Ciborgue afirma que humanos devem ter os sentidos expandidos

Britânico que consegue escutar as cores por meio de um chip

Maria Fernanda Ziegler, iG São Paulo |

Maria Fernanda Ziegler / iG
Neil Harbisson, que enxerga em preto e branco, consegue sentir o som das cores por meio de um chip dentro de sua cabeça
Olhando de longe, Neil Harbisson parece ser um cantor de música pop. Seja pelo corte de cabelo, a jaqueta preta de estilo militar, ou pela combinação da calça amarelo-gema com a camisa azul-bic. Só mais de perto é que é possível perceber que além de uma câmera saindo de sua cabeça, há também uma forte empolgação com a possibilidade, dada pelo equipamento, de ampliar a forma como ele sente o mundo.

O britânico, a primeira pessoa reconhecida como ciborgue por um governo, nasceu enxergando apenas em preto e branco. Desde 2004, por meio de um equipamento que liga um chip inserido em seu cérebro a uma câmera frontal, ele consegue sentir a frequência das cores. ”Cada cor tem uma frequência que pode corresponder a um som. Eu escuto justamente este som correspondente”, explica Harbisson em palestra na Campus Party, evento que está sendo realizado em São Paulo até o fim desta semana.

Maria Fernanda Ziegler, iG São Paulo
Neil Harbisson fala ao público na Campus Party
Por causa de seu “eyeborg”, o apetrecho que tem junto à cabeça, ele leva a vida como uma trilha de música tecno. Harbisson não vê as cores, continua enxergando em preto e branco, mas consegue ouvir as tonalidades. Uma roupa normal pode soar como “fá-lá-dó-fá”, enquanto uma mais discreta como “ré-fá-lá-ré”. Cinema passa a ser uma rica experiência musical. Ironicamente, ele não consegue sentir o som do branco, preto e cinza.

Depois desta explicação, é possível compreender que a escolha da roupa de Harbisson não é uma preocupação em seguir a moda do “color blocking”, mas está relacionada ao agradável silêncio produzido pela jaqueta preta e os sons divertidos da calça amarela e da camisa azul.

Harbisson explica que uma menina de cabelo loiro, olhos azuis e vestido rosa, produz o som de um cabelo “sol”, olhos “dó” e vestido “mi”. Perguntado sobre o que faz uma pessoa atraente ele explica que é a junção do que vê em preto e branco com o som que sente do colorido de cada pessoa. “A beleza é diferente quando ouvimos as cores. "O príncipe Charles, por exemplo, soa muito bem”, diz em tom de brincadeira.

Para o ciborgue, o som das cores faz do supermercado, mais especificamente a sessão de produtos de limpeza, um de seus locais preferidos. “A parte onde fica o detergente e o sabão em pó, soa muito bem”, disse. Perguntado sobre qual é a sua cor preferida, ele responde que é a da berinjela, pois “tem um som alto muito bom e é quase preto” – cor que Harbisson enxerga, mas não ouve.

Um dos problemas apontado por ele sobre a vida de ciborgue são os efeitos secundários de seu “eyeborg”. “A freqüência do telefone mostra que ele é verde, embora eu saiba que ele não é verde”, disse.

Para um mundo com mais sentidos
O artista audiovisual é presidente da Fundação Cyborg, uma organização internacional para ajudar os seres humanos a se tornarem ciborgues e também para defender os direitos dos ciborgues. “Acredito que se tivéssemos mais pessoas com sentidos diferentes, teríamos uma sociedade muito mais interessante”, disse. Ele afirma que isto seria apenas uma ampliação das capacidades humanas. “Devo encorajar as pessoas a estender os seus sentidos, pois a minha vida mudou muito desde que tive a oportunidade de sentir as cores. Tenho a tecnologia não como uma ferramenta, mas como uma parte do meu corpo”.

Harbisson adquiriu o título de ciborgue de uma forma inusitada. Em 2004, ele precisou renovar seu passaporte e foi impossibilitado de tirar a foto para o documento com seu equipamento eletrônico. Para resolver o problema, ele precisou reunir depoimento de médicos, amigos e uma carta da Universidade afirmando que o eyerborg fazia parte de seu corpo. O passaporte foi aceito com a foto de Harbisson com sua câmera e ele passou a ser o primeiro ciborgue reconhecido do mundo.

“Antes eu perguntava que cores os objetos tinham, agora as pessoas me perguntam como as coisas soam. Mas é muito difícil de explicar, pois é uma coisa que só vivencio”, disse

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