Drama. Intriga. Um livro de mistério? Não, a história da malária

Um novo livro chega ao mercado americano contando a história da doença que acompanha o progresso da civilização

The New York Times |

A história humana marcha ao ritmo de quê? De uma banda de fanfarra? De um coral cantando hinos? Do som de um coração humano? A história da malária de Sonia Shah o convencerá de que a verdadeira trilha sonora de nosso destino coletivo não é nenhuma dessas: é o som sincopado do lamento e do tapa, o som de homem e mosquito lutando ao longo da eternidade.

Mosquitos transmitem dúzias de infecções, mas nenhuma é mais complicada ou sinistra que a malária. Seu próprio nome (do italiano para “ar ruim”) evoca os delicados miasmas de um filme de terror “B”. Realmente, essa é uma doença escrita em perturbadores tons de cinza. Uma pessoa pode viver com ela por décadas, ou morrer da noite para o dia. A imunidade é desigual e incompleta. Medicamentos funcionam, exceto quando não funcionam. Desenvolvedores de vacinas criam fracassos cada vez mais promissores. Através das eras, a malária provavelmente ajudou a matar mais pessoas do que qualquer outra força conhecida.

E é assim que as histórias sobre ela geralmente começam: “a malária é uma doença infecciosa aguda ou crônica causada por protozoários parasitas do gênero Plasmodium ...” (este causador de bocejos em particular é cortesia da Wikipédia). Assim Shah, jornalista de Boston, realizou um verdadeiro serviço público ao contar a história da malária com todo o drama, a intriga e o interesse humano mantidos intactos.

As pequenas bolhas de matéria responsáveis pela malária são tão ardilosas que poderiam dar aulas à CIA. Os plasmódios mudam de formato como um véu de mágico, conforme se movem do intestino de um mosquito à corrente sanguínea de um mamífero e retornam. Cada uma das espécies que causa uma doença humana possui seu próprio “truque”, palavra de Shah, para mantê-la viva e causando problemas. O mais perigoso, falciparum , explode milhões de hemácias de uma vez e pode levar à morte da noite para o dia. O vivax , menos dramático e mais persistente, se esconde no fígado e pode deixar uma pessoa fraca e doente por anos.

O mosquito também é um personagem em esboço: de mais de 3 mil espécies, apenas 70 membros do gênero Anopheles transmitem parasitas da malária. Cada um deles tem seus próprios e meticulosos hábitos: alguns gostam de água lodosa, outros de água limpa, alguns morrem no frio, alguns hibernam até a primavera. Com cada minúscula alteração no comportamento dos mosquitos vem um grupo distinto de opções para controle da doença – mesmo assim, os mosquitos têm o hábito de mudar seus jeitos para frustrar todo e qualquer controle.

Que cascata de sofrimento trouxe essa doença, molestando o progresso da civilização como uma consciência pesada. Você constrói uma represa, a malária se desenvolve rio acima. Você cava um canal, seus caros operários (especialmente importados de zonas livres de malária) caem como moscas. Você trava uma guerra, e a malária mata mais tropas que o inimigo.

Mesmo assim, algumas vezes a doença trabalhou a favor de suas vítimas. Júlio César pode ter tremido com a febre em seu palácio imperial em Roma, mas a malária nas regiões próximas ajudou a proteger seu império contra invasores. Pessoas sortudas o bastante para sobreviver às infecções na infância raramente serão incomodados pela doença na maturidade.

Para cada época, um remédio
Shah realiza um trabalho virtuoso com o frustrante histórico do tratamento antimalária. A quinina, um dos maiores remédios de ervas da história, potente, porém tóxico, começou a ser extraído de cascas de árvores somente no século XX. A cloroquina, um derivado sintético, era ainda mais potente e muito menos tóxica – o remédio perfeito, até que, no caminho natural das doenças infecciosas em nossa era, os parasitas da malária se tornassem resistentes a ela.

Hoje, esse ciclo se repetiu com todos os bons medicamentos antimalária, até – e incluindo – o mais recente, a artemisinina.

“Levará pelo menos mais dez anos até que um remédio tão bom seja descoberto”, lamentou uma autoridade da Organização Mundial da Saúde em 2006. “Estamos basicamente mortos”.

Enquanto isso, em muitas áreas subdesenvolvidas, a doença é apenas mais um dos problemas. Apesar da urgência do novo grupo antimalária Gates-Clinton-Bono, as pessoas frequentemente a consideram como um mal menor, como um resfriado, e desconsideram a obsessão ocidental em domá-la. Segundo uma estimativa, apenas 20% das pessoas com malária procuram efetivamente o tratamento, e desses, apenas um terço toma os medicamentos indicados. Redes contra mosquitos tratadas com inseticida, doadas pelo ocidente com grande alarde, chegam a ser reutilizadas como redes de pesca.

Shah, norte-americana de descendência indiana, soube disso tudo em primeira mão: “Praticamente todos os meus parentes indianos reagiram ao meu livro com uma leve perplexidade, como seu eu anunciasse que estava escrevendo um livro sobre joanetes”.

O único probleminha com a narrativa de Shah é a probabilidade de que, se você não sabe discernir entre falciparum e vivax , entre merozoite e schizont, isso não será aprendido aqui. O estilo de vida ridiculamente barroco dos plasmódios é mais bem compreendido com textos diretos, repletos de diagramas e tabelas – e não com uma linguagem poética cheia de adjetivos.

Porém, os detalhes técnicos estão facilmente disponíveis em dúzias de outros materiais. O que não se encontra em nenhum outro lugar é o fascinante panorama de Shah para a malária no século XXI: bebês no Maláui morrendo apesar do melhor tratamento disponível, pesquisadores bem financiados de Harvard tramando um ataque genômico contra a doença, ativistas buscando reabilitar o inseticida pária DDT. E há também a menção casual de um parasita que costumava causar malária apenas em macacos, e que hoje vem aparecendo em doentes na Ásia.

Um testemunho aos talentos de Shah é que, mesmo com os inteligentes e fluentes comentários, o leitor nunca para de escutar a sinistra trilha sonora ao fundo: lamento e tapa. Lamento e tapa.

‘HOW MALARIA HAS RULED HUMANKIND FOR 500,000 YEARS’ (Como a malaria governou a humanidade por 500 mil anos, tradução livre), de Sonia Shah.
Sarah Crichton Books/Farrar, Straus & Giroux. 320 páginas. US$ 26

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