Buenos Aires redescobre seu passado subterrâneo

Escavações revelam o cotidiano da cidade no século 19

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O novo museu do Bicentenário, em Buenos Aires, funciona na antiga aduana Taylor
Um prédio da Alfândega diante do Rio da Prata transformado em museu histórico, uma casa cheia de túneis que deveria virar restaurante e acabou por mostrar a capital argentina através dos séculos: Buenos Aires redescobre seu passado subterrâneo e multiplica as criações de museus.

A mais espetacular dessas redescobertas é a última delas, a Aduana Taylor, chamada assim em homenagem ao engenheiro que a concebeu entre 1855 e 1857. Funcionou até 1894, até ser coberta de terra, nos trabalhos de construção de um novo porto, o Puerto Madero.

Depois das escavações e com algumas reformas, foi transformada em Museu do Bicentenário, ficando a alguns metros da Casa Rosada, o palácio do governo. O Estado investiu 17,2 milhões de euros para oferecer ao visitante um percurso pela História recente do país. De 1810 até a presidência de Nestor Kirchner (2003-2007), falecido em outubro e marido da atual presidente, Cristina Kirchner.

"Encontramos antigos mecanismos, de madeira e ferro, que serviam para descarregar as charretes que traziam as mercadorias dos navios: nós os deixamos do jeito que eram", explicou à AFP Juan José Ganduglia, diretor do novo museu.

As galerias de finos tijolos aparentes foram mantidas: cada uma acolhe quadros, carruagens, e objetos que pertenceram a um ou outro presidente ou apresentam documentários divulgados numa tela.

Numa ampla sala central fica exposto o afresco "Exercício Plástico" (1933) do pintor mexicano David Siqueiros. Foi idealizado no teto, no solo e nas quatro paredes de uma adega da mansão de Natalio Botana (1888-1941), fundador do jornal Critica, hoje falecido.

O afresco foi recuperado pelo Estado e instalado no museu, depois de um longo processo e de cerca de 18 anos passados em contêineres.

Uma outra descoberta surpreendente, a algumas ruas de lá, ficava a casa de Jorge Eckstein, que adquiriu a propriedade no bairro histórico de San Telmo com a ideia de levantar ali ... um restaurante.

Durante os trabalhos de reforma, o solo cedeu na parte de trás e, pouco a pouco, começaram a aparecer túneis e muros datando de diferentes séculos. E, com isso, toda a História da cidade pôde ser seguida passo a passo: o proprietário decidiu, em 2004 de fazer daí um museu privado, chamando "El Zanjon".

Os grandes salões do século XVIII testemunham a riqueza dos antigos proprietários, mas também a vida das famílias de imigrantes que aí se instalaram no século XX. Um poço e 200 metros de túneis de tijolos fecham um antigo curso d'água que delimitava o sul da cidade: o "Zanjon de Granados".

Perto da Praça de Maio e da Casa Rosada, encontra-se a 'Manzana de Las Luces', a mansão da Luzes, no coração histórico da cidade. Aí, também, estão previstos trabalhos de reforma.

Fica no local um imenso sistema de túneis, construídos pelos Jesuítas, para defender a cidade, entre 1661 e 1767, data de sua expulsão das colônias espanholas. "O tesouro dos Jesuítas nunca foi encontrado", conta a guia, Ana Maria Di Consoli. "Mas nós não perdemos as esperanças", diz.

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