Cientistas convertem pele em neurônio para estudar esquizofrenia

Modelo celular permite compreender bases biológicas da doença, sem a influência do ambiente

Maria Fernanda Ziegler, iG São Paulo |

Dr. Kristen Brennand, Salk Institute for Biological Studies
Neurônios derivados da pele de pacientes com esquizofrenia. Os núcleos estão marcados em azul
Pela primeira vez, cientistas conseguiram criar um modelo com células humanas para estudar a esquizofrenia. A doença, que atinge cerca de 1% da população e provoca alucinações em seus portadores, atua por meio de mecanismos ainda pouco conhecidos pela ciência. Os pesquisadores acreditam que o modelo vai permitir a compreensão das bases biológicas da doença.

Para chegar ao modelo celular, a equipe recolheu amostras da pele de pacientes com esquizofrenia e, por meio de técnicas de biologia molecular desenvolvidas nos estudos sobre células-tronco, conseguiu transformar esse material em células pluripotentes, capazes de se converter em qualquer outro tipo de célula do corpo.

Os pesquisadores, então, converteram as células pluripotentes em neurônios e perceberam que os neurônios obtidos tinham as mesmas anomalias dos de pacientes com esquizofrenia. Em comparação com neurônios saudáveis, eles faziam poucas conexões entre si.

Fred Gage, professor do Salk's Laboratory of Genetics, nos Estados Unidos, admite ter sido uma surpresa para a equipe ver os neurônios artificiais apresentarem as mesmas anormalidades que neurônios de pacientes. “Esperamos que o novo modelo seja usado para revelar o ponto de partida da doença, e também para projetar novas drogas que possam ser usadas no tratamento da doença”, disse ele ao iG .

O estudo não parou por aí. Os pesquisadores utilizaram um vírus modificado da raiva para identificar as conexões entre as células nervosas. “O vírus trafega entre os neurônios, revelando suas conexões”, disse Gage.

O vírus evidenciou que, fazerem menos ligações entre si, os neurônios com esquizofrenia tinham poucas projeções de crescimento fora de seus corpos celulares. Outra descoberta interessante foi a identificação de quase 600 genes com a atividade desregulada, dos quais 25% haviam sido implicados na esquizofrenia antes.

“Ninguém sabe quanto o ambiente contribui para a doença. Com o modelo, podemos tirar o ambiente da equação e nos focar nas questões biológicas da doença”, disse Kristen Brennand, que também participou do estudo, publicado na edição desta semana do periódico científico Nature .

Para confirmar possíveis tratamentos da doença nas células trabalhadas em laboratório, os pesquisadores administraram Loxapine, um medicamento antipsicótico geralmente usado para tratar a esquizofrenia. Como resultado, ocorreu a restauração da conectividade entre os neurônios.

A esquizofrenia é uma doença que combina delírios paranoicos, alucinações auditivas e alterações das funções cognitivas. Há casos notórios da doença, como o prêmio Nobel de Economia John Nash – que teve sua biografia contada no filme Uma Mente Brilhante . Investigações preliminares da chacina da escola de Realengo, no Rio de Janeiro, chegaram a sugerir que Wellignton de Oliveira, o atirador, sofria de esquizofrenia.

Gage salienta que por muitos anos se acreditou que as doenças mentais eram relacionadas apenas com questões sociais e do ambiente em que os pacientes viviam. “Muitas pessoas acreditavam que, trabalhando apenas nos problemas da doença, ela poderia ser superada”, disse. “Mas estamos mostrando, aqui, disfunções biológicas nos neurônios que independem do ambiente”, disse.

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