Células-tronco e Parkinson: contaminação pode levar a fracasso

Estudo foi feito com ratos por cientistas paulistas e mostrou que mistura pode anular efeitos terapêuticos das células-tronco

Alessandro Greco, especial para o iG |

Uma das primeiras doenças a serem tratadas experimentalmente com células-tronco foi o mal de Parkinson. Mas os resultados do tratamento sempre foram dúbios: algumas pessoas melhoravam e outras pioravam, e os resultados levaram os cientistas a concluir que as terapias com células-tronco não tinham um efeito positivo nas pessoas com Parkinson.

Agora, um estudo feito por biólogos e neurocientistas da Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) parece ter descoberto que as responsáveis pelo fracasso não eram as células-tronco, mas um outro tipo de célula, os fibroblastos.

No estudo, feito em ratos com Parkinson induzido, eles mostraram que a contaminação por fibroblastos humanos, um tipo de célula da pele, anula os efeitos positivos do implante de células-tronco chamadas mesenquimais, obtidas, neste caso, do tecido do cordão umbilical de bebês.

Para chegar a esta conclusão, os pesquisadores fizeram primeiro um estudo com três grupos de dez ratos com mal de Parkinson induzido. O primeiro grupo recebeu as células-tronco, o segundo uma solução inócua e o terceiro os fibroblastos. No grupo um, não houve perda de neurônios nem sintomas clínicos da doença. No grupo dois, os animais perderam mais de 50% dos neurônios e tiveram sintomas clínicos como tremedeira. No terceiro grupo, aconteceu o resultado inesperado: os ratos perderam mais neurônios ainda do que os do grupo dois e tiveram mais sintomas clínicos. “Ficamos muito surpresos com o efeito negativo tão grande”, afirmou ao iG Oswaldo Keith Okamoto, principal autor do estudo, do Centro de Estudos do Genoma Humano da USP, que estava na Unifesp na época do trabalho.

Os resultados levaram os pesquisadores a fazer mais dois experimentos para verificar o efeito do fibroblastos. No primeiro, eles criaram novamente três grupos de 10 ratos cada e injetaram as mesmas substâncias em cada um deles. Desta vez, no entanto, os animais eram normais. Novamente os que receberam fibroblastos perderam muitos neurônios (mais de 50%). Com os outros dois grupos, nada aconteceu. No segundo, os cientistas misturaram células-tronco mesenquimais e fibroblastos e injetaram em ratos normais e com Parkinson induzido. Nos dois grupos, o resultado foi claro: perda de neurônios. No caso dos normais, cerca de 30% e nos com Parkinson induzido, mais de 50%.

A hipótese dos pesquisadores para os resultados é que os fibroblastos podem causar uma inflamação no cérebro e matar os neurônios. “Isso talvez justifique as observações feitas em estudos anteriores que houve pacientes que melhoraram e outras que pioraram”, explicou Okamoto.

Um dos fatores que levam a contaminação é que células-tronco mesenquimais e fibroblastos são muito parecidas ao microscópio e separá-las não é um tarefa simples. Inclusive os fibroblastos se originam de células-tronco mesenquimais.

É importante lembrar que atualmente os tratamentos com células-tronco ainda estão todos em laboratório. Não há nenhum deles disponível no mercado exceção feita aos tratamentos com células tronco hematopoiéticas que dão origem a diversos tipos de células do sangue.

O trabalho foi publicado no periódico científico Stem Cell Review and Reports e divulgado no Brasil pela Fapesp.

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