Cercas podem ser melhor solução para salvar leões africanos

Por The New York Times |

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Pesquisador acredita que isolar leões de pessoas e outros animais ajudaria tanto na conservação da espécie quanto na economia dos países

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Após 35 anos de pesquisas de campo nas planícies do Serengeti, África, Craig Packer, diretor do Centro de Pesquisa de Leões da Universidade de Minnesota, perdeu a paciência com o deserto africano. Cercas, disse ele, serão a única maneira de impedir a diminuição contínua no número de leões do continente.

"Temos que encarar os fatos", explicou. "Você quer saber quais são as espécies mais odiadas na África? Elefantes e leões.”

Eles destroem colheitas e gado, disse ele, e, às vezes, no caso dos leões, chegam até a comer pessoas.

O objetivo de Packer é salvar os leões. Ele acredita que a melhor maneira de se fazer isso é isolá-los com cercas, longe das pessoas e de animais, e ajudaria tanto a conservação quanto a economia. Ele fez esse argumento em um artigo neste mês no Ecology Letters, junto com 57 co-autores, incluindo principais cientistas estudiosos dos leões e conservacionistas.

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O documento estabelece o valor das cercas, em termos claros, e também explica porque a decisão de utilizar cercas seria a única opção sensata. Esse é o ponto de vista Packer. Com uma população humana crescente cujos direitos devem ser respeitados, disse ele, a co-existência com os leões não é prática e nem justa para os seres humanos que têm que viver com os grandes felinos.

Ao expressar sua opinião em uma conversa, Packer vai além da medida científica escrita no papel, e demonstra sua frustração com a fantasia, muitas vezes oferecida aos turistas da vida selvagem que vaga livremente e sem restrições pelo território.

"Isso é um pensamento de 130 anos atrás", disse ele. "Eu só estou tentando fazer com que as pessoas admitam o óbvio. Fazê-las enxergarem a realidade atual.”

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Os leões na África perderam 75 % de seu território nos últimos 100 anos, os problemas entre as pessoas e os leões têm aumentado, e algumas populações sofrem de isolamento genético. Panthera, uma organização conservacionista dedicada a preservar grandes felinos, estimou que hoje existem 30,000 leões na África, abaixo dos 200,000 leões há 100 anos atrás.

Algumas populações estão indo bem, como os leões do Serengeti, o que não são confinados dentro de cercas, e aqueles em reservas grandes e pequenas na África do Sul.

Utilizando pesquisas de 42 locais em 11 países na África, os autores do artigo na Ecology Letters concluíram que, sem as cercas, custaria US $ 2,000 por quilômetro quadrado, ou menos de um quilômetro quadrado por ano para manter os leões a menos de 50 % do seu potencial em números. Com cercas, o custo seria de US $ 500 por ano para manter 80 % de seus números em potencial.

Algumas das reservas localizadas na África do Sul são enormes. O Parque Nacional de Kruger abrange 8,500 quilômetros quadrados, uma área maior do que o Estado de Connecticut e Rhode Island juntos.

O valor da instalação das cercas é alto, custando cerca de US $ 3.000 por quilometro para serem instaladas. Mas sem elas, o trabalho concluiu que quase metade das populações de leões sem proteção poderia ser extintas nas próximas décadas.

Nem todos os autores enxergam a instalação de cercas como a única solução, embora reconheçam o seu valor em muitas situações. Luke Hunter, presidente da Panthera, e um co-autor, disse, "é claro que as cercas ajudariam na preservação do leão." E, segundo ele, as pessoas de fora da África subestimam as dificuldades implementadas pelo convívio com os leões, que, segundo ele, são " muito difíceis de conviver se você é uma população que depende do gado para sobreviver. "

Mas, Hunter disse ter dúvidas sobre a questão da instalação das cercas. Ele disse que os autores não haviam sido capazes de avaliar a eficácia dos vários esforços para resolver conflitos entre leões e pessoas, incluindo a gestão de gado e outras questões pois simplesmente não haviam ocorrido casos suficientes para quantificar a teoria. Além disso, disse ele, " existe um grande espaço aberto na África", onde os conflitos entre os humanos e os leões ainda não chegaram a ser um problema. E se a crescente população de humanos da África está concentrada nas cidades, ao invés de regiões no deserto, disse ele, poderão haver menos problemas entre as espécies, diminuindo a necessidade das cercas.

Ambos Packer e Hunter acreditam que os países desenvolvidos do Ocidente, e instituições como o Banco Mundial, deveriam contribuir mais para proteger os recursos da África, o que pode ajudar a gerar o desenvolvimento econômico do país através do turismo.

Muitos países africanos precisarão de ajuda. Mesmo se optarem utilizar as cercas como uma solução mais eficaz, alguns não conseguirão pagar por elas sozinhos. Cercar a Reserva Selous Game na Tanzânia, por exemplo, custaria US $ 30 milhões, disse Packer. A área deverá então ser administrada. O valor anual para gerenciar a população de leões nos 22,000 quilômetros quadrados da reserva seria de US $ 22 milhões. E essa não é a única região de leões na Tanzânia.

As necessidades da população humana devem ser reconhecidas, disse Packer, e as cercas ajudam com que isso seja feito.

Por James Gorman

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