Cientistas financiam pesquisas pela Web

Com a redução dos financiamentos em universidades, pesquisadores americanos buscam modos inovadores para manter seu trabalho

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A bióloga Jennifer Calkins, que resolveu levantar na internet os fundos para sua pesquisa com pássaros
Em janeiro, época em que muitos cientistas se concentram em propostas de financiamentos, Jennifer D. Calkins e Jennifer M. Gee – ambas biólogas – estavam ocupadas desenhando camisetas e cartões de codornas. As camisetas custavam US$ 12 cada, e os cartões US$ 15, num esforço de arrecadação lembrando uma venda de produtos online.

Os US$ 4.873 levantados, principalmente de pequenas doações, irão pagar por seus gastos de viagem, alimentação, laboratório e equipamentos para estudar a elegante codorna neste outono, no México.

“Cada transmissor de rádio custa US$ 135”, disse Gee, gerente interna da Robert J. Bernard Biological Field Station em Claremont, Califórnia. “O receptor usado para rastrear pássaros fica entre US$ 1.000 e US$ 2.000”.

Com a redução de orçamentos em universidades e agências federais de financiamento, uma nova safra de cientistas antenados espera que a sabedoria – e generosidade – das multidões venha a seu resgate. Embora organizações científicas sem fins lucrativos e centros de pesquisa médica comumente busquem doações do público, Calkins – professora adjunta de biologia na Evergreen State College, em Olympia, Washington – e Gee podem ter sido as primeiras cientistas profissionais a usar um site genérico de 'financiamento público’ para patrocinar uma pesquisa.

Em maio de 2010, nenhuma delas possuia o status de pesquisador necessário para se inscrever, por meio de sua instituição, para uma bolsa da National Science Foundation. Mas elas estavam ávidas por começar a coletar dados sobre o comportamento, aparência, distribuição, seleção de habitat e posição filogenética da espécie de codorna menos estudada no gênero Callipepla .

Calkins, que havia publicado artigos de pesquisa e poesia, volteou-se à comunidade de artistas e pequenos filantropos do kickstarter.com . Seu pedido por potenciais patrocinadores no site: “Ao contribuir para este projeto, você irá apoiar um estudo desta espécie pouco conhecida enquanto examinamos seu comportamento e evolução em seu habitat natural, um espaço invadido pela expansão urbana e tensões envolvendo o tráfico de drogas”.

Sites como o Kickstarter, IndieGoGo e RocketHub são uma forma cada vez mais popular de financiar projetos criativos – geralmente em cinema, música e artes visuais. Muito provavelmente, ninguém havia imaginado que eles seriam usados para financiar pesquisas científicas. E não se sabe que tipo de problemas essa estranha ligação pode gerar.

A maioria das plataformas de arrecadação pública aposta na transparência e numa dose saudável de autopromoção, mas lhes falta a garantia e a avaliação especializada de um processo tradicional de revisão. Em vez disso, quem fala é o dinheiro: o público decide que projetos valem a pena, financiando-os completamente. O Kickstarter cobra uma taxa de 5 por cento quando os projetos atingem ou ultrapassam suas metas de arrecadação. Quando o total fica abaixo da meta, os doadores não pagam nada. O dinheiro pode vir de qualquer lugar – os maiores financiadores no projeto da codorna foram fazendeiros e caçadores.

“Nós duas hesitamos um pouco”, contou Gee. “Estávamos com medo de perder a legitimidade diante de outros cientistas. Este não é um processo revisado por pares. Eu simplesmente faria qualquer coisa para poder começar minha pesquisa”.

Para Calkins e Gee, que receberam seus doutorados respectivamente em 2001 e 2003, a arrecadação pública é apenas mais uma forma de reunir uma colagem de financiamentos e pedaços incrementais de pesquisa buscando objetivos maiores. “Tive de ser oportunista para prosseguir com minha pesquisa”, escreveu Gee por e-mail. “Coleto dados num estilo guerrilha – quando e onde puder! Considero minha história como algo típico”.

Dez anos atrás, Andrea Gaggioli queria conduzir uma pesquisa sobre realidade virtual e reabilitação neural. Porém, segundo ele, “na Itália é quase impossível ser financiado se você tem menos de 30 anos”.

Hoje com 37 e trabalhando como pesquisador de psicologia e tecnologia na Universidade Católica de Milão, Gaggioli fala com qualquer pessoa disposta a ouvir sobre seu projeto Open Genius, uma iniciativa de arrecadação pública que, ele espera, proporcionará dinheiro para pesquisas revolucionárias.

Gaggioli pretende montar um processo de revisão por pares para “separar o lixo da boa ciência”. Contudo, mesmo seu sonho de arrecadação pública precisa de financiamento antes de começar a aceitar propostas.

“Acho que as pessoas irão investir em projetos conduzidos por jovens, que não têm outras possibilidades de levar adiante suas ideias”, afirmou Gaggioli.

Votação popular
A Cancer Research UK, instituição de caridade em Londres, usou uma página Web do site de microfinanciamento Kiva quando iniciou o MyProjects, em setembro de 2008. “A premissa básica era deixar as pessoas escolherem quais cânceres elas queriam vencer”, disse Ryan Bromley, gerente de comunidades online da organização.

No gênero de arrecadação pública, o MyProjects pertence a uma espécie diferente do Kickstarter. Todos os projetos do site foram avaliados por cientistas e já receberam financiamento da Cancer Research UK. E os fundos são garantidos mesmo que a meta do MyProjects não seja atingida. Bromley chama o serviço de “arrecadação substituta”.

“Estamos tentando atrair pessoas para financiar de uma forma diferente, que nunca usamos antes”, disse ele.

O valor de US$ 1,3 milhão que o MyProjects levantou desde 2008 é um número pequeno, se comparado aos US$ 534 milhões concedidos a pesquisadores do câncer pela organização-mãe somente no ano fiscal de 2009-2010. Existem atualmente 28 projetos no site, com destaque para os cânceres mais comuns: mama, pulmão e próstata. Mas o site continua se adaptando e crescendo.

“Estamos usando as mídias sociais o máximo possível”, explicou Bromley. A página do MyProjects no Facebook já foi 'recomendada’ por mais de 75 mil pessoas. O site possui vídeos com histórias de sucesso de pacientes e pesquisadores. A ciência é um ponto de interesse, disse Bromley, mas o elemento humano é “um pouco mais motivador do que a ciência por si só”.

É cedo para dizer o quanto a arrecadação pública representará para a ciência. Um projeto de geologia sobre rochas sedimentares, por exemplo, receberia tanto dinheiro quando a carismática codorna? “A coisa começa quando uma pessoa numa comunidade propõe um projeto”, afirmou Yancey Strickler, um dos fundadores do Kickstarter. “Então, de repente, eles veem propostas de cinco outras pessoas naquela comunidade”.

Essa reação em cadeia parece ter se iniciado na escola pública de artes liberais Evergreen.

O sucesso do projeto das codornas inspirou Alison Styring, membro da academia de estudos ambientais da Evergreen, a enviar uma proposta ao Kickstarter intitulada 'Mapeando o Cenário Sonoro de Bornéu’. “Está ficando cada vez mais difícil obter um financiamento”, disse Styring, que espera levantar US$ 15 mil para gravar os sons do Tawau Hills Park, em Bornéu, na Malásia, e estudar os pássaros de lá.

Sobrecarregada com uma agenda lotada no ensino, Styring estava escrevendo avaliações de estudantes, em janeiro, quando o último prazo de bolsas da National Science Foundation expirou. Segundo ela, projetos de campo com custo relativamente baixo como o dela geralmente não são financiados pela fundação. Mas Styring não tinha certeza se a arrecadação pública funcionaria para ela, ou que tipo de recompensa poderia oferecer como incentivo aos potenciais doadores. “Talvez músicos pudessem usar os sons”, arriscou.

Além de camisetas e cartões, Calkins e Gee ofereceram cartões postais para doações de US$ 5, faixas de codornas por US$ 10, cópias assinadas de 'The Quail Diaries’ por US$ 35, gravuras por US$ 45, ilustrações por US$ 75, adotar e dar nome a uma codorna por US$ 100 e uma visita guiada das codornas da Califórnia por US$ 500. “A maioria das pessoas preferiu o livro”, declarou Calkins.

O projeto da codorna foi um dos milhares que Cassie Marketos, editora comunitária do Kickstarter, aprovou. “Comprar um livro sobre codornas é uma coisa”, disse ela. “Porém, saber que você teve uma pequena participação naquilo tudo é uma experiência completamente diferente”.

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