Artista britânico esculpe vírus e bactérias em vidro

Exibição em Nova York discute beleza e letalidade desses microorganismos

The New York Times |

Numa galeria de arte no bairro Meatpacking District, em Manhattan, equilibrada delicadamente sobre superfícies espelhadas e tremendo levemente com a passagem de cada caminhão, está uma montagem dos maiores assassinos da história: varíola, influenza e HIV.

Eles estão todos lindamente desenhados em vidro soprado, os brilhantes e pontudos capsídeos (é preciso imaginar como eles passam limpa-vidros dentro daquelas delicadas fendas) envolvendo seus destrutivos núcleos DNA ou RNA, que são representados como pontos em espiral de vidro leitoso. Eles são lindas granadas de mão, a ilusão exaltada por seu precário posicionamento sobre o chão duro.

Jornais médicos falaram muito deles, e uma representação do vírus da AIDS pelo artista, Luke Jerram, está na coleção do Wellcome Trust, o equivalente britânico da Fundação Bill e Melinda Gates.



Mas como profissional que cobre doenças infecciosas, me senti ofendido: observei pessoas morrendo dessas coisas, agora representadas como pesos de papel de dez mil dólares. Há algo de inadequado em celebrar a beleza de algo que faz coisas tão feias.

Jerram defende sua obra argumentando que contemplar esteticamente a morte é uma tradição dos jovens artistas britânicos da atualidade – ele cita os animais dissecados de Damien Hirst.

Vírus incolores
Porém, Jerram está também numa missão educacional. Conforme ele reclamou numa entrevista, jornais científicos sempre colorem suas imagens de vírus e bactérias – algumas vezes pela clareza, mas muitas vezes apenas para torná-los mais assustadores. Como uma pessoa parcialmente daltônica, ele acha que isso agrega uma indução. Afinal, fotos microscópicas de elétrons são em preto e branco, já que elas são basicamente raios-X. Vírus, a maioria deles com tamanhos entre 10 e 300 nanômetros, são na verdade menores que uma onda de luz visível.

Suas representações, segundo ele, estão em seu “estado natural incolor” (ele confere seus esboços com um virologista, o Dr. Andrew Davidson da Universidade de Bristol. As esculturas em si são feitas por sopradores de vidro profissionais).

Entretanto, as representações de Jerram também são adaptadas – elas não são feitas em escala. Os espinhos de fora que furam células (a hemaglutinina “H” do vírus da gripe H1N1, por exemplo) são exagerados até se parecerem com bastões medievais de batalha. Me perguntei se ele fez isso para torná-los mais assustadores. Vírus reais, na microscopia de elétrons, lembram bolas embaçadas e irregulares.

Essa ideia – os vírus como bolas irregulares – repentinamente levanta a questão de se estou sendo um hipócrita devoto. Talvez sejam as etiquetas de preço que me incomodem, mais que a ideia de admirar a beleza de um assassino – embora eu certamente me ofendesse, digamos, com um retrato do canibal Jeffrey Dahmer celebrando sua boa aparência.

Afinal, não ligo para vírus antropomorfizados quando eles são representados como brinquedos de pelúcia de oito dólares com olhos salientes. Eu inclusive tenho a hepatite e o vírus chikungunya em minha mesa (o primeiro é amarelo, o segundo é branco com um falso moicano vermelho). E, conforme foi notado por alguns colegas, às vezes uso uma gravata da peste bubônica.

Não, disse Jerram, não existiu nenhuma trama para deixá-los mais assustadores. Sua limitação é a fragilidade do vidro; se fosse seguir a escala, as representações desmoronariam.

E a julgar pelo restante de sua obra, ele não está nem próximo de amar a morte como seus contemporâneos. Quando ele misturou arte e ciência antes, o trabalho ou pulsava com vida – um concerto usando os sons vindos do interior das plantas – ou era repleto de assombro – outro concerto tocado em globos rangentes, cheios de água, que ele jurava serem afinados pelo empuxo da lua.

E na próxima semana, ele tem uma frota de pianos chegando à cidade de Nova York para serem deixados em esquinas comuns para qualquer um tocar. Claramente, o que ele ama é o espetáculo.

Mas então ele resmungou de uma forma que o juntaria a qualquer grupo ranzinza de jornalismo científico.
“Estou atualmente na primeira página de uma das revistas Nature, disse ele. “Mas eles usaram uma de minhas esculturas da gripe suína para ilustrar o HIV. Era de se esperar que eles soubessem mais que isso”.

(Por Donald G. McNeil Jr.)

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