Fukuyama reconta História pela perspectiva das estruturas sociais

Cientista político de Stanford diz, em seu novo livro, que sociedade tem padrões recorrentes de comportamento ao longo do tempo

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Francis Fukuyama, em seu novo livro, disseca as estruturas sociais ao longo da História
O comportamento social humano tem um aspecto evolucionário. Essa foi a tese do livro “Sociobiology”, de Edward O. Wilson, que causou grande agitação, embora a maioria dos biólogos evolutivos aceite que pelo menos alguns comportamentos sociais, como o altruísmo, possam ser favorecidos pela seleção natural.

Num livro que será publicado em abril, “The Origins of Political Order”, Francis Fukuyama, da Stanford University, apresenta uma nova e arrebatadora visão de estruturas sociais humanas ao longo da história, a partir da ambiciosa síntese deixada por Wilson.

O cientista político Fukuyama se preocupa, em grande medida, com os aspectos culturais, não biológicos, da sociedade humana. Mas ele assume explicitamente que a natureza social humana é universal, e construída ao redor de certos comportamentos evoluídos, como favorecimento de parentes, altruísmo recíproco, criação e obediência a regras, e propensão à guerra.

Devido a essa natureza humana compartilhada, com sua base biológica, “a política humana está sujeita a certos padrões recorrentes de comportamento ao longo do tempo e em diferentes culturas”, ele escreve. São esses padrões mundiais que ele tenta descrever numa análise que se estende de tempos pré-históricos até a Revolução Francesa.

Tentativas anteriores de escrever grandes análises sobre o desenvolvimento humano tendiam a focar numa única explicação causal, como economia ou guerras, ou, como no caso de “Guns, Germs and Steel” de Jared Diamond, geografia. A postura de Fukuyama é pouco comum no sentido de que ele considera vários fatores, incluindo guerras, religião, e em particular comportamentos sociais humanos, como favorecimento de parentes.

Poucas pessoas já leram o livro, mas ele vem criando uma agitação considerável em universidades onde o autor se apresentou. “Ficamos impressionados com a extraordinária amplitude de abordagem”, disse Arthur Melzer, cientista político da Michigan State University que convidou Fukuyama para fazer palestras sobre o livro. “Certamente é uma obra-prima”.

Melzer elogiou a visão de Fukuyama de que as sociedades se desenvolvem politicamente de várias formas diferentes, seguidas pela seleção dos indivíduos com maior sucesso, em vez de uma marcha por uma única via em direção ao desenvolvimento político. “É o tipo de teoria situada entre a hiper-teoria de Marx ou Hegel e a 'thick description’ buscada por certos antropólogos e historiadores”, ele disse.

Georg Sorensen, cientista político da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, também chamou o livro de obra-prima, afirmando que ele oferece “uma nova base para a compreensão do desenvolvimento político”. Não é eurocêntrico nem monocausal, mas fornece uma explicação complexa e multifatorial do desenvolvimento político, segundo Sorensen. “Em termos de discussão da ordem política, este será um novo clássico”.

Fukuyama caiu na atenção do público em 1989, com seu artigo “The End of History”, um título muito mal compreendido no sentido de que nenhuma grande reviravolta ocorreria no futuro. Na verdade, o ensaio tratava da evolução das sociedades humanas e da crença de Hegel e Marx de que a história seria completada quando a ordem política ideal fosse alcançada – o estado liberal, na visão de Hegel; o comunismo, na visão de Marx.

Ao contrário de alguns estudiosos que decaem após um único livro brilhante, Fukuyama produziu um conjunto estável e amplo de obras, mergulhando na sociologia com seu livro “Trust” (1996) e na biotecnologia com “Our Posthuman Future” (2003). Ele também foge do comum ao combinar a teoria acadêmica a um interesse prático no desenvolvimento econômico. Ele é consultor frequente do Banco Mundial e de outras agências.

Fukuyama também tem uma dimensão política, e muitas vezes é associado ao movimento neoconservador. Ele assinou uma carta após os ataques de 11 de setembro pedindo que o presidente George W. Bush derrubasse Saddam Hussein.

Mas em 2006 ele já tinha se tornado um crítico da invasão do Iraque e do movimento neoconservador, que ele alegou não poder mais apoiar.

Numa entrevista na Escola de Estudos Internacionais Avançados da Johns Hopkins, em Washington, onde ele participava de uma conferência sobre biologia sintética, Fukuyama disse ter escrito seu novo livro como “a preparação que eu gostaria de ter tido quando comecei nas ciências políticas”. Ele baseou o livro em biologia porque não compartilha o que, segundo ele, é uma “grande hostilidade de muitas ciências sociais em absorver informações das ciências naturais”.

O livro rastreia o desenvolvimento da ordem política a partir das primeiras sociedades humanas, que eram pequenos grupos de caçadores e coletores. O primeiro grande desenvolvimento social, na visão de Fukuyama, foi a transição de bandos de caçadores e coletores para tribos, o que foi possível através de ideias religiosas que uniram grandes números de pessoas para adorar um ancestral comum. Como uma tribo poderia se mobilizar rapidamente muitos homens para a guerra, os bandos vizinhos também tinham que se tribalizar, ou seriam derrotados.

A guerra também forçou a segunda grande transição social, de tribos para estado. Os estados são melhor organizados e mais estáveis do que as tribos, já que essas tendem a se dissolver em conflitos depois da morte de um líder.

Apenas porque os estados ofereciam uma chance melhor de sobrevivência é que as pessoas abriram mão da liberdade de uma tribo pela coerção do estado.

Grande parte da análise de Fukuyama trata de como o estado se desenvolve a partir de tribos. Essa transição, em sua opinião, é afetada pela geografia, história, e em particular pela ordem na qual os diferentes componentes institucionais do estado são colocados. Dependendo da ordem dos eventos, vários tipos diferentes de estados emergiram na China, na Índia, no mundo islâmico e na Europa, e até mesmo dentro da Europa há muitas grandes variações do mesmo tema.

“Não damos importância às instituições, mas na verdade não temos ideia de onde elas vêm”, ele escreve. As instituições são as regras que coordenam o comportamento social. Assim como as tribos se baseiam no profundo instinto humano de cuidar da família e dos parentes, os estados dependem de propensão humana a criar e obedecer a regras sociais.

Fukuyama enfatiza o papel da China, pois esse foi o primeiro estado. A dinastia Qin, fundada em 221 a.C., prevaleceu sobre o tribalismo, a condição-padrão de grandes sociedades, ao desenvolver uma classe oficial leal ao estado, não à família e ao parentesco.

O tribalismo só desapareceu na Europa mil anos depois. Ele deu lugar primeiramente ao feudalismo, uma instituição na qual camponeses estavam obrigados a servir um senhor em troca de proteção. Assim, quando surgiram os reis, eles quase nunca adquiriram poderes absolutos, como ocorreu na China, porque tinham de dividir o poder com senhores feudais.

Outro impedimento para o domínio absoluto na Europa, segundo Fukuyama, foi que o conceito de domínio da lei surgiu muito cedo, em grande parte devido ao desenvolvimento da igreja do direito canônico no século 11. Assim, quando fortes governantes começaram a construir estados, eles tinham de levar em consideração os emergentes códigos da lei civil.

Então os europeus desenvolveram a ideia pouco comum de que era a lei que deveria ser absoluta, não o governante. Em busca desse princípio, o parlamento inglês executou um rei, Carlos I, e depôs outro, James II. Isso mostrou ser uma solução durável para o problema de construir um estado forte, mas uma solução na qual o governante tinha responsabilidades.

Outros países europeus desenvolveram instituições similares àquelas da Inglaterra, mas não conseguiram alcançar um equilíbrio sustentável de poder entre o governante e as elites. Na França, a nobreza rejeitou a tentativa do estado de cobrar impostos, então a carga caiu cada vez mais sobre os camponeses, até que chegou a um nível intolerável, levando à Revolução Francesa. Na Hungria, as elites eram tão poderosas que negaram ao rei a autoridade de planejar uma defesa adequada. O exército húngaro foi aniquilado pelos mongóis na batalha de Mohi, em 1241, e novamente pelos turcos otomanos na batalha de Mohács, em 1526.

Das potências europeias, apenas Inglaterra e Dinamarca, na opinião de Fukuyama, desenvolveram três instituições essenciais para um estado forte, o domínio da lei, e mecanismos para responsabilizar o governante. Essa fórmula de sucesso então passou a ser adotada por vários estados europeus, através de um tipo de seleção natural que favorecia a variação de maior sucesso.

Embora as instituições sejam a base do estado moderno, o instinto de favorecer a família jamais desaparece, e será reafirmado sempre que possível. Para criar uma classe administrativa leal, disse Fukuyama, alguns estados tomaram a medida extrema de destruir a família, de várias formas originais.

Os imperadores chineses instituíram um grupo especial de eunucos que não tinham família, a não ser o estado, e que passaram a receber mais confiança que os administradores normais. O Papa Gregório VII, no século 11, impôs o celibato aos padres católicos, obrigando-os a escolher entre a igreja e a família.

Governantes islâmicos criaram uma classe livre de laços familiares com a memorável instituição de soldados escravos. Jovens garotos eram tirados de famílias cristãs, muitas vezes nos Bálcãs, criados como muçulmanos e escravos, e treinados como soldados. O sistema, apesar de estranho, era bastante eficaz. Os mamelucos, uma das várias versões desses escravos militares, venceram os mongóis e expulsaram os cruzados. A instituição foi destruída a partir do mesmo perigo que ela deveria evitar: sultões fracos permitiram que os filhos dos soldados sucedessem a seus pais, e a lealdade dos soldados se reverteu para suas famílias, em vez do estado.

Sem levar o comportamento humano em consideração, “não compreendemos bem a natureza das instituições políticas”, disse Fukuyama na entrevista na Johns Hopkins. Esses comportamentos, particularmente a faculdade de criar regras, são a base das instituições sociais, embora o conteúdo das instituições seja fornecido pela cultura. Fukuyama vê a situação como algo similar à da linguagem, na qual os genes geram uma máquina neural para o aprendizado da linguagem, mas a cultura fornece o conteúdo.

Embora culturais, as instituições podem ser difíceis de mudar. O motivo é que, uma vez criadas, as pessoas começam a investir nelas valores intrínsecos, muitas vezes religiosos. Esse processo “provavelmente teve um significado evolucionário em estabilizar sociedades humanas”, disse Fukuyama, já que com um conjunto aceito de regras uma sociedade não teria de lutar contra tudo novamente de tempos em tempos. A inércia das instituições explica por que as sociedades geralmente são tão lentas em mudar. As sociedades não estão presas ao passado, mas tampouco são livres para se remodelarem em qualquer geração.

Assim como as instituições são difíceis de mudar, elas também são difíceis de se desenvolver. “Países pobres são pobres não porque não têm recursos”, escreve Fukuyama, “mas porque não têm instituições políticas eficazes”. A ausência de um forte domínio da lei, em sua opinião, “é uma das principais razões pelas quais os países pobres não conseguem alcançar índices maiores de crescimento”.

Sendo assim, a inércia das instituições significa que é inútil os Estados Unidos tentarem impor um governo democrático em países que nunca o tiveram, como Iraque e Afeganistão? “É extraordinariamente difícil criar instituições em outras sociedades”, afirmou Fukuyama. “Se impusermos regras com as quais as pessoas não têm comprometimento, elas não obedecem. Por outro lado, o Japão, a Coreia e a China já adotaram instituições políticas estrangeiras e fizeram uso delas”.

O primeiro volume de “The Origins of Political Order” termina com o século 18. Um segundo volume trará a história para os dias de hoje. Fukuyama deixa claro que o estado liberal moderno ainda está em sua visão no final da história.

O sistema político chinês, como não tem forma de responsabilizar os governantes, é, no longo prazo, instável, em sua opinião. “Os chineses possuem uma liderança tecnocrática razoavelmente boa. Eles conseguem se mover mais rapidamente do que uma democracia e cortar caminho de grupos de interesse. Mas isso os deixa vulneráveis a problemas de um mau império. Eles acham que o último mau imperador que eles tiveram foi Mao”, disse.

Fukuyama afirma que tem se esforçado para não escrever história à Whig, na qual o passado é apresentado como uma inevitável progressão em direção à democracia liberal. Ele descreve os muitos estados distintos que surgiram na Europa para deixar claro que o caminho inglês era apenas um entre muitos. De fato, o caminho para a democracia era inesperado.

“Meu argumento é que o domínio da lei vem da religião organizada, e que a democracia é um estranho acidente da história”, disse ele. “Os parlamentos na Europa tinham direitos legais, e foi um completo acidente histórico que o parlamento inglês tenha sido capaz de lutar uma guerra civil e produzir um acordo constitucional que se tornou a base da democracia moderna”.

Num universo paralelo sem feudalismo, os governantes europeus poderiam ter sido absolutos, assim como os da China. Mas, através do acidente da democracia, a Inglaterra e depois dos Estados Unidos criaram um poderoso sistema que muitos outros tentam imitar. A questão da China, na perspectiva de Fukuyama, é se uma sociedade moderna pode continuar a ser administrada através de um sistema burocrático de cima para baixa, sem solução para o problema do mau imperador. “Se eu tivesse de apostar em um desses dois sistemas, apostaria no nosso”, ele disse.

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