Especialistas divergem sobre credibilidade de estudo de PES

Polêmico artigo de prestigiado psicólogo sobre percepção extrassensorial ganha críticas e elogios de especialistas ouvidos pelo iG

iG São Paulo |

Não foi a primeira e também não vai ser a última vez que parapsicólogos apresentam seus dados de pesquisa para a comunidade científica e recebem uma avalanche de críticas. A diferença na polêmica desta vez é que artigo ainda nem foi publicado - embora tenha sido aceito em uma das mais prestigiosas revistas da psicologia - e já disparou uma enorme discussão entre cientistas, blogueiros e céticos.

Tudo começou quando Daryl Bem, um renomado professor de psicologia da Universidade de Cornell, submeteu um estudo ao periódico Journal of Personality and Social Psychology, no qual afirma ter encontrado evidências de que as pessoas podem prever o futuro, adivinhando a posição de fotos eróticas na tela do computador, mesmo antes do programa gerar as imagens que ficam escondidas atrás de cortinas virtuais.

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O estudo vai além e mostra resultados de habilidades psíquicas que fazem com que eventos do futuro mudem o passado. No grupo de experimentos por ele descrito como “facilitação retroativa da memória”, os resultados mostraram que quando alunos classificavam palavras em categorias (alimentos, animais, ocupações e roupas) após terem sido submetidos a um teste de memória, eles se lembravam melhor das palavras categorizadas do que das não-categorizadas. Ou seja, ele defende a hipótese de que o evento que aconteceu no futuro (categorizar) voltou no passado para facilitar a memorização de palavras que haviam sido testadas no passado (teste de memória antes da categorização).

As críticas não foram poucas, principalmete no que se refere às análises estatísticas adotadas pelo pesquisador. James Alcock, professor de psicologia da Universidade York, em Toronto, no Canadá, disse ao iG que o desenho experimental dos estudos de Daryl Bem é caótico e “como sua pesquisa foi muito mal conduzida, não dá para confiar em suas conclusões”.

Alcock explicou ao iG que as análises estatísticas do estudo não levam em consideração todas as variáveis envolvidas. “Na minha opinião, esse é um grupo de estudos muito pobre e que não pode ser usado como evidência de que temos poderes extrassensorias”, disse.

Para Joachim Krueger, professor de psicologia da Brown University, esse é um longo debate. “O trabalho inflamou velhos problemas que nunca foram resolvidos: as pessoas têm um desejo de que tudo seja resolvido em números”, disse ao iG .

Krueger ficou impressionado com a rapidez na qual críticas às análises estatísticas do trabalho foram disseminadas na internet. “Discussão antes do trabalho ser publicado é raro nas ciências sociais, embora seja comum em economia, por exemplo”.

Para Krueger, o trabalho catalisou tamanha discussão por ser altamente provocativo e por se tratar de uma área onde o debate é altamente polarizado. “Muitos de nós acredita que pode ser verdade”, disse.

Para brasileiros, estudo tem seus méritos
No Brasil, a polêmica foi recebida com outros olhos por acadêmicos que leram o estudo a pedido do iG. Denise Gimenez Ramos, professora do núcleo de pós-graduação de psicologia clínica da PUC-SP, definiu o artigo como excelente e com validade científica. “O grande mérito dele é discutir um assunto que existe, que a maioria as pessoas já experimentaram. O cérebro é como um grande computador que dá uma série de informações para o nosso consciente que não seguem a lógica, isto é a intuição.”

De acordo com Denise, o artigo é correto academicamente mesmo que entre os nove experimentos só um tenha dado certo estatisticamente “Academicamente um instrumento só tem validade quando é replicável e os fenômenos psicológicos não são assim. Tem uma complexidade de variáveis nesse tipo de fenômeno (entre elas se o indivíduo acredita ou não), portanto não é possível reproduzir em laboratório, e ele diz isso no artigo”.

De acordo com o psiquiatra e coordenador do núcleo de estudos de religião e espiritualidade da Faculdade de Medicina da USP Frederico Leão, o artigo atende a todos os critérios determinados pela metodologia científica. “Em ciência não existe verdade absoluta e a estatística não é um produto final é a interpretação de um estudo. A estatística não comprova nada, não só no trabalho dele, como em nenhum outro. Ela apenas mostra evidências de que algo ocorreu”, disse. Para o professor, a polêmica está mais no assunto do estudo que no método usado.

Denise relembra outro mérito científico que também está contido no estudo. “É o que eu sempre falo para os meus alunos, a gente publica um artigo mesmo quando dá errado. Ele não está afirmando que isto acontece, mas provando que pelos métodos atuais acadêmicos é impossível comprovar”.

Para Frederico Leão, o que resolve uma polêmica é o aparecimento de outros trabalhos que repliquem os resultados. “Este pé um assunto que está crescendo cada vez mais na comunidade científica”

A psicanalista e diretora da Sociedade Brasileira de Psicanálise, Raquel Nelken considerou que o estudo não deixa de ser interessante. “Sabemos que há muitos fenômenos mentais que ainda não conseguimos explicar ou entender e o fato de desconhecê-los não os torna inexistentes”, disse.

Raquel ressalta que psicanalistas não têm interesse em investigar este tipo de fenômeno, “uma vez que nos ocupamos em entender o sofrimento e os sintomas de nossos pacientes. Contudo, acredito que a mente humana tem capacidades ainda pouco conhecidas e é bem provável que o experimento do psicólogo americano contenha algumas verdades”, escreveu em entrevista por email ao iG .

Procurado, o Conselho de Psicologia do Rio de Janeiro (CRP-RJ) afirmou que não concorda com o estudo. Por meio de sua assessoria de imprensa, informou que os psicólogos do conselho não iriam se manifestar à reportagem, pois o estudo “fere seu código de ética e contradiz o conceito de psicologia do Conselho”.

Dr. Bem, como tem sido chamado o autor do trabalho e professor emérito da Universidade Cornell, contou ao iG que já foi mágico , passou pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) onde estudou física e tem PhD em psicologia social pela Universidade de Michigan, nos Estados Unidos. “Psicólogo lendário, muito bem conhecido”, foi como Krueger o definiu.

Segundo Krueger, Bem fez contribuições seminais para a área de psicologia social, especialmente atitudes e opinião pública, mas com o passar do tempo suas escolhas de linhas de pesquisa se tornaram peculiares.

(Com reportagem de Alessandro Greco, Cristina Caldas e Maria Fernanda Ziegler)

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