Cientistas brasileiros falam sobre célula sintética

Geneticistas do país acreditam que o genoma sintético vai abrir a porta para várias novas tecnologias

Natasha Madov, iG São Paulo |

Cientistas brasileiros ouvidos pelo iG estão bastante animados com o anúncio de ontem (20), da criação da primeira célula com genoma sintético do mundo, uma bactéria chamada Mycoplasma mycoides JCVI-syn 1.0, e fazem um coro praticamente uníssono: embora a célula não possa ser chamada de vida artificial, é um marco científico que abre portas para novas tecnologias.

Para Mayana Zatz, diretora do Centro de Estudos do Genoma Humano da USP, a equipe do cientista-empresário Craig Venter não criou uma bactéria a partir do zero, e sim transformou uma espécie em outra. “Ele inseriu um genoma já conhecido, mas construído artificialmente, em uma célula, e ela começou a ser comandada por ele.” Mariz Vainzof, professora associada da mesma instituição, complementa: “Sempre é necessário partir de alguma coisa. Nesse caso, usou-se toda a estrutura interna de uma célula. É como se fosse um molde”.

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Salmo Raskin, presidente da Sociedade Brasileira de Genética Médica, enxergou possibilidades no uso de “marcadores” no código genético, como frases, nomes e endereços de email, usados pela equipe de pesquisadores para diferenciar o genoma sintético. “Essa brincadeira foi muito interessante, porque mostra que podemos inserir qualquer sequência em um genoma,” explica. Raskin diz que o experimento também traz para mais perto da realidade a busca pelo genoma básico, os cromossomos mínimos necessários para o funcionamento de um organismo.

“Esta foi uma experiência que demorou 15 anos para ser concluída, foi um processo complexo, caro e muito demorado. Estamos longe de criar uma vida,” acredita Mayana. “O que ela mostra é a possibilidade de uma tecnologia importante, que pode ser muito útil, com a criação de bactérias para a produção de vacinas e de limpeza de petróleo”. O risco de bioterrorismo e os receios éticos existem, em sua opinião, agora e com qualquer experimento que envolva biotecnologia. “É como um bisturi: ele pode ser usado tanto para uma cirurgia quanto para machucar. Sempre pode. Mas é como com a [ovelha clonada] Dolly. Na época foi aquele auê. Hoje, 14 anos depois, viu-se que não é nada daquilo.”

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