Estudo na Mata Atlântica comprova que ação humana resulta em árvores menores

Por Maria Fernanda Ziegler - iG São Paulo |

compartilhe

Tamanho do texto

Pesquisadores brasileiros conseguiram provar, pela primeira vez, que extinção de tucanos está alterando a seleção natural de árvores como a palmeira do palmito juçara

O tucano do bico preto é um importante dispersor de espécies de plantas da Mata Atlântica. Foto: Guto BalieiroO sabiá-una só consegue  se alimentar dos frutos menores e portanto não dissemina as sementes maiores de palmito juçara. Foto: Lindolfo SoutoA jacutinga, que habita a Mata Atlântica, corre risco de extinção . Foto:  Edson EndrigoAraçari-poca come um fruto de palmeira na Mata Atlântica. Foto: Edson EndrigoImagem mostra diferença de tamanho entre frutos da palmeira. Foto: Marina CôrtesO palmito juçara é a palmeira dominante na Mata Atlântica e sua disseminação é feita a partir dos pássaros que se alimentam de seus frutos. Foto: Mauro Galetti


A análise de 22 áreas da Mata Atlântica no Sudeste do País mostrou pela primeira vez que a ação do homem está afetando a evolução de árvores. É o que aconteceu com a palmeira do palmito juçara, que tem tanto frutos com sementes grandes quanto pequenas, mas que futuramente deverá ter apenas as sementes pequenas.

De acordo com o estudo coordenado por Mauro Galetti, da Universidade Estadual Paulista (UNESP), em fragmentos de floresta onde espécies de tucano como o de bico preto (Ramphastos vitelinus), araçari-poca (Selenidera maculirostris) e também as arapongas foram extintos, as palmeiras juçaras (Euterpe edulis) produziam frutos pequenos. Já em áreas com estes pássaros existiam palmeiras com frutos de diversos tamanhos. Com este cenário, a tendência é que futuramente existam apenas palmeiras menores com palmitos menores nestas áreas onde os tucanos foram extintos.

Galetti explica que as palmeiras produzem frutos com sementes grandes e pequenas, porém apenas os tucanos conseguem engolir os frutos maiores e regurgitar as sementes, disseminando novas palmeiras na Mata Atlântica. As sementes menores são disseminadas por outros pássaros, como os sabiás, por exemplo.

As principais causas da extinção dos tucanos e, consequentemente, a alteração da evolução da palmeira estão na fragmentação da Mata Atlântica e na caça aos pássaros. Apenas sete caçadores ouvidos pelos pesquisadores afirmaram ter abatido 500 tucanos em um ano. A ave é apreciada na culinária, e também por causa de suas penas, usadas em adornos como brincos.

Leia mais:
Especialistas temem pressões sobre Mata Atlântica
Apenas 12% da área original da Mata Atlântica está preservada, diz IBGE
Fauna encolhe mais que o esperado em fragmentos da Mata Atlântica
Brasil detém segunda maior área florestal do planeta

Péssimas previsões
“Sem os tucanos, as sementes grandes cai no pé da fruta mãe, a polpa da fruta não é retirada e a semente não germina. Com o tempo só haverá sementes pequenas, que perdem água mais facilmente, pois a superfície de contato ser maior. Com as mudanças climáticas e a previsão de períodos mais secos e severos a tendência é que as sementes pequenas não terminem a germinação e as palmeiras menores desapareçam também”, disse ao iG Mauro Galetti autor principal do estudo publicado esta semana no periódico científico Science.

Atualmente restam apenas 12% da cobertura original da Mata Atlântica, e mais de 80% dos remanescentes florestais são pequenos demais para manterem grandes aves frugívoras. Estes fragmentos também são insuficientes para garantir a sobrevivência de grandes animais que se alimentam de frutas, como antas, macacos, tucanos, pavós e arapongas

Por isto o avanço na perda das espécies de grandes vertebrados na Mata Atlântida está causando mudanças sem precedentes nas trajetórias evolutivas das árvores remanescentes e na composição de muitas áreas tropicais. “As pessoas acreditavam que a seleção natural demonstrada por Charles Darwin há mais de 100 anos levava muito tempo para ocorrer, mas nossos dados mostram que o impacto humano, causando a extinção de aves grandes, seja por caça ou desmatamento, seleciona rapidamente as plantas com sementes pequenas” disse Galetti.

Galetti acredita que o estudo pode ser replicado para outras florestas tropicais do mundo, onde 60% a 90% das espécies de árvores são disseminadas por animais frugívoros. Um exemplo seria as florestas do Congo, que são disseminadas pelos gorilas. “Pela primeira vez conseguimos dados empíricos de que a perda de animais dispersores afeta a evolução de plantas. Isto é um alerta de que o impacto humano sobre as florestas é ainda pior do que pensávamos”, disse.

Para o cientista além da necessidade do reflorestamento é necessário haver o também o refaunamento destas áreas. ”É preciso que se pare com a caça. Em áreas como a Cantareira (SP), Ilha do Cardoso (SP) e também em Ilhabela (SP), onde é realizada a Tucanada [festa onde é servido churrasco de tucano], está cheio de caçadores”, disse.

Leia tudo sobre: mata atlânticaextinçãoanimaistucanopalmito

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas