Corações de salmões estão preparados para aquecimento global

Estudo constatou que grupos de peixes que percorrem longas distâncias para desova têm órgãos maiores e mais fortes

Maria Fernanda Ziegler, iG São Paulo |

Matt Casselman
Salmões sobem o rio Fraser para desovar
Um estudo com populações de salmão-vermelho no rio Fraser, no Canadá, mostrou que os peixes que têm a migração para a desova mais longa e atribulada são mais resilientes, têm os corações mais potentes e estão mais aptos a suportar temperaturas altas. Os pesquisadores acreditam que esta capacidade pode privilegiar a sobrevivência de algumas populações em detrimento de outras em função das mudanças climáticas.

O estudo, que será publicado nesta semana no periódico científico Science, mostrou que a fisiologia cardiorrespiratória dos peixes de uma mesma espécie varia de uma população para outra de acordo com as condições enfrentadas durante a migração. As populações que enfrentaram ambientes mais desafiadores durante a migração têm o coração maior, mais musculoso o que resulta em mais oxigênio no corpo.

“Não tem a ver com o exercício em si. De fato, estas populações são mais aptas e por isso conseguem migrar por longas distâncias e enfrentar grande variação de temperatura”, disse ao iG Erika Eliason, da Universidade da Columbia Britânica no Canadá.

Os peixes, que costumam viver em mar aberto, sobem rios como parte de seu ciclo de reprodução; é em água doce que eles fazem sua desova. Foram identificadas mais de 100 populações diferentes de salmão vermelho no rio Fraser, e os pesquisadores se concentram em oito delas. O estudo constatou que a diferença na distância percorrida destas populações para a desova é impressionante: varia de 100 a 1100 quilômetros, com diferenças de altitude rio acima de 10 a 1200 metros. A variação de temperatura enfrentada pelos que percorrem longas distâncias é enorme: de 9 ºC a 22 ºC. “Acredito que o estudo seja um ótimo exemplo de como algumas populações dentro de uma mesma espécie se adaptam melhor que outras”, disse

Robert Polo
Salmão-vermelho adulto entra em área de desova
A capacidade de se adaptar ao calor é uma boa notícia para esta população visto que o rio se aqueceu em cerca de 2 ºC desde os anos 1950. As altas temperaturas alto rio têm sido associadas com a alta mortalidade dos peixes. “No entanto, ainda não sabemos o quão rápida é a adaptação destes peixes para acompanhar a mesma velocidade com que está acontecendo o aquecimento global”, disse Erika.

“Superpeixes”
A população de salmão que desova no lago Chilko é a que parece ser a mais resiliente de todas para suportar altas temperaturas. Até chegar ao lago, ela enfrenta temperaturas de até 22°C.
"Eu gosto de chamar a população Chilko de superpeixe. Eles são capazes de nadar por uma ampla gama de temperatura em comparação com as outras espécies examinadas Acreditamos que isso tem a ver com a forma como eles adaptados para lidar com a migração difícil”, disse Eliason.

A população que desova no lago Chilko viaja mais de 650 quilômetros rio acima, ganhando um quilômetro de altitude. Eles atravessam o chamado Portão do Inferno, uma área onde as águas do rio Fraser mergulham em uma passagem de apenas 35 metros de largura, e durante o verão concentra altas temperaturas. Após a travessia, os peixes chegam ao lago glacial onde se reproduzem.

De acordo com estatísticas, desde os anos 1990, as diferentes populações de salmão vermelho vem entrando em declínio, causado principalmente causada pela migração. Pesquisadores estimam que antes de 1990, a taxa de mortalidade durante a migração fosse de 30%. Atualmente este número já atinge os 80%.

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