'Evas' indonésias colonizaram Madagascar há 1200 anos

Estudos de DNA comprovam que grupo de 30 mulheres atravessou 8000 quilômetros para colonizar ilha na costa africana

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Mulheres indonésias fazem fila para levar oferendas ao seu templo, em Bali
Algumas dúzias de mulheres indonésias iniciaram a colonização da ilha de Madagascar 1.200 anos atrás, afirmaram cientistas em um estudo que será publicado na edição desta quarta-feira (21) do periódico britânico Proceedings of the Royal Society B.

Os antropólogos são fascinados com Madagascar porque a ilha se manteve afastada da conquista humana do planeta por milhares de anos até ser colonizada por africanos continentais, mas também por indonésios, cuja terra natal fica a 8.000 km de distância, em um dos mais curiosos episódios da odisseia humana.

Uma equipe chefiada pelo biólogo molecular Murray Cox, da Universidade Massey da Nova Zelândia, vasculhou amostras de DNA em busca de pistas que explicassem o enigma migratório.

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Eles procuraram marcadores escondidos em cromossomos transmitidos pela mãe em amostras de DNA fornecidas por 266 pessoas de três grupos étnicos Malagasy.

Vinte e dois por cento das amostras tinham uma variedade local do "padrão polinésio", uma minúscula característica genética que é comum entre polinésios, mas rara entre indivíduos da Indonésia ocidental. Em um grupo étnico Malagasy, uma em cada duas amostras tinha este marcador.

Se as amostras estiverem certas, cerca de 30 mulheres indonésias deram início à população Malagasy "com uma contribuição biológica muito menor, mas tão importante quanto aquela da África", destacou.

O estudo se concentrou apenas no DNA mitocondrial, que é transmitido exclusivamente pela mãe, e não exclui a possibilidade de que homens indonésios também tenham chegado com as primeiras mulheres.

Simulações de computador sugerem que a colonização começou por volta de 830 D.C., na época em que as redes comerciais indonésias se expandiram durante o Império Srivijaya de Sumatra.

O estudo aponta para outras contribuições do sudeste da Ásia. Em termos linguísticos, os habitantes de Madagascar falam dialetos de uma língua cujas origens remontam à Indonésia.

A maior parte do léxico é procedente do Ma'anyan, língua falada ao longo do vale do rio Barito, no sudeste de Bornéu - uma região remota, do interior da ilha - com alguns vestígios de palavras do javanês, do malaio ou do sânscrito.

Simulações de computador sugerem que a colonização começou por volta de 830 D.C., na época em que as redes comerciais indonésias se expandiram durante o Império Srivijaya de Sumatra.

Outras evidências da colonização vieram da descoberta de canoas indonésias, ferramentas de ferro, instrumentos musicais como o xilofone e um "kit de comidas tropicais", o cultivo de arroz, bananas, inhame e taro (raiz rica em amido), trazidos do outro lado do oceano.

"Madagascar foi colonizada aproximadamente 1.200 anos atrás, inicialmente por um pequeno grupo de mulheres indonésias e suas contribuições - de idioma, cultura e genes - continuam a dominar a nação de Madagascar até hoje", destacou o artigo.

Mas como as 30 mulheres cruzaram o Oceano Índico até Madagascar permanece uma grande questão.

Uma teoria é que elas tenham chegado em embarcações comerciais, embora não haja evidências de que as mulheres embarcaram em navios mercantis de longa distância na Indonésia.

Outra ideia é que Madagascar teria sido ocupada como colônia comercial formal, ou talvez como centro para refugiados que perderam terra e poder durante a expansão do Império Srivijayan.

Há ainda uma terceira hipótese, ainda mais intrépida, de que as mulheres estariam em um barco que fez uma jornada transoceânica acidental. Esta noção é sustentada por simulações de navegação com base em correntes marinhas e padrões climáticos das monções, segundo a equipe de Cox.

De fato, durante a Segunda Guerra Mundial, destroços de barcos bombardeados perto de Sumatra e Java acabaram chegando a Magascar e em um caso, um sobrevivente em um bote salva-vidas, foi levado pelas correntes até lá.

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