As mulheres que fazem o futuro da ciência brasileira

Conheça sete jovens cientistas do Brasil, que foram reconhecidas por suas pesquisas em 2011

Alessandro Greco, especial para o iG |

No ano em que as mulheres literalmente tomaram o poder , da política à economia, passando pela justiça e pela construção civil, as cientistas não poderiam ficar atrás.

Ainda que vista como uma carreira prioritariamente masculina, a pesquisa científica tem refletido também as mudanças da sociedade: segundo um censo do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) de 2008, elas já eram 48% de todos os pesquisadores no país. Ainda assim, são poucas em cargos de chefia .

No campo das ciências biológicas, as mulheres já se destacam faz tempo. Mas estão ganhando espaço também nas ditas ciências exatas – física, química e matemática. O iG conversou com sete delas, ganhadoras do prêmio Prêmio L’Oréal / UNESCO / ABC Para Mulheres na Ciência em 2011.

Com uma média de idade de 35 anos, essas jovens representam parte do que melhor se faz em ciência no Brasil.

 A maioria delas são também as primeiras cientistas em suas famílias e algumas deram exemplos de força de vontade para se tornaram pesquisadores de primeira classe. Conheça abaixo suas histórias:

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A fisioterapeuta Josimari Melo, 31 anos, atua na área de fibromialgia
Ciência por acidente
A fisioterapeuta Josimari Melo, 31 anos, pesquisadora da Universidade Federal de Sergipe (UFS) que teve um acidente quando criança que transformou sua história. “Aos 6 anos estava brincando na casa da minha tia. Ela fazia uma bala de chocolate e colocou em cima da mesa. Eu estava brincando embaixo da mesa e quando levantei coloquei o braço direito dentro da panela que tinha acabado de sair do fogo. Tive queimadura de 3o grau, minha mão e braço ficaram em carne viva. Fiquei um ano fora da escola (escrevo com a mão direita). Quase tive de amputar a mão. Cresci sabendo que a fisioterapia tinha salvado minha mão”, contou ao iG

Uma das ganhadoras na área de Ciências Biomédicas, Biológicas e da Saúde, Josimari começou a se interessar por ciência nas feiras de ciências da escola quando tinha de criar produtos, explicar como eles eram feitos e para que serviam. Mas não foi exatamente aí que decidiu fazer pesquisa. “Após graduação em fisioterapia fui fazer iniciação científica e ficou fascinada. Não imaginava que seria pesquisadora. Achei que ia ser neurologista”, afirmou ela.

Atualmente, Josimari trabalha na área de fibromialgia, mas também nem sempre foi assim. “Estudei sempre dor crônica desde a iniciação científica. Me envolvi com fibromialgia quando fiz pós-doutorado nos Estados Unidos. Comecei a me interessar muito pela tema porque, por exemplo, não sabemos a causa dela. A grande recompensa neste caso é buscar novas terapêuticas para ela”, comentou ela.

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Rubiana Mainardes, de 31 anos, busca desenvolver medicamentos
Estudo independente e nanotecnologia
A vontade de fazer pesquisa também surgiu por acaso na vida de Rubiana Mainardes, 31 anos, farmacêutica da Universidade Estadual do Centro-Oeste (UniCentro), também da área de Ciências Biomédicas.

“Minha primeira ideia era abrir um laboratório de análises clínicas, mas quando comecei a estudar farmacologia fiquei encantada com sistemas nanoestruturados. Comecei a estudar o tema sozinha, depois fiz mestrado e doutorado na área”, contou ela ao iG .

Desde então Rubiana busca desenvolver medicamentos com o auxílio da nanotecnologia para melhorar a vida dos pacientes.

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Daniella Bonaventura, de 36 anos, estuda alterações cardiovasculares relacionadas à dengue
“Nasci para levantar questões e resolvê-las”
As análises clínicas também fascinaram, a princípio, Daniella Bonaventura, 36 anos, pesquisadora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “Era farmacêutica de formação e fui fazer análises clínicas. Descobri que não tinha de pensar para fazer nada. Não nasci para isso. Nasci para levantar questões e tentar resolvê-las”, explicou ao iG .

E ao passar no concurso para professora na UFMG foi falar com um professor, Mauro Martins Teixeira, que tinha um laboratório que estudava dengue. “Fui lá e perguntei se eles tinham interesse em estudar alterações cardiovasculares devido à dengue pois sabe-se que pacientes com a doença tem pressão arterial diminuída. Ele concordou”, comentou Daniella.

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Tatiana Barichello, de 42 anos, estuda meningite pneumocócica
Tentativa e erro
Experimentar fazer algo e descobrir que não era bem aquilo que a fascinava também redirecionou a carreira da farmacêutica Tatiana Barichello, 42 anos, da Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC). “Meu sonho era ser professora desde criança. Sempre gostei de ensinar. Comecei fazendo pedagogia, mas em menos de um ano descobri que ela não respondia aos meus anseios. Não queria saber as regras, queria gerar conhecimento”, afirmou ao iG . Dito e feito, Tatiana fez Farmácia e Bioquímica, depois mestrado e doutorado, mas antes teve que descobrir que outras opções não a atraíam: “Estava no vestibular e ia fazer medicina. Cortei a mão lavando um prato e começou a sangrar muito. Comecei a passar mal e conclui que não podia fazer medicina. Conclui também que queria era estudar doenças sem ter contato com os pacientes. Queria apenas analisar o material biológico”.

A área de estudo que lhe deu o prêmio – resposta imunológica à meningite pneumocócica – também não foi exatamente uma escolha. “Fui fazer estágio na Laboratório Central de Florianópolis e cai na área de meningite”.

Mas esta não foi a única vez em que a vida decidiu por Tatiana. “Fui levar meu currículo para ser professora de microbiologia na Unesc. O curso de Farmácia estava sendo implantado. No meio do caminho, o coordenador do curso teve de sair por questões pessoais e acabei contratada como coordenadora do curso para o qual eu havia e candidato apenas para ser professora...”. E comentou: “na realidade a gente não decide. A vida vai acontecendo”

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Ana Luiza Cardoso Pereira, de 35 anos, estuda as propriedades do grafeno
Curiosidade como base para a pesquisa
Levar a vida para ver o que ela decide também foi o que fez a física Ana Luiza Cardoso Pereira, 35 anos, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Sempre gostei de física, mas também da área de humanas. Foi mesmo depois de começar o curso de física que tive certeza de que era isso que queria fazer”, afirmou ela ao iG .

A escolha da área também aconteceu quase por acaso quando Ana Luiza foi a um seminário do professor Eduardo Muccilo que trabalha com física da matéria condensada e se encantou. “Fui falar com ele que na hora me aceitou como aluna de iniciação científica.”, explicou ela.

Daí para frente Ana Luiza se especializou na área e estuda atualmente as propriedades do grafeno, um material que é forte candidato a substituir o silício em dispositivos eletrônicos. A busca pelo conhecimento, no entanto, vem desde pequena. “Sempre quis saber como as coisas funcionavam”.

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Mariana Antunes Vieira, de 34 anos, estuda a composição química da glicerina
“Não vai por fogo no laboratório, filha”
Uma sede de saber similar levou Mariana Antunes Vieira, 34 anos, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), a estudar química. “Escolhi química por curiosidade. Pegava os rótulos dos produtos e queria saber o que eram os componentes, tipo sódio, que apareciam nele”, afirmou ela ao iG.

Mariana acabou indo . “Trabalhei um ano em um projeto da PUC-RJ com a Petrobras e sempre ouvia reclamações sobre a glicerina, que é um subproduto da produção de biodiesel”, explicou ela. E completou: “O que estou fazendo é pegar a glicerina e estimar os contaminantes inorgânicos nela para lhe dar um destino adequado”.

A escolha de ser química, porém, não “animou” muito a mãe de Mariana. “Ela até hoje me diz: filha’, não vai por fogo no laboratório’, contou ela, que sempre quis ser professora e pesquisadora, rindo.

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Viviane Ribeiro, de 33 anos, estuda álgebra
Fascinação pelos números
A matemática Viviane Ribeiro, 33 anos, também sempre quis ser professora embora nunca imaginasse que acabaria sendo também pesquisadora. A habilidade com conceitos abstratos vem desde cedo. “Sempre tive muita facilidade em aprender matemática. Nos intervalos das aulas ajudava meus colegas a resolver exercícios.”, contou ela ao iG .

O gosto pela pesquisa surgiu mais fortemente no final da licenciatura em matemática quando Viviane estava dando aula para jovens e adultos que não haviam tido a oportunidade de terminar os estudos e estavam retornando à sala de aula. “Fui descobrindo que saber mais matemática também me fazia uma professora melhor. Nesse processo fui fazer mestrado e depois doutorado”, explicou ela.

Já a escolha de álgebra como campo de estudo teve um incentivo bem específico. “Sempre gostei da área e já no mestrado fiz uma descoberta no tema relacionado ao meu estudo, o que não é muito comum.”, explicou ela. A possibilidade de fazer novas descobertas tão rapidamente chamou a atenção de Viviane que foi fazer doutorado na mesma área.

Cada ganhadora do prêmio L’Oreal / UNESCO / ABC Para Mulheres na Ciência irá receber uma bolsa-auxilio em reais equivalente a US$ 20 mil para ajudar no desenvolvimento de sua pesquisa. O prêmio, que existe desde 2006, escolhe anualmente sete jovens cientistas pela qualidade e pelo potencial de suas pesquisas desenvolvidas em instituições brasileiras.

No total, 400 jovens cientistas brasileiras inscreveram seus estudos nas áreas das Ciências Físicas, Ciências Químicas, Ciências Matemáticas e Ciências Biomédicas, Biológicas e da Saúde.

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