Ecologista acústico faz da preservação do silêncio a sua missão

Ganhador do Emmy, Gordon Hempton grava locais em que ainda se pode ouvir o som da natureza sem interferência humana

Alessandro Greco, especial para o iG |

Alessandro Greco
Gordon Hempton: preservar o silêncio e os sons da natureza é essencial
“A melhor coisa que fiz na vida foi ter me tornado um entregador de encomendas com bicicleta. No primeiro mês de trabalho fui atingido por um carro. Eu ouvi a presença dele, mas não escutei realmente que ele estava lá. Nos nove anos seguintes fui atingido 12 vezes e aprendi que, como na vida selvagem, é preciso realmente ouvir para sobreviver”. A vida de Gordon Hempton é um dos bons exemplos de uma pessoa que seguiu suas paixões. No caso dele, mais especificamente, a audição.

Em 1980, aos 27 anos, quando dirigia da cidade americana de Seattle para a de Madison – uma jornada de cerca de três mil quilômetros – ficou cansado e decidiu deitar na grama para descansar. “Começou uma tempestade. Era verão. Eu podia ouvir os insetos. Ali, senti uma qualidade do ouvir que nunca tinha experimentado antes. Descobri que nunca tinha realmente escutado uma tempestade. Quando ela acabou subi no carro e continuei minha viagem para fazer minha pós-graduação em fisiologia de plantas na Universidade de Wisconsin-Madison, mas nunca mais fui o mesmo”, relembrou Hempton, durante entrevista ao iG .

O estudo na universidade durou apenas um semestre. “Após a experiência da tempestade tive uma nova medida do que era ouvir o silêncio. Para poder continuar neste processo decidi me tornar um entregador de encomendas por bicicleta. Lá eu tinha tempo para poder gravar os sons que me interessavam.”, afirmou ele.

A mudança não foi fácil. Além de ter sua bicicleta atingida diversas vezes sua situação financeira começou a se complicar com a chegada dos dois filhos e diversas contas a pagar. “Naquela época peguei pneumonia e me veio a mente que a Terra estava 'cantando'. Decidi então que, apesar de doente e de ser apenas um entregador de encomendas com bicicleta eu iria ouvir a música dos oceanos, das tempestades, dos pássaros”, explicou ele. Ouça aqui uma das gravações de Gordon Hempton:

Reviravolta
A vida de Hempton começou a mudar em 1989 quando ele ganhou uma subvenção da Fundação Lindebergh. “Era o centenário da criação do estado de Washington e eles me deram dinheiro para preservar os sons da natureza que os pioneiros que aqui chegaram haviam ouvido. A maioria deles já não existiam mais, porém alguns tinham sobrevivido. Neste projeto percebi como é difícil realmente ouvir”, afirmou Hempton.

No ano seguinte, 1990, a grande reviravolta. Hempton ganhou um prêmio da Rolex Awards Enterprise para gravar os sons de áreas predominantemente de campo em cinco continentes. “A PBS [canal público dos Estados Unidos] pediu para ir junto comigo, mas achou que era mais interessante gravar sons com grandes contrastes. Fizemos isso. Foi a primeira vez que saí dos Estados Unidos”. Em mais dois anos, em 1992, Hempton ganharia o Emmy pela documentário “Vanishing Dawn Chorus”, uma gravação dos sons do amanhecer ao redor do mundo. “A partir daquele momento ninguém mais me perguntou sobre minhas qualificações. Os projetos começaram simplesmente a fluir”, comentou ele.

Na busca de captar os sons do silêncio, ele tem dois grandes parceiros. O primeiro é “Fritz”, um microfone no formato de uma cabeça humana com orelhas que capta som estéreo em alta definição. “Dizem que ele é meu alter ego. Com ele vou atrás dos sons que ainda não foram ouvidos”, contou ele. E o segundo, uma Kombi verde ano 1964 que, como ele mesmo diz, anda à velocidade máxima de 80 km/h.

Perda da audição
A vida, no entanto, aprontaria das suas com Hempton em 2003, quando, de um momento para outro, seu instrumento de trabalho simplesmente desapareceu. “Em duas semanas perdi completamente a audição. Não conseguia ouvir nada do que me falavam. Os únicos sons que ouvia eram internos. Minha mente não conseguia descansar. Após um ano, de repente, tive um minuto de audição normal. Nos meses seguintes ela foi aumentando até que ficou normal e está normal até hoje. Naquele momento decidi me responsabilizar por preservar o silêncio”, afirmou Hempton.

Em 22 de abril de 2005, na data em que se comemora o Dia da Terra, Hempton lançou o One Square Inch of Silence (Uma Polegada Quadrada de Silêncio): o local mais silencioso dos Estados Unidos, que fica dentro do National Olympic Park, no estado de Washington. “Ele foi criado para proteger os sons naturais da vida selvagem do parque. A lógica é simples: se um som alto, como o de um avião, pode atingir muitos quilômetros quadrados, um local que esteja 100% livre de barulho também pode fazer isso”, explicou Hempton.

A tarefa, no entanto, não teve nada de simples. Hempton teve de falar com as companhias aéreas para que elas desviassem suas rotas para não afetar o One Square Inch. “Consegui com que a Alaska Airlines, a American Airlines e a Hawaian Arilines cooperassem. Tentei também fazer com que o FAA, que regula as rotas dos aviões nos Estados Unidos, cooperasse evitando que eles passassem por ali, mas não consegui. Primeiro disseram que não era impossível, ao que eu argumentei que aviões vivem desviando de suas rotas quando quando há mau tempo. Eles concordaram, mas afirmaram que não era uma prioridade fazer o que eu estava pedindo”.

Nesses 30 anos gravando sons, Hempton puxou a tecla REC de seu gravador mais de 10 mil vezes. Sua coleção de sons tem mais de 3 terabytes e está em três locais diferentes; um deles um cofre de um banco. Em 2009, sua vida e trabalho se tornaram tema do documentário Soundtracker .

Semana passada, uma equipe da Red Bull, patrocinadora de eventos barulhentos como corridas de aviões e de carros, passou três dias com Hempton explorando o silêncio. “A natureza selvagem é nossa primeira catedral. Temos de aprender a ouvi-la”. 

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