Cientistas fazem trecho artificial de DNA de levedura

Novo experimento com DNA é mais um passo na direção da criação de um organismo inteiramente criado em laboratório

Alessandro Greco, especial para o iG |

Getty Images
Células de Saccharomyces vistas no microscópio: DNA artificial funcionou normalmente
Um trecho do DNA da levedura Saccharomyces cerevisiae , um dos organismos mais estudados pelos cientistas, foi construído sinteticamente em laboratório. Na pesquisa, publicada nesta quarta-feira (14) no periódico científico Nature, Jef Boeke e seus colegas da Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, Estados Unidos, conseguiram produzir um pedaço de cromossomo sintético da Saccharomyces e depois o introduziram em uma levedura, substituindo o trecho original, e ele se comportou normalmente.

"Isto significa que as especificações de design que fizemos são compatíveis com uma levedura sadia", afirmou Boeke ao iG . E completou: "E também abre uma porta para construir DNAs maiores que podem ser usados em diversas aplicações".

Os pesquisadores também inseriram no DNA sintético um sistema de evolução desenvolvido por eles que lhe permite rearranjarseus genes, gerando mutações, chamado por eles de SCRaMbLE. O resultado foi a criação de uma variedade de fenótipos e genótipos de forma similar à que ocorre durante a evolução natural prevista por Charles Darwin. O SCRaMbLE funciona através de uma série de sequências de DNA chamada LoxPsym que são colocadas no genoma, e permitem aos genes trocar de lugar, o equivalente a uma mutação.

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Para os autores, o SCRaMbLE pode se tornar uma ferramenta útil na análise da estrutura, conteúdo e função de genomas, e uma das aplicações deste tipo de tecnologia seria na indústria de biocombustíveis. "Seria possível selecionar a levedura, após o uso do SCRaMbLe, que trabalha melhor, por exemplo, para produzir biocombustíveis", explicou Boeke. O próximo passo agora é construir uma Saccharomyces cerevisiae totalmente sintética.

Primeiro organismo sintético deve ser criado em 10 anos
Recentemente o periódico Science publicou uma série de artigos que falava do caminho a ser trilhado para a construção de um organismo totalmente sintético.

Há ainda, no entanto, obstáculos a serem transpostos para que se consiga realizar a façanha de gerar vida artificial. “A dificuldade depende da definição de vida. Provavelmente faz mais sentido pegar aspectos específicos da vida como a possibilidade de autorreplicação, a possibilidade de evoluir... Não acho que seja tão difícil criar sistemas para aspectos simples”, afirmou ao iG Petra Schwille, da Universidade Técnica de Dresden, na Alemanha e autora de um dos quatro artigos do especial da Science.

Para criar estes pequenos sistemas capazes de realizar tarefas específicas é necessário, segundo ela, entender conceitos físicos básicos sobre seu funcionamento para então desenhá-los artificialmente. Uma tarefa que necessita do trabalho de cientistas de diversos campos, de biólogos a físicos, passando por engenheiros e químicos apenas para nomear algumas das habilidades necessárias para construir um ser artificial. “Precisamos de uma caixa de ferramentas com moléculas com capacidades básicas. Atualmente já podemos simular algumas delas, mas criar uma forma de vida totalmente autônoma pode ser surpreendentemente difícil. Mesmo assim acredito que dentro de cerca de 10 anos conseguiremos”, afirmou Petra.

A façanha, porém, não significa que iremos conseguir recriar moléculas tão complexas como as feitas pela natureza, foram foram geradas ao longo de milhões de anos através da seleção natural. Isso é algo que nem o mais sofisticado dos laboratórios atuais poderia atualmente reproduzir.

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