Depois do guia, um manual para quem quiser colecionar nuvens

Autor do Guia do Observador de Nuvens prepara lançamento, nos EUA, de um manual para quem quiser "caçar" cúmulos-nimbos e estratos

New York Times |

Gavin Pretor-Pinney encara de frente o maior problema de seu novo livro.


“Pode-se pensar que colecionar nuvens é ridículo.” É verdade, reconhece, que as nuvens são efêmeras, “que passam a existir num passe de mágica” da atmosfera e vivem em constante mutação. E, é claro, elas não podem ser colhidas e armazenadas. Mas para Pretor-Pinney, não é preciso possuir uma coisa para colecioná-la: “Basta percebê-la e registrá-la”.

Por essa razão, “The Cloud Collector’s Handbook” (o manual do colecionador de nuvens), publicado pela Chronicle Books, é um guia de campo encantador e sério sobre nuvens. O livro ensina os leitores a identificar nuvens, e tem um espaço para eles anotarem as observações, da mesma forma que os observadores de pássaros criam listas das aves localizadas. Há até um sistema de pontuação, no qual os observadores de nuvens ganham dez pontos para nuvens comuns, como o estrato-nimbo, as nuvens de chuva mais ou menos sem graça em que as pessoas costumam pensar quando dizem que elas são deprimentes, 40 pontos para a tempestuosa cúmulo-nimbo, “o rei das nuvens”, com formato de bigorna, e pontos extras para formações mais exóticas.

O objetivo, declarou Pretor-Pinney durante uma entrevista, é ajudar os leitores a escapar da tirania do “raciocínio do céu azul”, além de compreender e apreciar a beleza de um dia nublado.

O livro contém fotografias de dezenas de tipos de nuvens, com informações sobre sua formação e de como diferem dos parentes próximos. Também há um guia de arco-íris e outros efeitos ópticos das nuvens, além de um glossário de termos técnicos. Um gráfico mostra como os meteorologistas classificam as nuvens por gêneros, espécies e variedade, seguindo a maneira com que os biólogos catalogam a flora e a fauna.

Pretor-Pinney, fundador da Sociedade dos Apreciadores de Nuvens, que tem por lema “olhe para cima e imagine”, combate a ideia de que os dias ensolarados são os melhores. Embora a agremiação conte com 25 mil membros em 87 países e continue crescendo, encorajar a apreciação de nuvens é um trabalho árduo.

"Elas fazem parte da nossa linguagem, como 'cair das nuvens’ ou 'em brancas nuvens’".
Embora pequenos grupos de membros se reúnam de vez em quando na Grã-Bretanha, a sociedade ganha vida em seu site, no qual as pessoas podem ver reproduções de ilustrações famosas de nuvens, ler poesia ligada ao tema, publicar fotografias e fazer comentários, desde que relacionados às nuvens.

“Se não for assim”, afirma o site, “não estamos interessados”.

O site também vende cartões-postais, joias e camisetas sobre nuvens, além do CD “Rain, Glorious Rain” (chuva, gloriosa chuva), que traz justamente o que você está pensando. Como a sociedade diz, "amamos as nuvens, não temos vergonha de admitir e já nos cansamos das pessoas que ficam se queixando disso".

De acordo com Pretor-Pinney, observar nuvens lembra o passatempo britânico de ficar em estações férreas ou ao lado de linhas de trem anotando os números das locomotivas e vagões que passam. Ele disse que gostaria que os colegas mantivessem registros dos pontos que acumulam com uma qualidade superior à dos observadores de trens, pois o esforço os incentivaria a prestar mais atenção ao que acontece acima de suas cabeças.

Pretor-Pinney, 42, estudou em Oxford, onde, como conta, passou paulatinamente por física, filosofia e psicologia, para terminar se formando em design gráfico, em Londres. Em 1993, ele ajudou a fundar “The Idler”, publicação anual que celebra a beleza de não fazer nada. "É trabalho não remunerado", disse Pretor-Pinney, que mora em Somerset, Inglaterra, com a esposa e duas filhas, de 5 e 2 anos. “Não dá para ter coisas demais assim”.

Pretor-Pinney está prestes a se tornar professor visitante de meteorologia na Universidade de Reading que, ao que parece, está preparada para ignorar sua completa falta de formação na área, algo que ele vê como uma vantagem.

"Basta olhar e observar. Às vezes, ter formação demais em alguma coisa estreita sua visão." “The Cloud Collector’s Handbook” não é o único guia das nuvens. A Organização Meteorológica Mundial, um braço das Nações Unidas, publicou um atlas de nuvens, e o próprio Pretor-Pinney produziu "The Cloudspotter’s Guide" (o guia do observador de nuvens), um best-seller surpreendente quando foi lançado na Grã-Bretanha em 2007. Ele também é o autor de "The Wavewatcher’s Companion“ (”o livreto do observador de ondas", em português), publicado no ano passado.

Mas o livro de 2007 era cheio de texto e tinha poucas fotos coloridas, ele disse, e o atlas das nuvens é voltado para cientistas. O autor conta que queria atingir o público em geral com o novo livro, que é leve e colorido.

Pretor-Pinney resiste à ideia de que observar nuvens é mera diversão ou meramente engraçado. Pelo contrário, para ele, é uma forma de se conscientizar do mundo natural, "de estar receptivo quando algo está acontecendo no céu e notar o evento".

As nuvens são uma parte importante e necessária de nosso ambiente, ele assinala, e, afinal, uma sucessão eterna de dias sem nuvens seria uma chatice. Assim, Pretor-Pinney tem pouca paciência com pessoas que sonham com um clima ensolarado quando o céu está coberto de nuvens. "A felicidade não vem de desejar estar em outro lugar. A felicidade nasce em encontrar beleza e estimulação ou interesse no lugar em que se vive".

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