Híbridos podem florescer onde seus pais temem pôr os pés

As barreiras entre espécies não são necessariamente intransponíveis

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Kekaimalu é um híbrido de golfinho com orca
Em 15 de maio de 1985, treinadores do parque Hawaii Sea Life ficaram impressionados quando um golfinho cinza de 180 quilos, uma fêmea chamada Punahele, pariu um filhote de pele escura que lembrava um macho com quem ela dividia a piscina: uma falsa-orca de 900 quilos. O filhote era um híbrido de golfinho com baleia, intermediário entre seus pais em algumas características, como ter 66 dentes, em vez dos 44 do golfinho e dos 88 da falsa-orca.

Em 2006, um caçador no Ártico canadense atirou num urso que tinha a pele branca, como a de um urso polar, mas tinha manchas marrons, longas garras e uma corcunda como a de um urso marrom. Análises de DNA confirmaram que o animal era um híbrido das duas espécies.

Embora alguns possam achar que essas esquisitices sejam exemplos de algum tipo de colapso moral no reino animal, a hibridização entre espécies distintas não é tão rara. Alguns biólogos estimam que até 10% das espécies animais e até 25% das espécies de plantas podem ocasionalmente se reproduzir com outra espécie. A questão mais importante não é se tais ligações eventualmente produzem descendência, mas a vitalidade do híbrido e se as duas espécies podem se juntar para dar início a uma terceira espécie distinta.

Enquanto diversos exemplos de híbridos animais criados pelos humanos são bem conhecidos e podem se desenvolver em cativeiro, incluindo zebra com cavalo, bisão com gado de corte e, é claro, mulas (cavalo com asno), os híbridos animais de ocorrência natural possuem muitos fatores trabalhando contra
seu sucesso em longo prazo.

Às vezes, sucesso evolutivo
Um dos principais obstáculos é que, mesmo quando membros de espécies diferentes podem acasalar, se as duas espécies são distantes demais geneticamente ou carregam diferentes números de cromossomos, a descendência é geralmente inviável ou infértil (como os híbridos de zebras com cavalos e as mulas), e evolutivamente não leva a lugar algum. Um segundo problema é que qualquer híbrido estará geralmente em completa inferioridade numérica e competitiva, em relação às espécies do pai e da mãe. Mas como as espécies híbridas criam novas combinações de genes, é possível que algumas combinações permitam que os híbridos se adaptem a condições onde nenhum de seus progenitores obteria sucesso. Diversos exemplos disso são atualmente conhecidos na natureza. Além disso, as análises de DNA de hoje estão permitindo que biólogos decifrem melhor as histórias das espécies, identificando ocorrências passadas de hibridização que contribuíram com novos genes e capacidades a vários tipos de organismos – incluindo, ao que parece, nós mesmos.

Um conhecido girassol proporcionou ótimos exemplos de adaptação por híbridos. Loren H. Rieseberg, da Universidade da Columbia Britânica, e colegas descobriram que duas espécies bastante disseminadas, o girassol comum e o das pradarias, se combinaram ao menos três vezes para gerar três espécies híbridas: o girassol da areia, o girassol do deserto e uma terceira espécie chamada Heliantus paradoxus .

As espécies parentais crescem em solos úmidos dos estados centrais e do oeste, mas os híbridos são restritos a habitats mais extremos. O girassol da areia, por exemplo, é limitada às dunas de areia do Utah e do norte do Arizona, e a paradoxus , a zonas de água salobra no oeste do Texas e no Novo México.

Fugindo da família
A distribuição das espécies sugere que os híbridos florescem onde seus pais não poderiam. Realmente, recentes testes de campo que examinaram a habilidade relativa das espécies parentais prosperarem no habitat dos híbridos, e vice-versa, mostraram que o girassol da areia era mais capaz que seus pais de germinar, crescer e sobreviver em seu habitat de dunas, mas não se saía bem nos habitats de seus pais. Da mesma forma, a paradoxus florescia muito melhor nas condições salobras do que seus pais.

Uma lição aprendida com os girassóis parece ser que os híbridos podem prosperar, caso consigam explorar um nicho diferente do de seus pais. O mesmo fenômeno foi descoberto em híbridos animais.

Nos últimos 250 anos, diversas formas de madressilvas foram introduzidas nos estados do norte. No final da década de 1990, pesquisadores liderados por Bruce McPheron, da Universidade Estadual da Pensilvânia, descobriram que essa madressilva invasora estava infestada por uma espécie específica de mosquitos de frutas, que eles chamaram de mosca Lonicera . Ao analisar DNA para determinar seu relacionamento a outras moscas, eles ficaram surpresos em descobrir que ela era um híbrido de duas moscas intimamente aparentadas, a R. mendax e a R. zephyria .

Em experimentos de laboratório, os pesquisadores descobriram que o híbrido Lonicera preferia ter sua madressilva como hospedeira do que as plantas hospedeiras das espécies de seus pais, e que cada espécie parental preferia sua própria planta como hospedeira. Entretanto, as duas espécies parentais também aceitavam a madressilva. Os pesquisadores sugerem que, como as duas espécies parentais tinham mais chances de se encontrar em madressilvas na natureza, a nova planta invasora serviu como catalisador para acasalamentos entre as espécies – e à formação da espécie híbrida que hoje prefere a madressilva.

Os exemplos do girassol e da mosca Lonicera levantam a questão de se a hibridização entre espécies tem sido mais frequente do que os biólogos imaginavam. O relato mais provocativo de uma possível hibridização veio da recente análise de mais de 60% do genoma do Neandertal, que levantou o espectro de nossos ancestrais misturando seus genes com um primo distante.

Amor ou guerra?
Análises da distância genética geral entre Neandertais e humanos modernos revelam que nosso DNA é 99,84% idêntico ao do Neandertal. Essa pequena divergência indica que as duas linhas se separaram uma da outra de 270 mil a 440 mil anos atrás. As evidências fósseis mostram que os Neandertais eram restritos a Europa e Ásia, enquanto o Homo sapiens se originou na África. Vários tipos de evidências indicam que o humano moderno migrou a partir da África e chegaram ao Oriente Médio há mais de 100 mil anos, e na Europa há cerca de 45 mil anos – e teria encontrado os Neandertais por algum tempo em cada localização. A questão crucial para a palentologia, a arqueologia e a paleogenética tem sido o que se espalhou entre as duas espécies. Para falar de forma um pouco mais crua, nós saímos com eles ou os matamos, ou talvez ambos?

Se a última opção estiver correta, então pode haver um pouco de Neandertal em alguns de nós, ou em todos. As primeiras comparações de pequenas partes de DNA Neandertal não indicaram qualquer hibridização, e a falta de cruzamento se tornou uma conclusão amplamente aceita. Esse foi o caso até este ano, quando uma parte muito maior do genoma do Neandertal foi obtida por Svante Paabo e colegas do Instituto de Antropologia Evolutiva Max Planck, em Leipzig, Alemanha. Agora parece que de 1 a 4% da sequência de DNA de europeus e asiáticos, mas não dos africanos, foi contribuição da mistura entre Neandertais e Homo sapiens, talvez no Oriente Médio, há 50 ou 80 mil anos. É possível que algumas versões de genes Neandertais tenham possibilitado a adaptação dos seres humanos a novos climas e habitats.

A descoberta de espécies híbridas e a identificação de hibridizações passadas vêm forçando os biólogos a reformular sua imagem das espécies como unidades independentes. As barreiras entre espécies não são necessariamente vastos abismos intransponíveis; algumas vezes elas são atravessadas, e com resultados incríveis.

(Por Sean B. Carroll, biólogo molecular e geneticista na Universidade de Wisconsin)

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