Para coordenador da Rio 92, modelo de negociação sobre clima gera impasse

Embaixador aposentado Marcos Azambuja diz que debate multilateral e consensual dificulta fechamento de acordo entre países

Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro |

O embaixador aposentado Marcos Azambuja, coordenador das posições brasileiras na Rio 92 (Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente e o Desenvolvimento), afirmou que o modelo escolhido de negociação sobre as mudanças climáticas, implantado desde a Rio 92, é o responsável por impasse quase insolúvel e gera atrito e “exasperação” entre os atores. O modelo – de negociação global multilateral por consenso – será o mesmo usado pela Rio+20 .

“Quando a humanidade quis fazer coisas radicais, usou métodos radicais, as revoluções. Para mudar dramaticamente as coisas, há instrumentos dramáticos de ação. A negociação lenta, paritária e consensual não é instrumento que leve a isso. Então estamos com um problema que é o impasse entre metodologia e objetivo”, disse Azambuja, em palestra no evento “No Caminho da Rio+20” , promovido pela Fundação Konrad Adenauer.

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Ele relatou um episódio ocorrido na Conferência do Clima de Copenhague que ilustraria o “desespero” dos líderes em obter um acordo. “Na última grande reunião (Copenhague) chegamos ao extremo de os presidentes dos EUA, do Brasil, da Rússia e da China começarem, eles próprios a redigir um texto, coisa inteiramente absurda para chefes de Estado”, disse.

Azambuja criticou ainda o grande número de rodadas de negociação, o que, afirma, não faz o assunto progredir e “cristaliza” posições antagônicas, além de gerar “exasperação” entre os negociadores. “Noto uma irritabilidade a priori, fator complicador. Nesses casos, é como um pneu que gera fricção, mas não tração”, disse.

Para o embaixador aposentado, a discussão sobre o clima assume, em alguns casos, um tratamento quase “religioso”, no que diz respeito a acreditar ou não.

“A China vê o debate como uma tentativa final de atingi-la e impedi-la de ser a principal potência mundial. Nos EUA, um dos grandes partidos, o Republicano, simplesmente não acredita no aquecimento global causado pelo homem, descrê de mudanças climáticas. Tende a ter um certo absolutismo de religião e uma certa rejeição à crítica. Para quem acredita, criticar é quase uma ‘heresia’”, afirmou Azambuja.

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