“O tempo acabou”, diz Ban Ki Moon a negociadores de documento da Rio+20

Secretário geral da ONU dá puxão de orelhas nos negociadores durante rodada extraordinária em Nova York

Carolina Cimenti, especial para o iG de Nova York |

AP
Secretário-geral da ONU Ban Ki-moon alertou os negociadores da Rio+20 que é preciso fechar as pendências antes da conferência
As fortes divisões entre países desenvolvidos, países em desenvolvimento e os grupos que cada um deles representam forçaram a Organização das Nações Unidas (ONU) a acrescentar uma rodada adicional de negociações para chegar a uma versão do documento final da Rio+20 que seja aceita por todos. Os membros da ONU estão reunidos esta semana em Nova York para finalizar o esboço que deverá ser assinado pelos chefes de Estado no Rio de Janeiro entre 20 e 22 de junho.

Durante a tarde do primeiro dia das negociações, o secretario geral da ONU, Ban Ki-Moon, deu um puxão de orelha nos negociadores presentes. “Todo mundo já examinou esse documento microscopicamente. Agora o tempo acabou. O trabalho de vocês é importante demais para o mundo todo, vocês não podem nos decepcionar”, disse Moon, solicitando que o rascunho do documento a ser levado para a conferência seja encerrado nos próximos dias.

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A diplomata canadense Tina Sherman, que acompanhou todas as etapas dessa negociação, disse ao iG que a nova rodada desta semana parece estar sendo mais produtiva. “Nas outras vezes, os países faziam mudanças no texto, mas só víamos o resultado ao final do encontro. Esta semana, os mediadores estão editando e fazendo sugestões que nos ajudam a chegar a um consenso durante as discussões”, disse Sherman, que se disse cansada com esse longo processo.

O secretário-geral da ONU disse ainda que não estava presente para impor nada aos estados membros. “Eu só quero lembra-los que não é razoável deixar tantos temas pendentes para serem negociados diretamente pelos chefes de Estado durante a Rio+20. Essa é a responsabilidade de vocês, aqui nesta sala e essa semana. O mundo inteiro está esperando por isso”, alertou Ban Ki-Moon.

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De acordo com um diplomata da comitiva brasileira, as infinitas mudanças no texto final, que já passa de 100 páginas, atrapalham o processo, mas não são o principal empecilho. Segundo ele, as verdadeiras negociações mais complicadas são feitas fora da sala principal. “É ao lado do café ou sentados nas poltronas dos corredores que as verdadeiras negociações estão ocorrendo. Aqui é mais uma questão de semântica e de ajustar as palavras”, disse o diplomata ao iG .

E ajustar palavras é a expressão correta. O grupo todo chega a gastar 15 minutos simplesmente para decidir se, no início de uma frase, prefere usar a palavra “nós agradecemos veementemente aos esforços da ONU...” ou “nós felicitamos veementemente os esforços da ONU...”. Um país pede uma palavra, outro país pede que ela seja deletada, e o G77+China (o grupo dos países em desenvolvimento, do qual o Brasil faz parte e que não raras vezes se mostra bastante dividido) pede uma modificação. E assim os diplomatas passam a manhã e a tarde negociando o documento, vírgula por vírgula.

Antes de deixar o pódio da sala principal, Ban Ki-Moon ainda fez um pedido encarecido: “O Rio não é o final da etapa, mas, sim, o início de um novo processo de uma discussão maior sobre o meio ambiente. Não o deixem morrer antes mesmo que ele nasça”, concluiu o secretario geral, antes de ser fortemente aplaudido.

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