Aposentadoria precoce pode aposentar também sua memória

Aposentados tendem a obter piores desempenhos em testes cognitivos do que pessoas que ainda trabalham

The New York Times |

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Pesquisa em 13 países sugere que quanto mais cedo uma pessoa se aposenta, mais rapidamente sua memória entra em declínio
Os dois economistas chamam seu artigo de “Aposentadoria Mental”, e seu argumento tem intrigado pesquisadores do comportamento. Dados dos Estados Unidos, Inglaterra e 11 outros países europeus sugerem que quanto mais cedo uma pessoa se aposenta, mais rapidamente sua memória entra em declínio.

A implicação, segundo os economistas e outros, é que realmente parece haver algum sentido na noção de “use ou perca” – se as pessoas querem preservar suas habilidades de memória e raciocínio, elas precisam se manter ativas.

“Isso é incrivelmente interessante e instigante”, disse Laura L. Carstensen, diretora do Centro de Longevidade da Universidade de Stanford. “A ideia sugere que o trabalho realmente proporciona um importante componente do ambiente que mantém as pessoas funcionando da melhor forma”.

Embora nem todos estejam convencidos pela nova análise, publicada recentemente em “The Journal of Economic Perspectives”, diversos pesquisadores de renome afirmam que o estudo é, no mínimo, uma pequena e irresistível evidência para uma hipótese na qual muitos acreditam – mas que é surpreendentemente difícil de demonstrar.

Pesquisadores descobrem repetidamente que as pessoas aposentadas, enquanto grupo, tendem a obter piores desempenhos em testes cognitivos do que pessoas que ainda trabalham. Porém, isso pode ocorrer porque as pessoas cujas habilidades de memória e raciocínio entram em declínio teriam maiores chances de se aposentar do que as outras.


E as pesquisas não conseguiram sustentar a premissa de que dominar coisas como exercícios de memória, palavras-cruzadas e jogos como o Sudoku teria algum efeito na vida real, aprimorando seu funcionamento como um todo.

“Ao fazer palavras-cruzadas, você fica melhor em palavras-cruzadas”, disse Lisa Berkman, diretora do Centro para Estudos de População e Desenvolvimento de Harvard. “Se você resolve o Sudoku, você fica melhor em Sudoku. Você fica mais hábil numa tarefa limitada. Mas isso não se traduz num comportamento cognitivo aprimorado em sua vida”.

Segundo explica um dos autores, Robert Willis, professor de economia na Universidade de Michigan, o estudo foi possível porque o Instituto Nacional do Envelhecimento iniciou um grande estudo nos Estados Unidos há quase 20 anos. Chamado de Estudo de Saúde e Aposentadoria, ele entrevista mais de 22 mil americanos acima dos 50 anos a cada dois anos, administrando testes de memória.

Isso levou países europeus a iniciar suas próprias pesquisas, usando perguntas similares de forma que os dados pudessem ser comparados entre países. Agora, disse Willis, Japão e Coreia do Sul começaram a aplicar a pesquisa em suas populações. A China pretende começar no próximo ano. A Índia e diversos países da América Latina já estão iniciando trabalhos preliminares de pesquisas próprias.

“Essa é uma nova abordagem que só é possível graças ao desenvolvimento de conjuntos de dados comparáveis em todo o mundo”, afirmou Willis.

O teste de memória examina o grau em que as pessoas conseguem se lembrar de uma lista com 10 nomes, imediatamente e 10 minutos depois de ouvi-los. Uma nota perfeita 20, significando que os 10 nomes foram lembrados nas duas ocasiões. Esses testes foram escolhidos para as pesquisas porque a memória geralmente decai com a idade, e esse declínio é associado à diminuição das habilidades de pensar e raciocinar.

Os americanos obtiveram o melhor resultado, com uma nota média de 11. Dinamarqueses e ingleses ficaram perto, com notas pouco acima de 10. Na Itália, a nota média foi em torno de 7, na França foi 8, e na Espanha a média ficou pouco acima de 6.

Examinando os dados dos diversos países, Willis e sua colega Susann Rohwedder, professora-associada do Centro RAND para Estudo do Envelhecimento, em Santa Monica, perceberam a existência de grandes diferenças na idade em que as pessoas se aposentam.

Nos Estados Unidos, Inglaterra e Dinamarca, onde as pessoas se aposentam mais tarde, de 65 a 70% dos homens ainda trabalham acima dos 60 anos de idade. Na França e na Itália, esse número fica entre 10 e 20%, e na Espanha são 38%.

Incentivos econômicos geram as grandes diferenças na idade da aposentadoria, relatam Rohwedder e Willis. Países com idades de aposentadoria mais jovens possuem políticas de impostos, pensão, deficiência e outras medidas que estimulam as pessoas a abandonar a força de trabalho mais cedo.

Os pesquisadores enxergam uma relação direta entre o percentual de pessoas de um país que ainda trabalham entre 60 e 64 anos e seu desempenho em testes de memória. Quanto mais tempo as pessoas seguem trabalhando, melhor elas se saem, como um grupo, em testes de memória respondidos com mais de 60 anos.

O estudo não aponta qual aspecto do trabalho pode ajudar a reter a memória, nem revela se diferentes tipos de trabalho podem estar associados a diferentes efeitos em testes de memória. E, segundo Berkman, também não diz nada sobre as consequências de permanecer num emprego fisicamente exigente que poderia causar incapacidades. “Tem de haver uma saída para as pessoas que enfrentarão incapacidades físicas caso continuem”, disse ela.

E, é claro, nem todo trabalho é mentalmente estimulante. Porém, segundo Willis, trabalhar pode ter outros aspectos em operação.

“Há evidências de que habilidades sociais e de personalidade – levantar pela manhã, lidar com pessoas, conhecer o valor de ser rápido e confiável – também são importantes”, afirmou ele. “Essas habilidades andam lado a lado com o ambiente de trabalho”.

Mas Hugh Hendrie, professor emérito de psicologia na Escola de Medicina da Universidade de Indiana, não se convenceu pelas conclusões do artigo.

“É uma boa abordagem, um estudo muito bom”, disse ele. Porém, segundo ele, existem muitas diferenças entre os países além da idade de aposentadoria. As correlações não provam a causalidade. Elas também não provam, segundo ele, que exista um significado clínico para as alterações nas notas de testes de memória.

Tudo verdade, afirmou Richard Suzman, diretor-associado de pesquisa comportamental e social do Instituto Nacional de Envelhecimento.

Mesmo assim, acrescentou ele, “trata-se de uma forte descoberta; o efeito é grande”.
Se trabalhar realmente ajuda a manter o funcionamento cognitivo, será importante descobrir quais aspectos do trabalho estão fazendo isso, disse Suzman. “Seriam o compromisso e a interação sociais, o componente cognitivo do trabalho em si ou o componente aeróbico do trabalho?” perguntou ele. “Ou seria o afastamento que ocorre quando você se aposenta, como, por exemplo, mais tempo em frente à TV?”

“O estudo é bastante convincente, mas não conta a história completa”, afirmou Suzman. “Esse foi um primeiro passo, e precisa ser levado adiante”.

Tradução: Pedro Kuyumjian

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