Cientistas estudam efeito das roupas para o cérebro

Estudo que envolveu a indumentária de médicos mostrou que aventais podem influenciar a maneira como o cérebro trabalha

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Michael Temchine/The New York Times
Ryan Sheilds, estudante de medicina analisa jaleco na Universidade Johns Hopkins
Se você vestir um avental branco que você acredita que pertence a um médico, sua habilidade para prestar atenção aumenta drasticamente. Mas se você usar o mesmo avental branco acreditando que pertence a um pintor, você não mostrará essa melhoria.

Assim os cientistas relatam depois de estudar um fenômeno a que chamam cognição indumentária: os efeitos de roupas sobre os processos cognitivos.

Não é o suficiente ver o avental de um médico pendurado na sua porta, disse Adam D. Galinsky, professor da Escola Kellogg de Administração da Universidade Northwestern, que liderou o estudo. O efeito ocorre apenas se você realmente vestir o avental e souber o seu significado simbólico _ que os médicos tendem a ser cuidadosos, rigorosos e atentos.

Os resultados no site do periódico The Journal of Experimental Social Cognition mostram uma reviravolta em um crescente campo científico chamado cognição incorporada. Pensamos não apenas com o cérebro, mas com o corpo, disse Galinsky, e nossos processos de pensamento são baseados em experiências físicas que desencadeiam conceitos abstratos associados. Agora parece que essas experiências incluem as roupas que vestimos.

"Eu amo a ideia de tentar descobrir a razão, quando colocamos as roupas certas, de podermos assumir um papel mais facilmente e como isso pode afetar nossas capacidades básicas", disse Joshua I. Davis, professor assistente de Psicologia da Barnard College e especialista em cognição incorporada, que não esteve envolvido com o estudo. Este estudo não explica totalmente como isso acontece, disse ele, mas sugere que valerá a pena explorar várias ideias.

Existem muitos trabalhos sobre cognição incorporada, disse Galinsky. A experiência de lavar as mãos é associada à pureza moral e julgamentos éticos. As pessoas são classificadas como mais quentes se seguram uma bebida quente em suas mãos e mais frias se possuem uma bebida gelada. Se você levar uma prancheta pesada, você vai se sentir mais importante.

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Há muito tempo se sabe que "a roupa afeta a forma como os outros nos veem, bem como a forma como pensamos sobre nós mesmos", disse Galinsky. Outros experimentos mostraram que as mulheres que se vestem de forma masculina para uma entrevista de emprego são mais propensas a serem contratadas e um auxiliar que usa roupas formais é percebido como mais inteligente do que aquele que se veste mais casualmente.

Mas a questão mais profunda, de acordo com os pesquisadores, é se a roupa que você usa afeta seus processos psicológicos. A sua roupa altera a forma como você se aproxima e interage com o mundo? Assim, Galinsky e seu colega Hajo Adam realizaram três experimentos em que as roupas não variam, mas o seu significado simbólico foi manipulado.

No primeiro, 58 estudantes foram aleatoriamente designados para usar um avental branco ou roupas comuns. Em seguida, eles passaram por um teste de atenção seletiva com base na sua capacidade de observar incongruências, como quando a palavra "vermelho" aparece na cor verde. Os que usaram os jalecos brancos cometeram cerca de metade dos erros cometidos pelos que usavam roupas normais nos estudos de incongruência.

No segundo experimento, 74 alunos foram divididos aleatoriamente em uma das três opções: usar um avental de médico, vestir um avental de pintor ou ver o avental de um médico. Em seguida eles passaram por um teste de atenção sustentada, em que tinham que olhar para duas imagens muito semelhantes situadas uma ao lado da outra em uma tela e apontar quatro pequenas diferenças, escrevendo-as da forma mais rápida possível.

Aqueles que usavam avental de médico, que era idêntico ao avental de pintor, encontraram mais diferenças. Eles adquiriram maior atenção. Aqueles que usavam avental de pintor, ou que foram condicionados apenas com a visão do avental de médico, encontraram poucas diferenças entre as imagens.

O terceiro experimento explorou a parte do condicionamento mais profundamente. Será que simplesmente ver um item físico, como o avental, afeta o comportamento? Os alunos que usaram avental de médico ou de pintor ou foram orientados a observar o jaleco de um médico disposto na mesa em frente a eles, por um longo período de tempo. Todos os três grupos escreveram ensaios sobre seus pensamentos em relação aos aventais. Em seguida, passaram por testes de atenção sustentada.

Novamente, o grupo que vestiu o avental de médico mostrou a maior melhoria na atenção. Você tem que vestir o avental, vê-lo em seu corpo e senti-lo em sua pele para que ele influencie seus processos psicológicos, disse Galinsky.

As roupas invadem o corpo e o cérebro, colocando o usuário em um estado psicológico diferente, disse ele. Galinsky descreveu sua própria experiência no Halloween passado (ou talvez devesse ser chamado de Dia Nacional da Cognição Indumentária).

Ele decidiu se vestir como um cafetão, com um chapéu fedora, casaco longo e bengala. "Quando entrei na sala, eu deslizava", disse ele. "Eu senti uma presença muito diferente."

Mas o que acontece, pensou ele, se você vestir roupas de cafetão todos os dias? Ou o hábito de um padre? Ou o uniforme de um policial? Você se acostumará, de modo que as alterações cognitivas não ocorram? Será que os efeitos desaparecerão?

Mais estudos são necessários, disse ele.

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