COP18: um retrato do mundo

Especialistas analisam o contexto e os desafios que os negociadores da Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP) estão enfrentando em Doha, no Catar

Morrow Gaines Campbell III e Sílvia Dias, especial para o iG* | - Atualizada às

Divulgação
Sílvia Dias e Morrow Gaines estão em Doha acompanhando as negociações da COP 18

Estamos há quase 20 anos tentando alcançar um acordo climático global que permita manter a tendência de aquecimento da temperatura média da Terra abaixo dos dois graus centígrados, minimizando, desta forma, as perspectivas de um cenário catastrófico que perversamente afetará de forma mais intensa as populações mais carentes. À frustrada expectativa de que tal acordo fosse alcançado em Copenhague seguiram-se vários encontros nos quais a grande vitória parecer ser simplesmente manter abertos os canais de negociação, evitando-se, a qualquer custo, vínculos ou obrigações legais de cortar a emissão dos gases causadores do efeito estufa ou de ajudar as nações mais pobres a se adaptarem às mudanças climáticas que já deixaram de ser teoria para se tornarem uma triste e desafiadora realidade.

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A COP18 não é exceção nesse cenário: ela foi concebida para encerrar os atuais parâmetros de negociação, estabelecidos em dois caminhos paralelos – Protocolo de Kyoto e Ações Cooperativas de Longo Prazo (LCA) – para dar lugar a um único trilho, a Plataforma Durban (ADP), lançada com o propósito de gerar um acordo global em 2015 que deve entrar em operação em 2020. Desta forma, oficializa-se o atraso do cronograma das negociações em relação às necessidades apontadas pela ciência, pois para termos chances estatísticas de manter o aumento da temperatura média da Terra abaixo de dois graus centígrados, é preciso que as emissões globais não ultrapassem nos anos subsquentes o pico total em 2015 (ou seja, passem a serem reduzidas gradativamente a partir dessa data) – sendo que as metas que estão na mesa aqui na COP18 estão muito longe de permitir isso, como admitiu Christiana Figueres, presidente da UNFCCC, a Convenção Quadro de Mudança de Clima, sob cuja égide ocorrem as negociações.

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De fato, o mundo caminha na contramão da ciência: segundo estudo publicado no periódico Nature Climate Change, as emissões globais de gás carbônico em 2012 alcançaram 35,6 bilhões de toneladas, um aumento de 2,6% em relação a 2011 e em um ano em que grandes economias estão em crise. Em relação aos níveis de 1990, que balizam as metas do Protocolo de Kyoto, o crescimento é de impressionantes 58%. Esse mesmo estudo mostra que o aumento médio nos níveis de CO2 na atmosfera foi de 1,9% nos anos 80, 1% nos anos 90 e 3,1% de 2000 para cá.

E isso nada tem a ver com o trabalho dos negociadores da COP: este cenário resulta de politicas públicas e privadas de crescimento fortemente calcadas nos combustíveis fósseis. Pois se é verdade que o investimento em renováveis tem crescido substancialmente nos últimos anos e que há perspectiva de que em 2015 já sejam a segunda fonte mundial de geração de eletricidade, segundo relatório da Agência Internacional de Energia, os investimentos na exploração dos combustíveis fósseis permanecem em alta, aniquiliando qualquer perspectiva de redução nas emissões. Pior: atualmente eles são considerados item estratégico e imprescindível na política de desenvolvimento de alguns países. E não falamos apenas do Pré-Sal brasileiro: o continente africano tem recebido substanciais investimentos para explorar suas reservas. A economia de Angola e da Nigéria são exemplos da onda do ouro negro. O derretimento da calota do Ártico, por sua vez, não só favorece as companhias de navegação do hemisfério norte (que integram um dos setores econômicos mais poluidores do planeta), como abre espaço para a exploração do petróleo naquelas águas.

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Nos Estados Unidos, houve uma recente recrudescência da produção de combustíveis fósseis, sustentada por tecnologias de exploração e produção que dão acesso a recursos de petróleo e gás de xisto que reduziram os preços do gás e da eletricidade nos Estados Unidos, contribuindo para dinamizar a economia e conferindo uma vantagem econômica a suas empresas. A Agência Internacional de Energia (na sigla em inglês, IEA) prevê os Estados Unidos, que atualmente importam cerca de 20% das suas necessidades totais de energia, serão autosuficientes e, por volta de 2020, se tornarão o maior produtor mundial de petróleo, ultrapassando a Arábia Saudita. Como até lá deve ocorrer uma maior eficiência energética nos veículos automotores, a IEA acredita que Tio Sam poderá se transformar em um exportador líquido de petróleo por volta de 2030.

Ao mesmo tempo, as metas estabelecidas pelo Protocolo de Kyoto levaram muitos países a tranferirem as tecnologias poluidoras para nações em desenvolvimento, como Índia, China e Brasil – onde Estados abrem mão do ICMS para atrair fábricas que contribuem com a elevação de nossas emissões. A exportação da poluição é uma realidade, assim como a insistência em padrões de produção e consumo poluidores: não por acaso, após um longo periodo de redução do IPI dos carros e crescimento da frota de São Paulo, registra-se elevação nas emissões da capital paulista.

Na reta final da COP 18, é bem provável que se busque um bode expiatório para levar a culpa por um eventual fracasso deste encontro. Se isso vier a acontecer, apenas lembre-se: a culpa não é dos negociadores. Eles apenas refletem, aqui, o atual estado do mundo, que infelizmente vive uma vergonhosa omissão moral em relação ao que a ciência indica.

* Morrow Gaines Campbell III é especialista em Clima, membro do Conselho de Administração da Climate Action Network (CAN) e Coordenador do Grupo de Trabalho sobre REDD (Redução de Emissões de Desmatamento e Degradação de Florestas) da CAN. Participa de conferências climáticas desde 2007.

Sílvia Dias é socióloga pela USP com especialização em sustentabilidade pela FGV e acompanha as negociações climáticas desde 2009. É membro do Conselho Deliberativo do Vitae Civilis e dirige a AViV Comunicação.

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