Entre pássaros, trair o parceiro pode ser vantajoso

Dois estudos que investigaram a vida sexual de aves afirmam que promiscuidade das fêmeas está relacionada com evolução da espécie

Maria Fernanda Ziegler, iG São Paulo |

Science/AAAS
Diamantes gould escolhem o melhor parceiro genético pela cor da penugem da cabeça
A fêmea está ansiosa. Tudo indica a noite promete – em breve ela receberá em sua gaiola uma visita especial, de um lindo macho de penugem vermelha.

Ele a corteja, cantando e levantando o bico, enquanto infla o peito de maneira galante. Ela decide aceitar o flerte: dá uma pequena esnobada olhando para o outro lado e em seguida abaixa a parte posterior de seu corpo.

A vida sexual destes passarinhos é um livro aberto. O biólogo Simon Griffith e sua equipe da Universidade de Macquarie, em Sidney, não perdem um minuto de todo o affair. Eles fazem anotações, tiram fotos, mas não necessariamente torcem para um final feliz para o romance; o que eles querem saber é se a fêmea é promiscua.

O outro
Passam-se algumas semanas. Depois que a fêmea botou dois ovos, o macho é retirado da gaiola durante 30 minutos. E outro macho, desta vez de penas pretas, é colocado na gaiola. Ele logo chega cortejando a fêmea, que já está toda prosa e rapidamente o convida à cópula.

Logo depois, os cientistas trocam os machos novamente, e a fêmea aceita o macho de penugem vermelha, seu “namorado”, e tudo continua como antes. A escapadela, aparentemente, é esquecida.

“A fêmea estava muito interessada em interagir com o outro macho e em cada caso, as elas tiveram a oportunidade que lhes coube para enganar seu parceiro” analisa Griffin, taxativo após finalizar estudo que acompanhou 40 fêmeas da espécie Erythrura gouldiae (conhecida como diamante gould). Apenas nove não copularam com o macho extra.

Traição para o bem da prole
Mas as indiscrições dos pesquisadores não pararam por aí. Eles registraram quantos novos passarinhos nasceram e, pelo DNA, quem eram seus pais. Eles descobriram que as fêmeas tendem a selecionar o esperma dos machos geneticamente mais compatíveis para fertilizar seus ovos.

A fêmea promíscua guarda o esperma de seus parceiros por dias. “Ainda não sabemos como as fêmeas são capazes de selecionar os melhores espermatozóides. O esperma passa muitos dias no interior do trato reprodutivo antes de fertizar o ovo”, diz Simon Griffith, um dos autores do estudo publicado na edição desta semana da revista Science.

De acordo com Griffith, os cientistas acreditam que durante o tempo que o esperma é “guardado”, os tecidos femininos e produtos químicos poderiam favorecer o esperma tido como do bem e atacar o esperma do mal.

Outra possibilidade é que a fêmea não influencie quimicamente nesta escolha. “É possível que esta escolha ocorra na superfície do ovo. Talvez apenas o melhor esperma possa penetrar a membrana do ovo e o mal seja incapaz de entrar”, disse ao iG .

Divulgação/Nature
O zaragateiro ( Turdoides bicolor ) coopera na criação dos filhotes e a espécie tem baixa promiscuidade
Nem tudo é festa
Em outro estudo, pesquisadores analisaram 267 espécies de aves e descobriram que as taxas de promiscuidade foram três vezes maiores entre as espécies que não apresentam a chamada “cooperação social” do que em espécies onde indivíduos adultos, que não os pais, ajudam na criação dos filhotes, dando comida ou ajudando na incubação ou defesa dos ovos. Os resultados são relatados na revista Nature desta semana.

“A criação cooperativa é um tipo especial de sistema reprodutivo em que os pais recebem a ajuda de adultos não-reprodutores no ninho. Estes "ajudantes" são geralmente adultos jovens de ninhadas anteriores”, explicou ao iG a autora do estudo Ashleigh Griffin, da Universidade de Oxford. A cooperação social já foi observada e espécies de mamíferos como leões, suricatos e muitas espécies de primatas.

O estudo concluiu que quanto mais promiscua a fêmea, menos ajuda ela precisará do resto da família. Isto porque quando as fêmeas se acasalam apenas com um macho, seus filhos serão irmãos por completo e, portanto, intimamente relacionados entre si. Este fato favorecerá a cooperação entre eles. Ajudar um parente próximo a reproduzir pode ser uma forma eficiente de transmissão de genes para a próxima geração.

"Em contraste, se uma fêmea acasala com vários machos, seus filhos serão meio-irmãos, com uma relação de parentesco mais fraca. Neste caso, as aves adultas jovens tendem a se dispersar para se reproduzir, em vez de ficar no ninho para ajudar a mãe", disse.

Aves e mulheres
Os dois estudos envolveram aves, mas de acordo com os pesquisadores poderiam futuramente ser aplicados na espécie humana. Ashleigh Griffin, da universidade de Oxford destaca que se uma fêmea tem mais de um companheiro, o relacionamento da família é reduzido e, como mostra sua pesquisa, ao longo do tempo evolutivo, a frequência em que as fêmeas têm companheiros adicionais pode influenciar a estrutura social da espécie.

“Não há nenhuma razão para que nossos resultados não se apliquem à evolução da cooperação em mamíferos, incluindo humanos. De fato, os seres humanos seria uma espécie ideal para testar essas idéias -- já que há tanta variação cultural no comportamento sexual e a estrutura social em todo o globo. Talvez eu devesse seguir em frente em uma nova pesquisa”, disse Ashleigh.

Simon Griffith, da Universidade de Macquarie, também afirma que o sistema de acasalamento dos passarinhos diamante gould é muito semelhante à dos seres humanos. “Macho e fêmea formam um laço social que dura um longo tempo para compartilhar a responsabilidade de aumentar a prole. Assim, o parceiro social pode ser um bom pai e um bom parceiro, mas ele pode não ser sempre o melhor pai genético”, disse.

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