Disputas e falta de objetivos ameaçam resultado da cúpula climática em Doha

Negociações não avançam e representantes de cerca de 200 nações reunidos no Catar correm contra o relógio para chegar a algum acordo

iG São Paulo | - Atualizada às

As discórdias em torno da ajuda financeira aos países em desenvolvimento e o fracasso dos países ricos em estabelecer metas mais duras para combater o aquecimento global ameaçam as negociações climáticas da Organização das Nações Unidas (ONU), que ocorre nestas duas últimas duas semanas em Doha, no Catar. Pelo menos um ponto é certo, os representantes das cerca de 200 nações já falharam em atingir algum resultado dentro do prazo e as negociações e avançam pela noite desta sexta-feira (7).

"Desde esta manhã, não avançamos muito", lamentou o ministro francês do Desenvolvimento, Pascal Canfin. O ministro alemão do Meio Ambiente, Peter Altmaier, disse que "espera que as negociações avancem noite adentro".

Muitos delegados, entre eles o da União Europeia, criticaram a falta de envolvimento da presidência do Qatar, o país anfitrião e que é o maior emissor de CO 2 per capita do mundo, para fazer avançar essas discussões.

Diante da perspectiva de negociações que ameaçam se arrastar, o vice-primeiro-ministro do Qatar, Abdullah al-Attiyah, que preside a plenária, afirmou aos delegados em tom irônico: "Eu não tenho pressa. Minha casa fica a apenas 10 minutos de carro".

A ONU tentou diminuir as expectativas já modestas para o encontro em Doha, previstas para acabar nesta sexta. A reunião busca prorrogar o Protocolo de Kyoto, o plano da ONU que obriga cerca de 35 países desenvolvidos a cortar as emissões de carbono e que expira no fim deste ano.

Mas os negociadores estão precisando se contorcer até mesmo para acordos em assuntos mais modestos - que incluem questões como a maneira de aumentar a quantia de dinheiro para ajudar países pobres que enfrentam problemas com as mudanças climáticas, ou definir a extensão de um tratado já existente que cobre apenas 15% das emissões globais.

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As emissões de gases de efeito estufa devem aumentar 2,6% este ano, estimuladas principalmente pelos países emergentes liderados pela China e pela Índia, que dizem que precisam queimar mais combustíveis fósseis para acabar com a pobreza.

Um das principais rupturas é sobre mais dinheiro. Países pobres querem compromissos assinados das nações ricas sobre a expansão da ajuda climática de 100 bilhões de dólares anuais até 2020, um pedido geral que já foi feito há três anos atrás.

Porém os países ricos demonstram pouca vontade de assumirem metas específicas neste momento, culpando a crise financeira e a falta de verba.

“Nós ressaltamos a necessidade de metas para 2013-2015 para assim evitar lacunas e assegurar financiamento suficiente para os países em desenvolvimento” disse o representante chinês Su Wei durante a Conferência.

A questão sobre o financiamento obscureceu o debate desde o começo na semana passada. Nações ricas prometeram em 2009 entregar um financiamento de longo prazo para ajudar nações pobres investirem em energia limpa, adaptação ao aumento do nível do mar e outros impactos do aquecimento global. Elas ofereceram 10 bilhões de dólares por ano em 2010-2012 no fundo que levou o nome de Fast-start, prometendo que o montante aumentaria para 100 bilhões de dólares em 2020. Porém, não disseram como.

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"As finanças se tornaram uma questão de tudo ou nada aqui", disse Celine Charveriat, do grupo de assistência Oxfam. "O texto das finanças não vale o papel em que foi escrito."

Problemas no texto
Os Estados Unidos e outros países desenvolvidos rejeitaram o texto preliminar do acordo que foi apresentado nesta sexta-feira (7). Muitos países em desenvolvimento também disseram que não podem aceitar os termos usados em alguns parágrafos do texto, evidenciando a grande divisão que assombra as negociações desde que ela começou há duas décadas.

O texto preliminar apresentado mais cedo nesta sexta-feira (7) incita países desenvolvidos “a assinarem comprometimentos que permitam o aumento do financiamento climático além dos limites de 2012”, mas não inclui nenhuma meta intercalada.

“É preocupante que alguns países desenvolvidos, como os Estados Unidos, são tão céticos a ponto de não dizerem nada além de ‘nós fazemos uma promessa de 100 bilhões de dólares até 2020”, disse o ministro do Meio Ambiente da Noruega Baard Solhjell.

Kyoto
Os negociadores também estão tentando finalizar o acordo para formalizar o prolongamento do Protocolo de Kyoto, um pacto para a redução das emissões que expira no fim deste ano. Um dos pontos de desgaste é decidir se países que emitiram menos que as metas podem levar este crédito para a próxima fase período do protocolo.

Estados Unidos nunca aderiram ao Protocolo de Kyoto. Japão, Nova Zelândia, Canadá e Rússia não querem fazer parte do prolongamento, afirmando que ele cobre apenas 15% das emissões globais de gases do efeito estufa.

Governos deram 2015 como prazo para um acordo mais abrangente que incluiria tanto países desenvolvidos quanto países em desenvolvimento, que agora produzem a maioria das emissões do mundo.

A meta da cúpula da ONU é limitar o aumento das temperaturas em 2ºC em comparação com as temperaturas da era pré-industrial. As temperaturas já aumentaram cerca de 0.8 C deste nível, de acordo com o último estudo da ONU.

Uma projeção recente do Banco Mundial mostrou que as temperaturas estão no caminho de aumentar mais de 4ºC em 2100.

"Existe uma enorme defasagem entre a resposta da política internacional e o que a ciência está nos dizendo", disse a secretária executiva da Convenção do Clima, Christiana Figueres à Associated Press. "Nós sabemos que a ciência tende a subestimar os impactos das mudanças climáticas, e por isso, de qualquer maneira, esta lacuna continua a crescer".

(Com informações da AFP, Reuters e da Associated Press) 

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