'Pescador' de lixo recolhe duas toneladas de garrafas PET por mês do rio Tietê

Por Agência Estado |

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Atividade rende até 2 mil reais por mês; carroceiro flutuante afirma ter encontrado de tudo no rio, menos peixe

Agência Estado

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Imagem mostra lixo acumulado no rio Tietê

Há 13 anos, Everaldo Lagarto, de 61 anos, acorda cedo e inicia uma tarefa que jamais conseguirá terminar: a de limpar o Rio Tietê. Com um barco de madeira, Lagarto navega no meio do lixo e recolhe as ilhas de garrafa de politereftalato de etileno (PET) que se formam no curso d’água na altura de Santana de Parnaíba, na Grande São Paulo. Em sociedade com o cunhado, chega a recolher mais de duas toneladas por mês. A montanha de plástico não rende mais de R$ 2 mil para os dois.

O carroceiro flutuante afirma que já viu de tudo por ali. Até dinheiro. A única coisa que nunca encontrou em mais de uma década foi um peixe vivo nadando pelo rio. "Isso entristece porque o Tietê é uma obra de Deus. Mas, ao mesmo tempo, é meu ganha-pão", diz.

A reportagem encontrou Lagarto nesta terça-feira, 4, por volta das 10 horas, quando se esticava para recolher as garrafas com as mãos. Ao ser chamado, veio remando até a margem. Deu bom-dia, desceu do barco, tirou as luvas - duas em cada mão - e abriu uma garrafa de café bem-quente. "Estão servidos?", oferece.

Leia mais: Cerca de 85% dos brasileiros separariam o lixo caso houvesse coleta seletiva

Apesar do jeito tímido, ele solta-se ao falar como é a vida navegando no meio do lixo que as cidades da Grande São Paulo despejam no rio. O bote dele esbarra em pneus, capacetes, bolas de futebol, chapéus, cadáveres. "Tem coisa que eu vejo aqui que é melhor nem falar."


Como todo marinheiro experiente, sabe quando é seguro navegar. É que o Tietê também tem a maré, nada dócil quando as comportas do rio se abrem. "Isso acontece às segundas, quintas e domingos. Aí, o jeito é encostar uma margem para não ser levado", diz. Pouca gente se arrisca. Além dele e do cunhado, cada um num barco e num trecho diferente do rio, há um outro homem que aparece por lá. "Quando ele fica sem dinheiro, pega um barquinho e vem aqui. Mas a gente fica de domingo a domingo, das 7 horas da manhã às 7 horas da noite. Não tem feriado."

Na margem, Lagarto e o cunhado improvisaram uma espécie de porto. Ali, separam os materiais em grandes sacos de feltro para serem levados por um caminhão que alugam. Pelo quilo de garrafas PET, conseguem 90 centavos. Após a divisão com o sócio, não sobra mais de mil reais para cada. Mesmo assim, Lagarto manda um dinheiro para a mulher e duas filhas, em Caruaru (PE). "Quando terminar de construir minha casa lá, poderei voltar. Mas, com o dinheiro que consegui até agora, só consegui comprar as colunas."

Enquanto não volta para a família, a única companhia que tem durante o dia são os pássaros, que sobrevivem ali, apesar da podridão. Sem ninguém para ouvir, ele canta forró para matar as saudades da terra. "Ela tem cheiro de fulou da fulouresta/é uma festa o olhar dessa mulher", cantarola para a reportagem a música que ficou conhecida na voz do paraibano Abdias dos 8 Baixos, em disco de 1965. O pouco tempo que passa em terra é à noite, na frente da televisão. De vez em quando, vê alguma reportagem sobre a limpeza do rio e reflete que até tem encontrado menos lixo que há dez anos. "Mas ficar limpo, limpo... É difícil." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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