Belo Monte: índios sairão de suas terras "por bem ou por Direito"

Em debate na 63ª reunião da SBPC, diretor da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco defendeu a construção de usina

Maria Fernanda Ziegler, enviada a Goiânia |

A construção da usina hidrelétrica de Belo Monte foi tema do último dia da 63ª reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. O evento acontece esta semana em Goiânia, culminando hoje com um debate entre José Ailton de Lima, diretor da Companhia Hidroelétrica do São Francisco (CHESF), e o pesquisador da Universidade do Estado do Amazonas, Alfredo Wagner de Almeida.

Para Lima, o grande desafio do governo é garantir que a população tenha acesso a energia elétrica em todos os locais e a bons preços. "Em determinado momento o governo tem de tomar a decisão e nem sempre ela é simpática".

Almeida questiona a posição do governo na obra, que já retirou um milhão de pessoas de suas casas. Para ele, é preciso repensar o projeto, já que por deslocar tantas pessoas ele “acaba excluindo mais que incluindo”. Para ele, a hidrelétrica atinge terras ocupadas por índios que têm o direito de permanecer onde estão. Lima afirmou no debate que se alguém não quiser sair de suas terras por causa da construção da usina, “vai sair, ou por bem ou pelo Direito”.

Questionado sobre o choro do cacique Caiapó Raoni, divulgado na internet, Lima deu uma resposta cortante: “O cacique Raoni chorou e vai chorar muito, pois o rio já fica seco. O que vamos fazer é a barragem e garantir o mínimo, não altera a situação.A aldeia Caiapó está a 530 quilômetros da usina. Qual é a influência que a usina tem sobre a aldeia dele? Raoni é um instrumento da mídia internacional. Eu não tenho paciência para isso”, disse. Imagens divulgadas na internet mostravam o caiapó chorando por causa da hidrelétrica.

O diretor da Chesf argumenta que o Brasil precisa ficar competitivo e para isto é necessário ter energia. No entanto, o pesquisador da UFMA acusa que esta lógica está de acordo com o desperdício. “Um estudo da Unicamp mostra que poderíamos economizar até 38% da energia que consumimos. Para se ter uma ideia, um Shopping Center em São Paulo consome energia suficiente para abastecer uma cidade de 100 mil habitantes”, disse.

Luiz Pinguelli Rosa, diretor da Coppe/UFRJ (Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia), apresentou nesta manhã números que mostram que a hidrelétrica leva vantagem sobre outras fontes de energia, pois gera 200 vezes mais energia que a quantidade necessária para produzi-la. No entanto, ele cita estudos que prevêm uma redução de chuvas no Brasil, que deve afetar as hidrelétricas nos próximos 50 anos. “Não é possível fazer tudo o que se havia pensado, principalmente no Brasil”, disse o professor.

Custos
O pesquisador acredita que faltou um acordo do governo com a sociedade sobre a construção de Belo Monte. Ele comparou os preços de custo e a produção de Belo Monte e Angra 3: a hidrelétrica tem o custo de 20 bilhões de reais, com uma capacidade de 11 gigawatts. Cada kilowatt sai a um custo de mil dólares.

Já Angra 3 custou 700 milhões e para completá-la serão necessários investimentos de 6 bilhões de dólares. A planta teria 1,3 gigawatts de capacidade, com cada kilowatt custando 5 mil dólares. “No entanto, a comparação não é justa, pois o número de horas de atuação de Angra 3 é maior que o de Belo Monte por conta da falta de água. Logo Angra 3 ficaria 2,5 vezes mais cara que Belo Monte”, disse.

Para Pinguelli, a energia eólica está crescendo no Brasil, mas ainda não é suficiente. Um dos problemas apresentados pelo pesquisador está no fato de a energia vinda dos ventos ser ainda muito cara. “No último leilão de energia eólica, ela atingiu o preço de uma termoelétrica”, disse. Para ele, este cenário faz com que as hidrelétricas sejam ainda interessantes.

Pinguele afirma que o Brasil não está fazendo grandes reservatórios de água, fazendo das hidrelétricas atuais “verdadeiros fios d’água”, sendo seja necessário complementar a hidrelétrica com a geração termoelétrica, que é cara e poluente. Ele defende que o ideal seja ao invés de complementar com termoelétrica, se faça com eólica e energia proveniente de biomassa, como o bagaço da cana-de-açúcar.

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