Mal de Alzheimer poderá ser diagnosticado ainda em vida

Nova tecnologia criada por pesquisadores americanos poderá ser usada em breve em exame de sangue

Cristina Caldas, especial para o iG |

Hoje em dia, só é possível diagnosticar a doença de Alzheimer depois da morte do paciente, por meio de autópsia do cérebro. Por isso, a busca por moléculas presentes na corrente sanguínea de pacientes – os chamados biomarcadores - que sinalizem a presença da doença é uma das frentes mais importantes em pesquisas sobre o mal, que acaba de ganhar um marco. Em trabalho publicado nesta quinta-feira (6) na revista especializada Cell, cientistas identificaram dois biomarcadores de Alzheimer com potencial para uso em testes sanguíneos.

Os pesquisadores sintetizaram no laboratório milhares de moléculas que parecem pedaços de proteínas, mas que ao invés de serem montados com os blocos naturais – os peptídeos –, são cadeias dos chamados peptóides.

Após montar a biblioteca, os cientistas avaliaram se os anticorpos presentes no sangue de pacientes com Alzheimer conseguiam se ligar a diferentes peptóides sintéticos quando comparados aos anticorpos de pessoas saudáveis. Assim, foi possível identificar dois anticorpos presentes em alta quantidade em pacientes com Alzheimer, tornando-se bons candidatos como biomarcadores da doença. “Que eu saiba, essa foi a primeira vez que alguém usou moléculas sintéticas rastreadas por populações inteiras de anticorpos para descoberta de biomarcadores”, diz ao iG Thomas Kodadek, pesquisador do Instituto de Pesquisa Scripps, na Florida, autor do trabalho.

O uso de moléculas não naturais não foi por acaso. Segundo relatam no trabalho, os pesquisadores basearam-se na hipótese de que em várias doenças, biomoléculas são modificadas quimicamente de maneiras não usuais. Grande parte dos trabalhos anteriores utilizaram moléculas naturais, como peptídeos, açúcares, lipídeos, na busca por biomarcadores. “No entanto, nenhuma dessas técnicas parece levar a uma rota comum de descoberta rápida de anticorpos biomarcadores com real utilidade diagnóstica”, escrevem os autores no trabalho.

Segundo Renata Pasqualini e Wadih Arap, não envolvidos no trabalho, o trabalho liderado por Kodadek traz insights importantes para a área.

Componentes do sistema imune servem como um sinal de alerta precoce no mal de Alzheimer. “Claro, espera-se que essa estratégia seja apenas o começo e que melhorias na tecnologia possam ser traduzidos para aplicações clínicas”, dizem os pesquisadores que trabalham na Universidade do Texas MD Anderson Cancer Center usando bibliotecas combinatórias para identificar interações protéicas funcionais em doenças humanas.

Kodadek disse ao iG que ele e seu grupo pretendem completar estudos longitudinais para avaliar quão cedo o mal de Alzheimer poderá ser detectado. “Dados preliminares sugerem que podemos diagnosticá-la mesmo antes dos sintomas clínicos aparecerem”, comenta. Eles querem também fazer ajustes nos testes para facilitar sua comercialização, além de aplicar a tecnologia a outras doenças, especialmente câncer.

Há potencial de uso desta tecnologia no diagnóstico de doenças auto imunes, uma vez que para várias delas os fatores que disparam a doença são desconhecidos.

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