Fóssil de crocodilo da Tanzânia tinha dentes de mamífero

Animal sugere alto grau de evolução convergente entre répteis e mamíferos durante o período Cretáceo no supercontinente Gondwana

Maria Fernanda Ziegler, iG São Paulo |

Divulgação
O crocodiliano era do tamanho de um gato Crédito: Mark Witton, University of Portsmouth
O fóssil de um crocodilo que foi encontrado recentemente na bacia Rukwa Rift, na Tanzânia, pode mudar o cenário que imaginávamos da vida animal há 100 milhões de anos. Os crocodilianos eram ainda mais variados no período Cretáceo do que nos dias atuais e exploravam mais nichos ecológicos que os crocodilos de hoje.

O Pakasukus kapilia apresenta uma série de semelhanças com os mamíferos – que incluem número reduzido de dentes e dentição especializada, similar a caninos, pré-molares e molares oclusos -, o que sugere um alto grau de evolução convergente entre os crocodilianos e os mamíferos da era Mesozóica.

“A convergência morfológica pode vir a resultar na convergência dos principais mecanismos de desenvolvimento relacionados com a forma do dente, número e organização geral da arcada dentária inteira. Esta descoberta é importante à medida que demonstra como os fósseis podem melhorar a nossa compreensão da diversidade biológica no passado”, explicou, em entrevista ao iG, o coordenador do estudo, Patrick O'Connor

A nova espécie, denominada Pakasuchus , tinha o tamanho de um gato doméstico, mas não tinha a carapaça comum aos crocodilianos, exceto no rabo. Por isso, tinham mais mobilidade. O nome da espécie vem da combinação das palavras Paka (palavra em suaíli, idioma banto, para gato), Souchos (palavra grega para crocodilo e Kapilia (uma homenagem ao professor Saidi Kapimilia). Os pesquisadores suspeitam, com base na mandíbula do Pakasuchus , que ele provavelmente se alimentava de pequenos vertebrados, tais como lagartos e mamíferos, além de uma variedade de invertebrados, como insetos, por exemplo.

“A presença de dentes semelhantes aos dos mamíferos sugere que o animal poderia ter usado um tipo diferente de fonte de alimento, ou talvez, que ele utilizou uma estratégia diferente de processamento de alimentos. Em outras palavras, seus dentes molares teriam permitido que ele processasse alimentos de forma mais eficaz antes de movê-lo para o estômago, o que implicaria mais eficácia em absorver energia de uma fonte de alimento”, disse O´Connor.

Potencial evolutivo
Outros fósseis de répteis com esta característica de dentes mamíferos, os crocodilos notosuchian, já foram encontrados – inclusive no Brasil. Este era um grupo muito numeroso no Hemisfério Sul durante o período Cretáceo. Os motivos do crescimento e posterior desaparecimento desse grupo continuam a ser pesquisados. Uma hipótese do estudo indica que eles foram capazes de explorar um nicho de mamíferos, devido à falta de uma diversificada fauna de mamíferos nestas regiões naquele momento.

Durante grande parte do período Cretáceo, regiões da África Saudita, Índia, Madagascar, Antártida, Austrália e América do Sul se uniram como o sul do supercontinente Gondwana. Relativamente poucos mamíferos da idade Cretácea foram recuperados a partir desta parte do mundo. A maioria dessas descobertas não parece estar relacionada aos mamíferos modernos. Isso leva os pesquisadores a acreditar que os crocodyliforms Notosuchian podem ter ocupado um nicho "mamífero" em Gondwana, durante o Período Cretáceo.

Cenário
Baseado em outros fósseis também descobertos no Projeto da bacia Rukwa Rift, o Pakasuchus viveu ao lado de grandes herbívoros, saurópodes, terópodes, além de outros tipos de crocodilos, tartarugas e diversos tipos de peixes.

Pouco se sabe sobre a vegetação durante este período na Terra, mas a análise sedimentológica detalhada na bacia de Rift Rukwa mostra que "a paisagem era dominada por uma grande rede hidrográfica, com múltiplos, canais que cruzavam os baixo-relevos e as planícies, o que aparentemente apoiou uma fauna relativamente rica em vertebrados”, disse Eric Roberts, um professor assistente de geologia na Universidade James Cook, que colaborou na pesquisa

A equipe de pesquisadores deste projeto, financiado pela U.S. National Science Foundation e a National Geographic Society, está também estudando uma série de outros fósseis descobertos recentemente no sudoeste da Tanzânia. Entre os animais são dinossauros do Cretáceo, diferentes tipos de crocodilos e mamíferos. As descobertas fornecem um vislumbre de animais que habitavam a África continental pouco antes da grande troca com animais da Eurásia.

"Uma das razões pelas quais nós estamos trabalhando em diferentes partes do hemisfério sul, incluindo a África e a Antártida, é que não há muita exploração nesses locais. Ainda estamos reunindo o enigma do que era a vida animal nestes lugares", disse O'Connor.

Assista ao vídeo com a animação  da movimentação da mandíbula do Pakasuchus kapilimai

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