidente desses é o maior medo do mundo do petróleo,” disse um especialista em perfuração de poços, que não quis se identificar. “O erro humano ali está claro. Com o aumento do preço do barril e o desenvolvimento de novas tecnologias para perfuração em grandes profundidades, existe uma falta generalizada de mão de obra especializada”. É um problema globalizado, que afeta inclusive o Brasil: entre 1990 e 2002, a Petrobrás não fez concursos para engenheiros ou técnicos de perfuração. A partir de 2002, o ritmo de contratações se intensificou, mas a terceirização do mercado de trabalho foi a norma: segundo a Federação Única dos Petroleiros (FUP) atualmente são 280 mil empregados terceirizados, numa proporção de quatro para cada funcionário da Petrobrás.

Também de acordo com a FUP, das 171 mortes que aconteceram no sistema Petrobrás desde 2000, 48 foram de empregados da estatal – o resto foi de terceirizados. “A área de técnicos de perfuração é a mais afetada pela terceirização”, diz Aldemir de Carvalho Caetano, secretário de finanças da FUP. “O México, que fornece a mão de obra para a maior parte das plataformas no Golfo, está num acelerado processo de privatização e com ele, aconteceram muitas terceirizações. Os empregados de plataformas vivem aterrorizados, com medo de ser demitidos, e isso pode ser bastante perigoso num ambiente de trabalho em que se mexe com equipamentos de alta complexidade”. A Petrobrás não quis se pronunciar.

Tecnologia

As equipes das plataformas de petróleo são intensamente treinadas para evitar vazamentos, e existem vários sistemas de segurança e monitoramento. Em condições meteorológicas adversas (como no caso de um furacão, comum na região do Golfo do México), por exemplo, o poço é fechado, a plataforma flutuante se desconecta e se afasta da tempestade. Quando o tempo melhora, ela retorna, reabre o poço e os trabalhos recomeçam.

Alguns especialistas creditam o vazamento descontrolado não ao fato de a Deepwater Horizon ser flutuante e sim ao tipo de trabalho que ela realizava, que era de exploração – prospecção e estudo de novos poços. O outro tipo de plataforma é o chamado de produção, que retira o petróleo ou o gás natural de poços já aprovados.

Um poço ainda na fase de exploração é mais instável, pois ainda não foi devidamente controlado para a retirada regular do óleo. "Imagine furar uma bola de futebol. Se você não introduz um bico, ela ficará vazando devido à pressão até murchar", afirma Moacyr Duarte, coordenador do grupo de análise de risco técnico e ambiental COPPE/UFRJ. "O óleo precisa ser contido, caso contrário pode vazar por anos."

Por algum motivo, na Deepwater Horizon, foi perdido o controle do poço. "O mecanismo de segurança, provavelmente, falhou. Esse é um acidente de grande gravidade. É muito óleo", diz Duarte. O dispositivo de segurança não tampou o poço no Golfo do México. Duarte acredita que, primeiro, a empresa esteja tentando operar o dispositivo de emergência. Se não conseguir, deverá tomar outra ação a partir de uma análise geológica do local, como fazer uma outra perfuração para controlar o poço que está vazando e fechá-lo.

"Ainda não dá para afirmar o que ocorreu de errado. Geralmente, num acidente, acontece uma sequência de falhas. Todo mundo que explora petróleo deve estar interessado para saber o que aconteceu. Infelizmente, os acidentes são estudados para serem evitados", diz. "Além da perda de vidas, o acidente pode ser uma catástrofe ambiental. Ele foi gravíssimo", afirma.

Segundo fontes do setor ouvidas pelo iG, existe cerca de uma dezena de plataformas de exploração atualmente no Brasil apenas sob responsabilidade da Petrobrás, nos litorais do Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo. A empresa não confirmou a informação.

(Com reportagem de Isis Nóbile Diniz)

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