Incêndio do Butantan serviu de alerta, mas ainda falta dinheiro

Representantes de três importantes coleções nacionais apontam principais problemas na segurança dos museus em reunião da SBPC

Maria Fernanda Ziegler, enviada a Natal |

AE
Pesquisadores e voluntários trabalham no resgate dos animais atingidos pelo incêndio do Butantan
Muitos perigos ainda rondam os museus brasileiros. O incêndio no Instituto Butantan, que destruiu 80% da maior coleção de serpentes do mundo, serviu de alarme para todos os museus do Brasil. Mesmo assim, poucos problemas começaram a ser resolvidos. Foi o que afirmaram na quinta-feira (29) em uma mesa redonda da reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), os representantes de três importantes coleções do País: Instituto Butantan, Museu Nacional e Museu Paraense Emílio Goeldi.

“Ainda não tivemos aumento de verba”, disse a diretora do Museu Nacional, Claudia Carvalho. Ela afirmou que é necessário pensar em uma origem interministerial ou rubrica própria para a liberação de recursos para as coleções nacionais.

De acordo com Claudia, embora o antigo problema com cupins do Museu Nacional ter sido sanado, ainda falta investimento na segurança do museu, em contratação - são apenas nove funcionários que acompanham a visitação interna -, além da questão de muitos funcionários serem terceirizados e sem treinamento específico.

“Os extintores são trocados periodicamente e estão todos dentro da validade, mas falta treinamento contra incêndios. Muitas pessoas não sabem usar o extintor, eu sou uma delas”, disse. Para a diretora, a principal questão, é que muitos problemas são resolvidos com adaptações. Outro problema é que apesar da reformulação recente do sistema elétrico, “ainda se encontra muita gambiarra nas salas”.

No Pará, os problemas são parecidos, mas pelo menos o incêndio no Butantan serviu para a correção de um erro. ”Semana passada, fizemos uma reunião e nos demos conta que a compra de álcool por licitação era anual. Os pesquisadores estavam armazenando o álcool nas suas salas e nos corredores.”, disse Nilson Gabas Junior, pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi.

O ministro de Ciência e Tecnologia, Sérgio Rezende, enviou um aviso à ministra de Meio Ambiente, Izabela Teixeira, no dia 2 de junho, onde se fazia necessário no curto prazo o lançamento de um edital específico do CNpq para resolver os problemas imediatos de segurança das coleções científicas e biológicas. A verba sairia do MCT e do MMA em associação com as Fundações de Amparo à Pesquisa regionais. Para o longo prazo a proposta é a criação de um Plano Nacional.

Butantan busca arquivos antigos
O Instituto está tentando repatriar as informações perdidas com o incêndio. Para isto, está pedindo àqueles que fizeram pesquisas no Butantan que enviem as informações guardadas em planilhas pessoais. “Eventualmente, tem até fotografias que dão condição de credibilidade à pesquisa”, disse Francisco Luis Franco, curador da coleção herpetológica.

A recuperação é lenta e nunca será completa. O Instituto continua a contabilizar o que sobrou do incêndio. Franco afirma que entre 15% e 20% da coleção de serpentes foi resguardada, 50% dos tipos (exemplares utilizados de espécies novas). “Tem mais galões que não foram abertos ainda”, disse.

O que foi perdido com o incêndio do Butantan :
- Cerca de 80% da coleção de serpentes e 50% da coleção de artrópodos
- Cerca de 50% dos tipos de serpentes e 80% dos tipos de artrópodos
- Cerca de 70% da coleção de tecidos
- Documentação sobre a curadoria da coleção
- Cerca de 60% do material emprestado de outras coleções
- Muitas teses, trabalhos e publicações foram prejudicadas ou mesmo inviabilizadas
- Biblioteca científica e histórica, inclusive com obras raras
- Equipamentos de laboratório
- Computadores com parte administrativa da coleção e vários manuscritos

O que se salvou no incêndio do Butantan
- Livros tombos originais
- Planilha eletrônica
- Escritório de recepção e cadastro de recebimento de animais peçonhentos
- Bastante material ainda não tombado de projetos recentes
- Boa parte das coleções referência de outros répteis e anfíbios
- Coleção osteológica
- Parte administrativa e laboratorial do Laboratório de Artrópodos
- Parte das separatas e poucos livros e revistas
- Talvez os dados dos HDs dos computadores
- Dois ultra-freezers

Dados de Francisco Luis Franco, curador da coleção herpetológica do Instituto Butantan.

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