Estrelas e cientistas: do laboratório ao tapete vermelho

Atrizes, como Natalie Portman e Hedy Lamarr, conciliaram trabalho científico com os sets de filmagem

The New York Times |

A Busca por Talentos Científicos Intel é considerada a maior e mais exigente competição colegial dos EUA, atraindo o que há de melhor em jovens aspirantes a cientistas. Vencedores e quase-vencedores do concurso de 69 anos já receberam sete prêmios Nobel em física ou química, duas Medalhas Fields em matemática, meia dúzia de Medalhas Nacionais em ciência e tecnologia, uma longa fila de bolsas de "gênio" da Fundação MacArthur -- e, agora, um Oscar de melhor atriz.

No último domingo (28/02), a maravilhosamente grávida Natalie Portman, de 29 anos, recebeu o prêmio da Academia por sua atuação como Nina, uma bailarina mentalmente instável em Cisne Negro. Um dos detalhes menos conhecidos da precoce carreira de Portman é que, como aluna da Escola Syosset, em Long Island, no final da década de 1990, ela chegou até as semifinais da competição da Intel.

Para aqueles que sabem o quão exaustivo pode ser a preparação de um projeto digno de prêmio e dedicar centenas de horas de tempo "livre" à noite, em finais de semana e nas férias de verão, realizando uma pesquisa científica realmente original, enquanto seus amigos se ocupam com a adolescência, o feito é testemunho suficiente da autodisciplina e do foco de Portman.

Ainda tem mais. Enquanto realizava sua investigação sobre um método novo e "ambientalmente amigável" de converter lixo em formas úteis de energia, e mantinha a média de notas A estável desde o ginásio, Portman já era uma estrela de cinema em ascensão. Ela participara de filmes dirigidos por Woody Allen, Tim Burton e Luc Besson, contracenara com Julia Roberts, Jack Nicholson, Matt Dillon, Uma Thurman, Drew Barrymore, entre outras celebridades. E assumiu o importante papel de Rainha Amidala em Guerra nas Estrelas, que a lançou à fama internacional.

Em seguida, ela foi à Universidade de Harvard para estudar neurociência e evolução da mente.
"Eu lecionei em Harvard, Dartmouth e Vassar, e tive o privilégio de ensinar muitos jovens brilhantes", diz Abigail Baird, uma das mentoras de Portman em Harvard. "Mas muito poucos eram tão naturalmente brilhantes quanto Natalie, tinham tanta potência intelectual, ou se esforçavam tanto quanto ela. Ela não subestimava absolutamente nada".

Portman está entre os pouquíssimos atores de primeira linha que possuem importantes credenciais científicas -- prêmios, títulos acadêmicos, patentes e teoremas em seus nomes.

A mulher mais linda de Hollywood inventou técnicas militares
Hedy Lamarr, atriz habitualmente considerada como "a mulher mais linda em Hollywood", era uma cientista em paralelo. Ela inventou e patenteou uma técnica de direcionamento de torpedos chamada "salto de frequência", que frustrava tentativas de interferir com os sinais que mantinham os mísseis na rota.

Danica McKellar, que participou de séries como Anos Incríveis, West Wing, NYPD Blue e Young Justice, se formou com honras em matemática pela Universidade da Califórnia, em Los Angeles, onde ajudou a desenvolver uma prova matemática para certas propriedades de campos magnéticos -- um teorema que leva o seu nome ao lado de seus colaboradores. Ela também escreve livros populares sobre matemática, com títulos engenhosos como "Math Doesn’t Suck" e "Kiss My Math".

Quando ainda era adolescente, na década de 1990, Mayim Bialik foi o personagem-título da bem sucedida série infantil Blossom. Hoje ela aparece em outra série de sucesso voltada para jovens um pouco mais velhos, The Big Bang Theory -- vivendo a adorável nerd Amy Farrah Fowler, neurobióloga e casual foco amoroso do físico misofóbico Sheldon Cooper. A atriz está contente com seu novo papel. Afinal, Bialik tem PhD pela UCLA em... neurobiologia. "Digo às pessoas que sou neurocientista e interpreto a mesma coisa na TV", diz Bialik.

Pode parecer estranho que relativamente poucas estrelas das telas tenham um histórico científico, dada a imensa popularidade do gênero da ficção científica e de papéis como o cientista maluco -- sem falar em todas as séries e filmes médicos e subprodutos de CSI. Mesmo assim, a maioria dos atores que assume papéis técnicos, lidando com roteiros comumente escritos com a ajuda de consultores científicos, admite abertamente que diz as falas sem necessariamente compreender o significado.

Leonard Nimoy, que incorporou o cientista da TV mais famoso de todos os tempos, o Sr. Spock, veio das artes e do teatro, não sendo nada como seu personagem na vida real. Mas ele me disse que, como o Sr. Spock e a série Star Trek inspiraram tantos espectadores a se tornarem cientistas, pesquisadores que o reconhecem costumam ficar desesperados para lhe conceder passeios por laboratórios e explicar os projetos que estão buscando, sempre em termos técnicos de colegas científicos. Nimoy assente com seriedade e profere sons a cada um deles, dizendo: "Bem, certamente me parece que você está na direção certa".

As artes cênicas e a ciência podem simplesmente atrair personalidades muito diferentes. Se você busca por atenção, fãs e reconhecimento nas ruas, a pesquisa científica não é a sua praia. Com poucas exceções, mesmo os pesquisadores mais respeitados do mundo costumam ser completos desconhecidos ao grande público --  uma obscuridade brilhantemente captada pelo jornal de sátiras The Onion, num artigo citando "as impulsivas multidões de fotógrafos que caçam incansavelmente os principais cientistas da América".

"Só porque sou um cientista", reclamava um físico teórico no artigo, "não significa que tenho de abdicar completamente de minha privacidade".

Além disso, se a beleza física lhe rende muitos pontos numa carreira nas telas, ela pode desacreditá-lo no mundo da ciência.

Hedy Lamarr reclamava que as pessoas olhavam para seu rosto e deduziam não haver nada além daquilo. Talvez fosse um caso de projeção. "Quando você vê um rosto maravilhoso demais, é algo impressionante, e você mesmo fica estupidificado", diz Lisa Heiserman Perkins, que terminou um documentário sobre Lamarr. "Assim, você projeta sua própria estupidez sobre a pessoa a quem está olhando".

De seu lado, Bialik não enxerga a ciência e o mundo do entretenimento como moléculas inteiramente incompatíveis. Nos dois casos, diz ela, "é preciso ter um ego enorme". Todos são um especialista em massas servindo uma humilde torta. É humilhante fazer testes por papéis e, segundo Bialik, "nada causa mais lágrimas do que ser um aluno universitário".

Mesmo assim, ela ama a pesquisa sobre a química cerebral de pacientes com uma condição genética chamada síndrome de Prader-Willi, e ama ter sito "atropelada" por seu doutorado quando estava "muito, muito grávida" de seu segundo filho. "Antes grávida e preparando um doutorado", diz ela, "do que grávida durante o colegial".

No mínimo, histórias como a de Natalie Portman mostram que o grande sucesso, assim como o DNA, é construído com alguns tijolos básicos: persistência, foco e a velha frase de Woody Allen sobre simplesmente "comparecer".

Fosse como aluna em sua classe, ou assistente de pesquisa em seu laboratório, diz Baird, hoje professora de psicologia na Universidade Vassar, "Natalie nunca me pediu uma extensão de prazo, ou para se isentar de suas responsabilidades".

Se tinha de comparecer ao programa de David Letterman, por exemplo, ela terminava o trabalho mais cedo. "Ela é muito confiante e possui uma forte compreensão de suas qualidades e fraquezas", diz Baird, e é mais sábia do que a idade mostra. "Uma das coisas que ela disse foi: 'É estranho como há tantas pessoas em Harvard que fazem coisas incríveis fora da sala de aula. Simplesmente as pessoas gostam de assistir ao que eu faço'".

Você pode ser um cientista, mas se quiser ver seu nome em cartazes é melhor representar um na TV.

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