“Apenas um terço das empresas realiza práticas sustentáveis”, diz diretor da ONU

Para diretor do Pacto Global das Nações Unidas, que coordena iniciativas de sustentabilidade corporativa, há ainda um longo caminho para que empresas e governos saiam de cima do muro

Maria Fernanda Ziegler - iG São Paulo |

Divulgação
Para Georg Kell, governos e empresas precisam fazer mais para a sustentabilidade

Durante a Rio+20 , líderes de mais de mil grandes empresas vão se reunir no Fórum de Sustentabilidade Empresarial, no hotel Windsor Barra, para discutir práticas de sustentabilidade corporativa. Serão mais de 100 painéis sobre temas como energia, água, agricultura, finanças e desenvolvimento sustentável.

Para o diretor executivo do Compacto Global das Nações Unidas, Georg Kell, a maior iniciativa global sobre sustentabilidade corporativa, só é possível conseguir boas práticas quando empresas e governos se comprometerem.

Kell afirma ainda que embora existam muitos bons exemplos, apenas um quarto das empresas que fazem parte do grupo estão preparadas para agir de maneira sustentável. “Setenta e cinco por cento ainda está apenas aprendendo”, disse em entrevista ao iG . Kell acredita, no entanto que com a Rio+20 seja possível que este “longo caminho” para a prática sustentável nas empresas seja encurtado e que o empresas e governos “saiam de cima do muro”.

O Pacto Global da ONU é uma iniciativa para que empresas comprometidas alinhem suas estratégias de crescimento a dez princípios ligados a áreas de direitos humanos, trabalho, meio ambiente e combate à corrupção .Leia abaixo entrevista com Georg Kell:

iG: O que será discutido no Fórum de Sustentabilidade Empresarial? Que tipo de inovação será abordado?
Georg Kell: O mais importante é que vamos falar de todo o negócio de sustentabilidade no geral, pois hoje temos muitas empresas com boas práticas de sustentabilidade e que se tornam competitivas. Queremos mostrar que um número crescente de empresas está indo por este caminho. Será o maior encontro que já aconteceu neste sentido, com 2,5 mil participantes e cerca de 1,5 mil empresas. Teremos um documento final no qual vamos resumir as melhores práticas assim, como um chamado de ação para os governos.

iG: Na sua opinião, qual é a importância dos governos e das empresas na tentativa de desenvolver a chamada economia verde?
Georg Kell: Precisamos que ambos trabalhem, assim como também precisamos do envolvimento da sociedade. Os negócios fazem parte da sociedade e precisam de incentivo e regulação. Sem os incentivos corretos e a regulação correta, o foco na sustentabilidade não será atingido. Mas sem companhias preocupadas com isso, políticas de incentivo as práticas de sustentabilidade, assim como a sociedade e educação, ela também não será alcançada. Os governos podem fazer mais para promover a sustentabilidade nas empresas. Basicamente, o desenvolvimento sustentável precisa ser um movimento de massa para a mudança com todos envolvidos. No nosso lado, no Compacto Global, queremos que isto aconteça de uma maneira inclusiva com a sociedade civil, empresas e governo. Então é uma interface entre políticos e a sociedade. Acredito que a Rio+20 vai encurtar este caminho.

iG: Há muita crítica, entre os ambientalistas, de que grandes empresas fazem lobby para que novas tecnologias não sejam implantadas, por exemplo. Como convencê-las  de que elas podem economizar e ganhar dinheiro sendo mais verdes?
Georg Kell: É claro que é verdade que muitas empresas ainda não estão prontas para implantar práticas de sustentabilidade. A maioria delas ainda não está preparada. Nós temos estatísticas que mostram que o Compacto Global cresceu rapidamente: temos agora sete mil participantes ativos. Deste total, cerca de um quarto está avançando e 75% está aprendendo ainda. Sete mil parece um bom número, mas é ainda uma pequena parte da comunidade coorporativa global. As autoridades permanecem em cima do muro, não estão ainda preparadas para implantar práticas de sustentabilidade. E os governos muitas vezes estão bloqueando os pequenos movimentos de sustentabilidade. Esta é uma espécie de contradição que temos entre os anúncios coorporativos e o que eles fazem com o governo. Nós queremos buscar um alinhamento entre as ações e o lobby.

Veja a cobertura completa sobre a conferência Rio+20

iG:Muitos dizem que o discurso sustentável de muitas corporações não passa de estratégia de marketing para melhorar sua imagem, sem realmente nenhuma ação efeitiva. É possível evitar isso?
Georg Kell: As empresas que entram no Compacto Global têm seus relatórios analisados e também há comparação com aquilo que elas anunciam fazer e efetivamente fazem. É preciso controle. Somos muito severos com este comprometimento. É preciso um comprometimento com a transparência. Quando a empresa entra para o Compacto há um diálogo para dividir experiências onde as práticas são analisadas.

iG: Por que ainda a maioria das empresas não está preparada para exercer práticas sustentáveis?
Georg Kell: Por causa de diferença de modelos e de perspectivas sobre o futuro e também por que algumas empresas pensam no curto prazo. Há ainda um pensamento muito antigo que muitas vezes é difícil de mudar. É incrível como algumas empresas se parecem com dinossauros. A realidade hoje é que precisamos de gestores inteligentes, capazes de fazer mudanças. Há um número muito grande de empresas que precisam de novas políticas para aumentar a eficiência. Esta é uma batalha que continua para que a empresa cresça a partir de práticas de sustentabilidade. Enfim, ainda não estamos na nova economia, mas chegaremos lá.

iG: Alguns setores da economia causam, até pela essência do seu negócio, maior impacto ambiental. Como estas empresas podem ser sustentáveis?
Georg Kell: Primeiramente acho que é preciso reconhecer que os recursos naturais ficaram cada vez mais sob pressão. Por isso, se houver um grande comprometimento e um pensamento de longo prazo para usar estes recursos naturais de forma adequada, serão usados os métodos mais eficientes. Pois para melhorar a pegada ecológica necessita do uso de métodos eficientes. A verdade é que isto é um desafio é o uso de recursos naturais precisa ser discutido no mundo inteiro. Vejo que no Brasil há uma tendência de uma mente mais aberta para estas novas práticas, pois há o interesse em produzir mais por causa do aumento da classe média.

iG: Mas se a única maneira de elas serem sustentáveis for a partir de medidas compensatórias, como torná-las rentáveis causando o menor impacto possível ao meio ambiente?
Georg Kell: Acredito que quando se fala de recursos naturais e agricultura a questão é entre explorar em pouco tempo, ou trabalhar com qualidade por longo prazo. O investimento em qualidade pode custar um pouco mais caro no início, mas em pouco tempo é possível se tornar competitivo internacionalmente. Os consumidores em todo o mundo estão se tornando cada vez mais preocupados e forma contínua sobre como os produtos são produzidos, como são distribuídos. É uma tendência global e irreversível.

iG: As dez regras do Compacto Global incluem meio ambiente, combate a corrupção, direitos humanos. O senhor observa que quando uma empresa vai mal em um destes pontos, normalmente vai mal nos outros também?
Georg Kell: Nós chamamos do Compacto Global de integrador de todos os valores . Você não pode ter um sem o outro, uma empresa só fica madura com todos estes valores estabelecidos. Não é possível compensar problemas relacionados a direitos humanos, corrupção com filantropia. Acredito que é preciso seguir este pacote para crescer em eficiência e liderar no setor, pois para tudo isso é preciso controle e processos.

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