Flórida declara estação de caça contra peixe-leão

Espécie invasora ameaça ecossistema marinho do arquipélago das Florida Keys

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O peixe-leão é uma espécie invasora que se alimenta de outros peixes e se reproduz rapidamente
Caminhando pela sombra azul-turquesa do mar perto da ilha de Tea Table Key, Rob Pillus percebe meia dúzia de lagostas girando suas antenas com a rápida corrente. Pillus, um ávido pescador de arpão, normalmente encheria sua bolsa-rede com esses crustáceos para o jantar, mas hoje ele busca algo mais exótico: uma espécie invasora chamada peixe-leão, que ameaça infligir o caos neste sistema marinho ecologicamente sensível.

Alguns minutos depois, Pillus vê um peixe-leão e suas extravagantes nadadeiras zebradas num poste de ponte. Ele firma seu arpão feito em casa e espeta o peixe, arrancando suas barbatanas venenosas antes de colocá-lo na bolsa. Ele levanta o polegar num sinal de animação e continua andando.

Mais tarde, no convés de seu barco a motor de 28 pés, Pillus entrega cinco peixes-leão a seu colega de equipe, Mike Dugan, que os coloca no gelo.

“A sorte grande, amigos”, exclama Pillus.

Pillus é capitão de equipe dos “Lion Hunters” (caçadores de leões, em tradução livre), um dos 18 grupos de mergulhadores, armados com redes ou arpões, que estão aqui para concorrer na etapa final de uma recém-criada competição de pesca do peixe-leão, no arquipélago de Florida Keys.

Competições como esta são uma das formas pelas quais autoridades e cientistas buscam atrair atenção aos danos que podem ser causados por esse peixe, voraz e de rápida procriação, e tentam controlar sua expansão – que tem sido tão rápida em Florida Keys que os responsáveis pela vida selvagem estão tendo dificuldades em se adaptar. O primeiro peixe não foi descoberto até janeiro de 2009, quando uma única fêmea foi encontrada e imediatamente removida por cientistas de um recife em Key Largo. Hoje o peixe-leão é farto o bastante para ter diversas competições.

“Estamos apavorados”, diz Dave Walton, administrador do Parque Nacional de Dry Tortugas, um grupo de ilhas e reserva ecológica 60 milhas a oeste de Key West, onde os peixes apareceram pela primeira vez, em setembro de 2009.

Uma verdadeira praga
Se o impacto dos peixes-leão em outras partes do Caribe servirem como guia, Walton e outros da região estão certos em estar preocupados. O peixe é um predador temido, que pode devastar populações de peixes onde estiver. Pesquisadores locais examinaram cerca de mil estômagos de peixes-leão e encontraram mais de 50 espécies de peixes dentro, incluindo espécies comercialmente importantes como a garoupa. O peixe também se alimenta de filhotes de peixe-papagaio, que come algas e impede que elas cresçam demais, matando corais.

“O que estamos fazendo agora é o que podemos ver em áreas como as Bahamas, onde você vai a certo recife e tudo que se vê são peixes-leão”, disse Sean Morton, superintendente do Refúgio Marinho Nacional de Florida Keys, um parque de 3.900 milhas quadradas que abrange da Baía de Biscayne ao Parque Nacional Dry Tortugas.

Se o sistema de recifes for esvaziado de outras espécies de peixes graças ao apetite do peixe-leão, o impacto poderia ser devastador à economia da região, que depende fortemente da pesca comercial e do mergulho recreativo. Bob Holston, proprietário da Dive Key West, uma loja local de mergulho, diz que a potencial ameaça pode significar o fim de seu negócio.

“Imagine ir a Yellowstone e não conseguir observar pássaros, ursos, cervos ou qualquer animal – você estaria apenas olhando árvores”, disse ele.

Nativo do Oceano Indo-Pacífico e do Mar Vermelho, o peixe-leão não possui predadores conhecidos. Acredita-se que ele tenha sido libertado por donos de aquários durante a década de 1990, e desde então subiu pela costa leste dos Estados Unidos para a Carolina do Norte e através do Caribe.

Cientistas dizem que o peixe pode produzir 30 mil ovos numa única desova, e consegue desovar até uma vez a cada quatro dias. “Isso significa que estamos olhando a uma produtividade anual de dois milhões de ovos por fêmea”, disse Lad Akins, pesquisador e diretor de operações da Fundação da Educação Ambiental de Recifes, ou REEF (do nome em inglês).

Cientistas e criadores de políticas estão perdidos em relação a como erradicar o peixe, meta que um relatório da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional classificou, em 2003, como “quase impossível”. A única esperança, segundo especialistas, seria algum tipo de controle local.

E é aí que entram as competições de pesca. Em 13 de novembro, 18 equipes ficaram do amanhecer ao pôr do sol tentando matar o máximo possível de peixes-leão, na esperança de dividir os US$3.350 do prêmio.

“Estamos tomando parte da batalha”, disse Robert Hickerson, capitão da Equipe Frapper, um grupo de quatro mergulhadores de Vero Beach. Hickerson conta que chega a mergulhar duas vezes por semana. Sua “contagem de mortes” é uma fonte de orgulho. “Já matei mais de cem deles. Tento matá-los até mesmo quando estou de férias”.

Mas o número de peixes-leão está crescendo; a espécie pode ser esquiva. Apesar do grande esforço das 18 equipes no concurso de Lower Keys, apenas 109 peixes foram mortos, somando-se aos 500 peixes-leão mortos nos dois concursos anteriores – em Key Largo, em setembro, e em Marathon, em outubro.

Uma possível solução é promover o peixe como alimento de outro voraz predador: o homem. O peixe-leão é considerado um prato excelente. De fato, depois da competição de pesca local, os participantes fizeram um banquete de peixes-leão fritos.

“O gosto é muito parecido com o do bodião”, disse Dugan, dos Lion Hunters. “Eles são muito gostosos”.

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