Buscando entender como a memória funciona

Em entrevista, o prêmio Nobel de Medicina de 2000 Erick Kandel explica as ligações entre memória e psicanálise

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O Nobel de Medicina de 2000 Eric Kandel, em seu laboratório na Universidade Columbia. Aos 82, ainda pesquisa e escreve livros sobre o cérebro
Aos oitenta e dois anos de idade, o neurocientista ganhador de um prêmio Nobe l Eric Kandel ainda tem novas ideias para pesquisa.

Este inverno, ele vem trabalhando num projeto que espera resultar numa nova classe de remédios para o tratamento da esquizofrenia. No ano passado ele colaborou, pela primeira vez, com Denise B. Kandel -- sua colega cientista na Universidade de Columbia e esposa há cinquenta e cinco anos -- na investigação das conexões biológicas entre as dependências da cocaína e do cigarro. E, este mês, seu novo livro, "The Age of Insight: The Quest to Understand the Unconscious in Art, Mind and Brain, From Vienna 1900 to the Present" ("A Idade do Insight: a busca pela compreensão do inconsciente na arte, na mente e no cérebro, da Viena de 1900 até hoje"), a ser lançado nos Estados Unidos pela editora Random House.

Segue-se uma versão resumida e editada de duas entrevistas. Como seu novo livro, a conversa começa com memórias de Viena, sua cidade natal.

Quantos anos você tinha quando os nazistas marcharam sobre Viena?
Eric Kandel: Oito e meio. Imediatamente, vimos que nossas vidas estavam em perigo. Fomos completamente abandonados por nossos amigos e vizinhos não-judeus. Ninguém falava comigo na escola. Um menino chegou a mim e disse: "Meu pai disse que não posso mais falar com você." Quando íamos ao parque, éramos hostilizados. Então, em nove de novembro de 1938, quando houve o Kristallnacht, fomos chutados de nosso apartamento, que foi saqueado. Sabíamos que tínhamos de fugir.

Por sorte, minha mãe tinha tomado a providência de se candidatar a vistos para os Estados Unidos antes disso. Por mais de um ano, aguardamos no terror de Viena até que o nosso número de imigração saísse. Quando isso finalmente aconteceu, meu irmão mais velho, Ludwig, e eu atravessamos o Atlântico sozinhos. Nossos pais vieram depois. É impressionante o quanto eu não tive medo na viagem, considerando que, mesmo antes do nazismo, eu era uma criança apreensiva. Você fica à altura da situação.

Quando você ganhou o Prêmio Nobel de 2000 na área de Fisiologia ou Medicina, os austríacos falaram com você?
Eric Kandel: Sim. Os jornalistas de lá diziam: "Ah, maravilha, outro Prêmio Nobel austríaco!". Eu disse: "Vocês estão enganados. Este é um Prêmio Nobel americano, judeu americano." O presidente da Áustria me escreveu um bilhete: "O que podemos fazer para reconhecê-lo?" E eu disse: "Não preciso de mais nenhum reconhecimento, mas seria simpático que fizessem um simpósio, na Universidade de Viena, sobre a resposta da Áustria ao nazismo". Ele disse: "Está bem". Sou muito ligado ao historiador Fritz Stern, e ele me ajudou a organizar o simpósio. Por fim, saiu um livro dele. Teve um impacto modesto.

Como estudante em Harvard nos anos 50, você aspirava a ser psicanalista. Isso se devia ao seu passado vienense?
Eric Kandel: Em parte fui atraído a isso porque era muito promissor. Nos anos 50 e no início dos anos 60, a psicanálise varreu a comunidade intelectual, e era o modo dominante de pensar sobre a mente. As pessoas sentiam que esse era um conjunto completamente novo de insights sobre a motivação humana e que seu potencial terapêutico era significativo. Era visto como o tratamento que resolvia todos os problemas do mundo, da esquizofrenia às unhas encravadas. É impressionante como se exagerou na sua promoção. Quando ficou claro que isso era mais esperança que realidade, as coisas se viraram na outra direção. No meu caso, não segui esse rumo porque me apaixonei pela pesquisa.

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Essa promoção exagerada desacreditou a psicanálise?
Eric Kandel: Penso que sim, e é uma pena. Há muitos componentes incrivelmente interessantes nela que valem a pena. O problema da psicanálise não é o corpo teórico deixado por Freud, mas o fato de que ela nunca se tornou uma ciência médica. Ela nunca tentou testar suas ideias.Quando se perguntava "Como não há testes de resultados?", diziam: "Não dá para estudar isso. Como você vai medir?".

Na verdade, havia perguntas que era, sim, possível fazer. Por exemplo, sob quais circunstâncias a psicanálise funciona melhor que um placebo? Ela funciona melhor que outros tipos de terapia? Quais os melhores terapeutas para cada tipo de paciente?

Fale de sua pesquisa sobre biologia da memória que ganhou o Nobel.
Eric Kandel: Há muito tempo me interesso pela memória. Como ela se parece do ponto de vista físico? Quando eu era muito jovem, meu mentor Harry Grundfest disse: "Olha, se você quer entender o cérebro, terá de fazer uma abordagem reducionista, uma célula de cada vez". Ele estava muito certo.

Então, qual o problema maior da psicanálise? É a memória! No fim dos anos 50, eu e um colega, Alden Spencer, fizemos uma descoberta significativa quando registramos os sinais que uma célula nervosa do hipocampo emite quando se comunica com outras células. Uma psicóloga chamada Brenda Milner havia apenas mostrado que a memória complexa envolve o hipocampo, o que foi a razão para escolhermos esse tipo de célula para estudar. Fomos capazes de estimular os vários caminhos que levavam à célula e registrar a entrada sináptica. Vimos de que modo a célula do hipocampo funcionava, mas, infelizmente, isso não explicava nada sobre a memória.

Assim, nos anos 60, optamos por uma abordagem mais reducionista. Em vez de estudar células nervosas de mamíferos complexos, estudamos o sistema nervoso de um animal simples _ a Aplysia, uma lesma com uma célula nervosa muito grande. Submetemos essa lesma a testes de aprendizado e reflexos similares àqueles feitos por Pavlov. Estimulamos os animais e vimos que tipos de reflexos eram produzidos, e então os testamos. Descobrimos que os reflexos da lesma podiam ser modificados por diferentes formas de aprendizado, e que o aprendizado envolvia alterações na maneira como as células nervosas se comunicavam entre si.

Em seguida, observamos a memória de curto e de longo prazo da lesma. Comecei a ver o que acontecia quando se convertia memórias de curto prazo em memórias de longo prazo, e acontecia que a memória de curto prazo envolve mudanças transitórias de conexões entre as células. Não há mudança anatômica. A memória de longo prazo envolve mudanças duradouras, que resultam do crescimento de novas conexões sinápticas.

Isso o surpreendeu?
Eric Kandel: Foi impressionante! Você podia dobrar o número de conexões num neurocircuito simples, como resultado da experiência e do aprendizado. A razão disso era que a memória de longo prazo muda a maneira como os genes se expressam nas células nervosas, o que é a causa do crescimento de novas conexões. Se você vê isso no nível celular, percebe que o cérebro pode mudar por causa da experiência. Isso dá uma percepção diferente sobre como o inato e o ambiente interagem. Não são processos separados.

À medida que a neurociência avança, muitas novas possibilidades emergem. Há pessoas experimentando com maneiras de apagar memórias desagradáveis. Você concorda com isso?
Eric Kandel: Não tenho dúvidas quanto a aumentar a memória, mas remover a memória é mais complicado. Se é para reduzir o impacto de um trauma particular, não me incomoda, mas há outras maneiras de lidar com isso _ terapia cognitiva comportamental, terapia de exposição, remédios. Entrar na sua cabeça e retirar a memória de uma experiência amorosa malsucedida é uma ideia ruim. Sabe, no fim, somos quem somos. Somos todos parte daquilo que vivenciamos. Eu gostaria de apagar a minha experiência vienense? Não! E foi horrível. Mas é ela que te forma.

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