Estudo desmente alegação de racismo em medição de crânios humanos

Nova medição de coleção Morton acaba com controvérsia histórica levantada pelo paleontólogo Stephen Jay Gould em 1981

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Alan Mann e Janet Monge examinam crânios da coleção Morton: refutando Stephen Jay Gould
Frequentemente, cientistas são acusados de deixar sua ideologia influenciar nos resultados. Um dos casos mais famosos é o dos crânios de Morton – a coleção global reunida por Samuel George Morton, antropofísico do século XIX.

Num livro de 1981, The Mismeasure of Man, o palentólogo Stephen Jay Gould afirmou que Morton, crente que o tamanho do cérebro era uma medida de inteligência, havia subconscientemente manipulado os volumes cerebrais dos crânios europeus, asiáticos e africanos – para favorecer sua ideia pré-formada de que os europeus teriam cérebros maiores e os africanos, menores.

Mas agora, antropólogos físicos da Universidade da Pensilvânia, proprietária da coleção de Morton, voltaram a medir os crânios. Num artigo que faz pouco para lustrar a reputação de Gould como acadêmico, eles concluíram que quase todos os detalhes de sua análise estão incorretos.

“Nossos resultados solucionam essa controvérsia histórica, demonstrando que Morton não manipulou seus dados para sustentar suas pré-concepções, contra Gould”, escrevem eles na última edição do periódico PLoS Biology.

Gould, que morreu em 2002, baseou seu ataque na premissa que Morton acreditava que o tamanho do cérebro estava relacionado à inteligência.

Contudo, não há evidências de que Morton acreditasse nisso ou estivesse tentando prová-lo, afirmou Jason E. Lewis, líder da equipe da Pensilvânia.

Em vez disso, Morton estava medindo seus crânios para estudar a variação humana, como parte de uma pesquisa sobre se Deus havia criado as raças humanas separadamente (um assunto recorrente antes de Darwin decretar que todos pertenciam à mesma espécie).

Em seu livro, Gould sustentava que os resultados de Morton eram “uma colagem de evasivas e trapaças no claro interesse de controlar suas convicções”. As evasivas não eram deliberadas, segundo Gould, mas uma instância de interpretações inconscientes de dados, uma prática que ele acreditava ser “excessiva, endêmica e inevitável” na ciência. Suas descobertas são amplamente citadas como exemplo de predisposição e falibilidade científicas.

Mas a equipe da universidade não acha que os resultados de Morton foram adulterados ou influenciados por suas convicções. Eles identificaram e mediram novamente os crânios usados em seus artigos, descobrindo que em apenas 2 por cento dos casos as medições de Morton diferiam significativamente das atualizações. Esses erros eram aleatórios ou davam um volume maior aos crânios africanos, ao contrário da imputação feita por Gould contra Morton.

“Esses resultados refutam a alegação de que Morton mediu de forma fisicamente errada os crânios com base num preconceito anterior”, conclui a equipe.

Gould não mediu ele mesmo nenhum dos crânios, fazendo meramente uma reanálise dos papéis contendo os resultados de Morton. Ele acusou Morton de diversos subterfúgios, como desconsiderar subgrupos para manipular a pontuação geral de um grupo. Quando esses erros foram corrigidos, segundo Gould, “não sobraram diferenças notáveis entre as raças de Morton”.

Mas o próprio Gould omitiu subgrupos em sua própria análise e cometeu diversos erros de cálculo. Quando estes são corrigidos, as diferenças entre as categorias raciais reconhecidas por Morton correspondem àquelas atribuídas por ele. “Ironicamente, a própria análise de Gould é o maior exemplo do preconceito influenciando resultados”, diz a equipe da Universidade da Pensilvânia.

Lewis, o principal autor, afirmou que, ao buscar por referências para algumas das acusações de Gould, descobriu que Morton não havia cometido os erros que lhe haviam sido atribuídos. “Aqueles elementos do estudo de Gould eram surpreendentes”, declarou ele. “Não posso dizer se foram intencionais”.

Lewis, que hoje trabalha na Universidade de Stanford, iniciou o projeto quando ainda estava na Pensilvânia.

Um estudo anterior de John S. Michael, então estudante da Pensilvânia, concluiu que os resultados de Morton eram “razoavelmente precisos” e sem sinais claros de manipulação. Porém, quando outros sugeriram que Gould havia sido refutado, Philip Kitcher, filósofo da ciência da Columbia University, correu em sua defesa.

“Não é inteiramente evidente que devamos preferir as medições de um estudante às de um paleontólogo profissional”, escreveu ele em 2004. “Sem novas medições dos crânios e novas análises dos dados, parece-me melhor deixar esta suja questão descansando numa nota de rodapé”.

Na semana passada, Kitcher afirmou que a equipe da Universidade da Pensilvânia havia conduzido um “trabalho muito cuidadoso” e que “é muito bom ver um trabalho de estudantes ser sustentado”.

Quanto ao peso das novas descobertas sobre a reputação de Gould, Kitcher disse: “Steve não sairá disso como um trapaceiro, mas como alguém que comete erros. Se Steve ainda estivesse entre nós, ele provavelmente iria se defender com grande inventividade”.

Mas Ralph L. Holloway, especialista em evolução humana da Columbia e coautor do novo estudo, estava menos disposto a conceder a Gould o benefício da dúvida.

“Eu simplesmente não confio em Gould”, explicou ele. “Eu tinha a sensação de que sua postura ideológica era suprema. Quando saiu a versão de 1996 para 'The Mismeasure of Man’, e ele nem mesmo se dignou a mencionar o estudo de Michael, apenas senti que ele era um charlatão”.

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