Índios também querem influenciar decisões da Rio+20

Reunidos na Aldeia Kari-Oca, indígenas de diversas partes do mundo debatem temas ambientais e montam carta que será entregue a chefes de Estado

Anderson Dezan , iG Rio de Janeiro |

Anderson Dezan
Marcos Terena (ao centro com camisa branca) ao lado de índios que participam da Kari-Oca, no Rio

Uma aldeia urbana montada no Rio de Janeiro para ser um espaço de debate entre índios de diferentes etnias do mundo. Assim é a Kari-Oca, evento paralelo à Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável ( Rio+20 ) que tem como meta montar uma carta com recomendações ambientais dos indígenas para ser entregue aos chefes de Estado que vão estar presentes no evento da ONU.

Confira o especial do iG sobre a conferência Rio+20

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Tenda dos debates da Kari-Oca

A Kari-Oca é uma reedição do encontro homônimo ocorrido no mesmo local, na Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, na zona oeste da capital fluminense, há 20 anos, durante a Eco-92. Na programação estão apresentações de líderes indígenas brasileiros e estrangeiros e debates sobre temas que vão nortear o documento final: sustentabilidade, soberania alimentar no mundo moderno e cultura como parte essencial da economia verde.

“Temos uma lei da ONU que reconhece a autonomia do índio. Mas, na relação com o governo, o homem branco sempre falou por nós. Seja através das ONGs ou das políticas públicas. Queremos mudar essa relação e mostrar que o índio é responsável pelos seus atos. Queremos mostrar a cara do índio”, disse ao iG o cacique Marcos Terena – o sobrenome é o título de sua etnia – , de 52 anos, responsável pela organização da Kari-Oca.

De acordo com Terena, entre os pontos que vão constar na carta que será entregue aos chefes de Estado na Rio+20 estão: créditos de carbono, mudanças climáticas, marcações de territórios e reservas minerais localizadas em áreas destinadas aos chamados “povos originais”.

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Oca construída para a aldeia urbana montada no Rio de Janeiro

“O encontro com povos de outros países (EUA, Canadá, México, Bolívia, Nigéria e Filipinas, entre outros) é importante porque os problemas que os indígenas do restante do mundo enfrentam são os mesmos que os nossos. Por aqui, 15% das terras do Brasil são indígenas, onde estão riquezas minerais do futuro. Não queremos que o país se esqueça da gente como parte histórica do futuro que queremos construir”, refletiu Terena.

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Akauã com a mulher e as filhas

Segundo o líder indígena, a questão polêmica envolvendo a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte , no Rio Xingu, não será abordada separadamente na carta que será redigida na Kari-Oca. “Ela vai ser citada como um exemplo que não traz benefícios nem para a natureza e nem para os povos indígenas da região. O governo tem mais de 100 hidrelétricas na Amazônia. Por que ninguém discute também essas outras?”, questionou.

Para o índio Akauã, de 30 anos, da etnia Kamayurá, do Alto Xingu, a utilização de Belo Monte como exemplo negativo é importante. Esse seria o primeiro ponto que ele abordaria com um chefe de estado, caso tivesse oportunidade, mesmo sua tribo estando localizada em uma área que não sentirá os efeitos diretos da construção.

“Essa usina é uma coisa muito triste. Tinha que ser proibida”, disse ele, que viajou por três dias com a mulher, suas duas filhas e outros 42 integrantes da mesma tribo. “Viemos porque queremos garantir o futuro de nossos filhos”.

Naku, de 22 anos, veio do Tocantins com outros 20 membros da tribo Karajá para o evento ambiental. Segundo ele, a preocupação de seu povo está voltada para a demarcação de terras. “É uma questão muito importante. A minha tribo não tem esse problema, mas temos parentes que passam por isso. O espaço em que vivem está diminuindo. Os índios precisam de terras e muitos estão perdendo”, reclamou.

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Naku (à esq) ao lado de outros integrantes da tribo Karajá


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