Apesar da violência, borboletas monarcas encontram santuário no México

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Insetos migram por mais de 3.000 quilômetros desde o Canadá para hibernar e se acasalar em uma região tomada por cartéis de drogas e madeireiras

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Pesquisadora coleta borboleta monarca para buscar por parasitas, na reserva El Capulin, no México

Ele encontrou o amor de sua vida há 3.200 quilômetros de casa, em um encontro casual de arrepiar o estômago, e ela se mudou para o oeste para estar com ele. Então, é claro, Jason Skipton me disse que não poderia haver lugar melhor para propor casamento do que em um redemoinho de borboletas laranjas e pretas que migraram milhares de quilômetros para se acasalar.

Não importa que o santuário de borboleta fique em uma área no centro do México contestada pelos cartéis de drogas. Quando Samantha Goldberger preparou sua câmera e correu para ficar ao lado de Skipton para tirar uma foto no Dia dos Namorados, ele ficou de joelhos e pediu por sua mão em casamento.

"Este lugar é um milagre. E é uma coisa milagrosa que aconteceu com a gente", disse Skipton. "Ninguém sabe por que as monarcas viajam para tão longe, ou vêm até aqui para se acasalar. É inexplicável."

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Na verdade, a cada ano, milhões de borboletas monarcas migram do leste dos Estados Unidos e do Canadá para o centro do México, uma viagem de 3.200 quilômetros e mais uma terra arborizada sob ataque por madeireiras em uma região tomada por traficantes de drogas. As borboletas chegam no final de outubro e início de novembro para hibernar em pinheiros, agrupando-se como grandes folhas de outono. Em fevereiro, elas começam a despertar durante o sol quente, e começam a busca de seus companheiros para se acasalarem.

Eu tinha muita vontade de ver este espetáculo mágico, e ouvir a música delicada que as borboletas fazem com a vibração de suas asas. À medida que eu embarquei no ônibus saindo da Cidade do México para Michoacan com meu marido e um amigo, eu me perguntava que tipo de turistas eu poderia encontrar em um lugar bonito e selvagem como este. Quem teria vontade de viajar para o centro do México após o governo americano ter advertido contra viagens não-essenciais para a maioria do Estado de Michoacán, onde estávamos indo?

"Ao redor do mundo, o México é sinônimo de violência. Mas a violência está entre os cartéis que lutam entre si por território, ou entre os cartéis, policiais e militares. Eles não estão lutando contra a gente. Nenhum turista nacional ou estrangeiro morreu na violência", disse.

Mas, assim como Skipton e Goldberger, os hóspedes que conheceram não pareceram se incomodar com as advertências, eles estavam totalmente cativados pela paisagem. Outro casal que visitava o local, Michael e Grace Marez Buckley, de Denver, Colorado, possuem uma casa de férias em Mazatlan, têm viajado ao redor do México durante anos, e não vêem nenhuma razão para parar agora. Eles pareciam apoiar a ideia de que a violência é relativa, observando que mais de 1.700 pessoas foram mortas a tiros nos Estados Unidos desde o massacre na escola de Newtown.

"As pessoas nos Estados Unidos são insensíveis ao que acontece lá mesmo e acham que o que acontece no México é muito pior", disse Marez. "Nós não queremos ser danos colaterais aqui ou em qualquer lugar."

"Basta olhar ao seu redor", acrescentou Buckley. "Claro que o México tem problemas. Eles são terríveis. Mas é um país maravilhoso."

Optamos para visitar a reserva mais próxima de San Cayetano chamada de El Capulin, que, tecnicamente, fica através da fronteira de Michoacan, no Estado do México. Fica há cerca de meia hora de viagem do hotel para os estábulos, onde alugamos alguns cavalos e guias contratados para uma trilha de uma hora e meia para a reserva em um lugar chamado de Cerro Pelon.

E foi na floresta que eu aprendi o grande mistério das monarcas: a maioria das borboletas monarcas vive apenas quatro ou cinco semanas, mas as gerações que fazem a longa viagem migratória para o México vivem entre quatro ou cinco meses. Elas procriam, as fêmeas depositam seus ovos ao longo da estrada do Norte, e morrem junto com os machos. Então, um ano e cinco gerações de borboletas depois, seus descendentes contam com algum tipo de sistema de GPS instintivo para migrar para o sul novamente, voltando para a mesma floresta no centro do México.

Especialistas disseram que o número de monarcas têm diminuído nos últimos anos, graças à exploração madeireira, o uso de inseticidas e outras pressões ambientais. Encontramos uma equipe de cientistas do World Wildlife Fund do México e das Universidades da Geórgia e de Wisconsin que testam os parasitas que se prendem nas asas das borboletas como excesso de bagagem e arrastam os insetos para baixo. Eles descobriram que os parasitas ophryocystis elektroscirrha existem em cerca de 10% das borboletas, que chegam a pesar cerca de meia grama.

E, mesmo assim, há milhões delas, voando, mergulhando, sugando o néctar das flores silvestres amarelas e roxas, e procurando, assim como Skipton e Goldberger, pelos companheiros de suas vidas.

Lembrando sua proposta romântica, Goldberger disse que se lembra de correr para o lado de Skipton para tirar uma foto quando "de repente ele estava de joelhos." Ela levou um momento para perceber o que estava acontecendo. "Foi incrível", disse ela.

E sua resposta foi "Sim".

(Por Marjorie Miller)

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