Descobertas do LHC estão apenas começando

Acelerador de partículas deve trazer mais resultados nas próximas semanas

Alessandro Greco, especial para o iG |

AFP
Cientista observa colisões de partículas dentro do LHC: experiências estão apenas começando
Há cerca de 8 meses, o mais potente acelerador de partículas já feito, o Grande Colisor de Hadrons (LHC), opera às energias mais altas já atingidas em laboratório. Construído pela Organização Européia para a Pesquisa Nuclear (CERN) e contando com a participação de cerca de 9000 cientistas de 580 instituições de 85 países, ele vem arremessando prótons, uns contra os outros, em um túnel com 27 quilômetros de circunferência a 170 metros de profundidade na fronteira entre Suíça e França. Desde o início de sua atividade cientistas de diversas partes do mundo vem coletando e processando os dados gerados pelos experimentos.

Nas duas últimas semanas, eles publicaram algumas descobertas iniciais, entre elas a primeira detecção dos bosons Z (um dos responsáveis pela chamada interação fraca, descoberto pelo CERN em 1983) na colisão de íons de chumbo (átomos de chumbo dos quais foram tirados os elétrons e são chamados de íons pesados por terem 208 prótons e nêutrons em seu núcleo). “Mais surpreendente do que a descoberta é a velocidade e eficiência com que as pessoas colocaram os íons pesados para acelerar e colidir no LHC”, comentou com o iG Sergio Novaes, do Centro Regional de Análise de São Paulo (Sprace), vinculado à Universidade Estadual Paulista (Unesp), um dos 161 clusters de todo o mundo que colaboram no processamento dos dados do experimento. “Até o momento, nos nove dias de coleta de dados de íons pesados pelo CMS [um dos detectores do LHC], foram detectados 10 eventos contendo candidatos ao bóson Z. Ocorreram também muitos outros eventos. A quantidade de dados coletados é tão grande que é preciso selecionar parte do que é produzido”, completa a física Sandra Padula, também do Sprace, que está trabalhando no centro de controle dentro do CERN. Segundo ela, nas próximas semanas devem ser feitos novos anúncios pela equipe, que conta com mais de 3 mil colaboradores. “Nestes últimos dias a maior parte do tempo foi dedicada a fazer ajustes, a verificar se o detector está funcionando corretamente, se o software está coletando e reconstruindo os dados com precisão. E os dados continuam a ser produzidos em profusão. Depois disso é que vamos fazer a análise mais detalhada desses dados. A diversão apenas começou...”

Um dos enfoques das colisões de ions pesados é a formação e o estudo do plasma quark-gluon, um estado da matéria que existiu bem no início do Universo e permitiu aos físicos investigar o que aconteceu nos milisegundos após o Big Bang, a explosão que ocorreu há cerca de 13,5 bilhões de anos e deu origem ao nosso universo. Além disso, a tão esperada comprovação da existência de dimensões extras, energia e matéria escura entre outras coisas poderão sair exatamente da análises dos dados gerados pelo CERN. Não é possível, no entanto, dizer quando elas irão acontecer. A grande expectativa é pela comprovação da existência do bóson de Higgs, a partícula que dá massa a todos as outras partículas e é o alicerce sobre o qual se ergueu boa parte da física do século XX. "O que está acontecendo agora é que estamos caminhando. Como a tecnologia é nova, comemoramos cada passo, mas não vi física nova ainda", afirmou ao iG o físico  George Matsas, também da Unesp, mas que não está ligado ao projeto de cooperação com o CERN.

Os anúncios das duas últimas semanas estão ligados ao fato de o acelerador ter começado a colidir íons pesados. "Essa é, eu diria, uma razão importante. Nunca íons pesados foram acelerados a energias tão altas, então, há uma grande expectativa em relação aos resultados", afirmou Sandra. Na semana passada o CERN também divulgou a informação de que cientistas da instituição haviam conseguido capturar átomos de antimatéria. O experimento, porém, não foi feito no LHC. 

Em 6 de dezembro o LHC será desligado e volta a funcionar no início de fevereiro de 2011. A manutenção é programada para acontecer anualmente nessa época. Ela é uma forma de conciliar a necessidade de manutenção programada do acelerador com o aumento do consumo de energia da população, por causa da chegada do inverno. Enquanto isso milhares de cientistas de todo o mundo estarão grudados em seus computadores tentando entender o que o universo está querendo mostrar. “Se encontrarmos o que estamos esperando está ótimo . Agora, mais excitante ainda seria encontrar coisas que nem imaginávamos.”, afirma Sandra.

    Leia tudo sobre: LHCdimensões extrasbig bangquark-gluon

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG