Atirando para o alto para sobreviver

Musgos usam mecanismo de locomoção semelhante ao de lulas e medusas para cuspir seus esporos e disseminar genes

Alessandro Greco, especial para o iG |

Science/AAAS
Sequência em alta velocidade mostra os musgos "cuspindo" seus esporos a 72 km/h
Eles cobrem cerca de 1% da superfície da Terra, muitas vezes em longos tapetes esverdeados, mas poucas vezes olhamos para eles. Afinal o musgo é uma planta tão comum que teoricamente não teríamos porque prestar atenção nela. Tão comum que nenhum outro gênero de planta tem potencial tão grande para armazenar carbono como ela. O detalhe é que para continuar a ajudar a humanidade – consumindo o carbono gerada por ela – as cerca de 235 espécies de musgo pertencentes ao gênero Sphagnum , como qualquer outro ser vivo, precisam se reproduzir para sobreviver.

O que pode parecer banal à primeira olhada (a sobrevivência) se revelou um mecanismo muito complexo: a geração de vórtices, descobriram os pesquisadores Dwight Whitaker, do Pomona College, e Joan Edwards, do Williams College, nos Estados Unidos. “Ficamos muito surpresos com o fato de um musgo tão pequeno e com um corpo tão simples ter desenvolvido um mecanismo tão sofisticado e elegante para espalhar seus esporos”, disseram Dwight e Joan ao iG , que publicaram suas descobertas na edição desta semana da revista científica Science.

Science/AAAS
Musgos do gênero Sphagnum na natureza: mecanismo complexo
Usado por animais como a lula e a medusa para se locomover na água, a criação de vórtices pelos musgos segue o mesmo princípio em um meio diferente, o ar. Em vez de se locomover, eles atiram aos céus seus esporos para serem levados longe pelo vento – uma característica fundamental para a sobrevivência deste gênero (os vórtices podem ser enxergados visualmente por formar uma figura similar à do cogumelo).

Para conseguir ser alçado à altura necessária – de 10 a 20 centímetros acima do nível do solo – os esporos precisam ser literalmente cuspidos pelo musgo para cima à velocidade estonteante de 20 metros/segundo (72 km/h). Basicamente uma pistola de ar. E tudo isso em no tempo de 0,2 segundos, uma velocidade ultra rápida capaz de ser observada apenas por câmeras de vídeos que gravam de 1000 a 10000 frames por segundo.

Segredo: um dia de sol
O segredo do musgo para alcançar a altura necessária à sua sobrevivência está na engenhoca criada por ele para fazer o lançamento à distância. É preciso que tudo esteja no seu devido lugar. Primeiro, uma cápsula (bulbo) com 20 a 250 mil esporos em sua parte superior e ar na parte media e inferior. Segundo: um dia ensolarado. “Em dias de sol, a cápsula desidrata e as células da epiderme dela começam a se desmanchar, fazendo com que a cápsula mude de um formato esférico para cilíndrico e aumente a pressão interna, até que a cápsula estoure, jogando o ar e os esporos verticalmente”, explicam os pesquisadores no artigo. Veja como isso acontece no vídeo abaixo:

Mas isto não seria suficiente para levar os esporos às alturas. Aí, entra o vórtice que ajuda a empurrar os esporos para cima com seu movimento em espiral e dissemina os genes dos musgos pelo planeta. Agora os motivos que levaram os pesquisadores à escolher o gênero Sphagnum vão alem da importância na captura do carbono. “De uma perspectiva mais prática também escolhemos o Sphagnum porque havia um brejo onde ele crescia naturalmente perto do nosso laboratório em Williamstown (EUA)”, completam os pesquisadores.

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