Cientistas questionam estudo sobre bactéria com arsênio

Conforme adiantou o iG, comunidade científica afirma que os resultados apresentados não são sólidos

Cristina Caldas, especial para o iG |

AFP
Felisa Wolfe-Simon, durante coletiva da Nasa para apresentar a descoberta, na semana passada: comunidade científica colocou estudo em dúvida
O burburinho gerado em torno da publicação de um estudo da NASA na semana passada começou com boatos sobre um possível anúncio de descoberta de vida extraterrestre. Agora, inúmeros cientistas estão destacando falhas no trabalho, que não era sobre ETs e sim sugeriu a existência de uma bactéria capaz de substituir fósforo por arsênio em seu organismo. Entrevistado pelo iG na semana passada, Jack W. Szostak, ganhador do prêmio Nobel em Fisiologia e Medicina, já havia levantado a possibilidade de contaminação nas amostras , o que invalidaria o resultado de que as bactérias incorporaram arsênio ao DNA, no lugar do fósforo.

Leia mais:
Prêmio Nobel contesta descoberta de bactéria que come arsênio
Bactéria usa arsênio para se desenvolver

A mesma falha no trabalho foi destacada em uma reportagem publicada ontem na revista eletrônica Slate. Carl Zimmer, autor da reportagem, explicou que os cientistas da NASA estavam alimentando as bactérias no laboratório com sais que continham pequenas quantidades de fósforo. “Baixas concentrações de fósforo no meio de cultura, pesquisadores ingênuos e revisores ruins compõem essa história”, disse à Slate o pesquisador Norman Pace da Universidade do Colorado, pioneiro em identificar microrganismos exóticos por meio da análise de seus DNAs.

Outra fonte de contaminação pode ter ocorrido por falta de cuidado dos cientistas em lavar o DNA retirado da bactéria, antes de realizar os experimentos para avaliar se havia arsênio no DNA. O arsênio pode ter apenas grudado no DNA como chiclete ao sapato, sem necessariamente ter sido incorporado ao esqueleto da molécula. “É trivial fazer um trabalho melhor”, disse Forest Rohwer, microbiologista da Universidade Estadual de San Diego, na reportagem da Slate.

A maioria dos cientistas ouvidos por Zimmer disse considerar que os resultados apresentados não sustentam as conclusões dos cientistas da NASA. “Esse trabalho nem deveria ter sido publicado”, disse Shelley Copley, da Universidade do Colorado.

Divulgação/Science
Imagem de microscópio da bactéria GFAJ-1: arsênico incorporado ao DNA seria proveniente de contaminação de amostras
Procurada novamente pelo iG para que respondesse às críticas levantadas por Szostak e Benner, Felisa Wolfe-Simon, responsável pela pesquisa, informou por email que o grupo está coletando as perguntas mais frequentes sobre o trabalho, e as respostas serão publicadas na internet.

À Slate, a cientista foi mais ácida: “Qualquer debate deverá ser revisado da maneira como o nosso trabalho foi, e passar por verificação de modo que a discussão seja adequadamente moderada”, declarou. “Se estivermos errados, outros cientistas devem se motivar a reproduzir nossos dados. Se estivermos certos (e estou convencido que sim) nossos competidores vão aceitar e nos ajudar a entender esse fenômeno”, afirmou Ronald Oremland, do U.S. Geological Survey, e um dos autores do trabalho.

Embora a discussão na comunidade científica esteja agora focada nas fragilidades dos resultados do trabalho da Science, especialistas não excluem a possibilidade de tal bactéria existir. Se o resultado for confirmado, a definição de vida será ampliada, aumentando o número potencial de locais onde seres vivos podem ser encontrados, tanto aqui quanto fora da Terra. Encontrar vida em locais extremos aumenta o número de planetas potenciais que podem servir de morada para vida, disse Lisa Kaltenegger da Universidade de Harvard.

Cientistas concordam que a possibilidade de encontrar vida extraterrestre nunca foi tão alta. "As evidências estão cada vez mais fortes”, disse Carl Pilcher, diretor do Instituto de Astrobiologia da NASA, que estuda a origem, evolução e chance de vida no universo. Marte é o candidato mais forte, e outras possibilidades incluem as luas de Júpiter e Saturno. Outra possibilidade seria encontrar vida alienígena aqui na Terra, trazida, por exemplo, por um meteorito.

(com informações da AP)

    Leia tudo sobre: nasavida extraterrestrebactérias

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG