Fóssil de mastodonte prova que homem caçava há mais de 13 mil anos na América do Norte

Dados reforçam ainda mais a tese de que presença humana no continente é mais antiga do que a chamada cultura Clovis

Alessandro Greco, especial para o iG |

Science/AAAS
Osso de mastodonte com a ponta de lança: prova de caça nas Américas mais antiga do que o convencionado
Novas evidências científicas mostram que a caça já era um hábito comum entre os habitantes da América do Norte antes da cultura Clóvis, iniciada há 13 mil anos atrás.

A derrocada da hipótese de Clovis já estava a pleno vapor desde março com a descoberta de milhares de artefatos humanos de cerca de 15 mil anos no sítio arqueológico de Debra Franklin, no Texas, Estados Unidos, por Michael Waters e colegas.

Um novo artigo publicado por Waters, professor da Universidade do Texas, nesta quinta-feira (20) no periódico científico Science mostra que a costela de um mastodonte incrustada com uma ponta de osso tem 13.800 anos, sugerindo que havia humanos caçadores antes do período Clovis.

A costela foi encontrada na década de 1970 em um sítio arqueológico perto de Manis, no estado americano de Washington, e reexaminada por Waters e colegas utilizando diversas tecnologias, entre elas raio-X, tomografia computadorizada, espectrometria de massa e análise de DNA.

“Espero que o trabalho de Manis junto com minha pesquisa anterior ajude a acabar de uma vez por todas com a ideia de que Clovis representa as primeiras pessoas nas Américas. Precisamos aceitar os fato de que pessoas ocuparam as Américas antes de Clovis e trabalhar na direção de um novo modelo de povoamento que inclua todas as Américas”, afirmou Waters ao iG . E completou: “Os dados genéticos nos mostram que as primeiras pessoas a chegar as Américas vieram da Ásia. Eles também parecem sugerir que a dispersão dos humanos modernos para o sul através das camadas de gelo da América do Norte ocorreu há cerca de 16 mil anos. Acredito que agora estamos vendo uma convergência dos dados genéticos e arqueológicos”.
Science/AAAS
O diagrama mostra um esqueleto de mastodonte e a localização do fragmento de osso encontrado na costela

No processo de estudar novamente o material os cientistas, além de verificar que a costela e a ponta incrustada nela tinham a mesma idade, descobriram também que a ponta também era de mastodonte e que a parte dentro da costela tinha cerca de 27 centímetros, o que é consistente com as lanças usadas para caçar grandes animais.

Modelo Clóvis e o Brasil
O modelo Clovis nunca foi uma unanimidade, embora tenha sido o mais aceito para a povoação das Américas. Um dos críticos da teoria, há mais de 20 anos, é o brasileiro Walter Neves, da Universidade de São Paulo. Ele e seus colaboradores defendem a tese de que as Américas foram colonizadas por duas correntes migratórias diferentes vindas da Ásia pelo estreito de Bering e que cada uma delas seria composta por grupos biológicos diferentes.

A primeira teria chegado há 14 mil anos e seus membros teriam uma aparência entre a de negros africanos e dos aborígenes australianos. Um exemplo é o famoso crânio de 11 mil anos batizado por Neves de Luzia, encontrado na região de Lagoa Santa, em Minas Gerais, em 1975. O segundo grupo teria chegado depois e dele descenderiam todas as tribos indígenas do continente. Recentemente, Neves e Mark Hubbe, da Universidade Católica do Norte (Chile), publicaram um artigo na revista American Journal of Physical Anthropology dizendo inclusive que crânios como o de Luzia (mais africanos) seria o formato original dos crânios humanos modernos quando eles saíram da África para colonizar o Novo Mundo.

(Com reportagem de Denise Barros)

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