Anos de El Niño dobram as chances de conflitos civis, diz estudo

Pesquisa comparou ocorrência do fenômeno em 54 anos com guerrilhas e calculou que El Niño influenciou 21% das guerras civis

Maria Fernanda Ziegler, iG São Paulo |

AP
Refugiado cuida de cabras no Quênia. Pesquisadores afirmam que El Niño pode influenciar conflitos civis como o do Chifre da África
Os ataques da guerrilha Sendero Luminoso, em 1982, o início da disputa no Sudão, em 1963, e os conflitos nas Filipinas, El Salvador e Uganda, em 1972, além da revolta em Myanmar, em 1991, podem ter em comum a influência do fenômeno climático El Niño. Cientistas do Instituto da Terra na Universidade de Columbia defendem que o clima global pode influenciar conflitos violentos pelo mundo e que o estudo maior desta relação pode ajudar a prevenir desordens e guerras.

“Mesmo no mundo moderno, podemos constatar que o clima tem influência na tendência de as pessoas brigarem”, disse Mark Cane, um dos autores do estudo publicado hoje (24) no periódico científico Nature. Ele cita como exemplo mais atual é a fome na Somália e o conflito no Chifre da África, que podem ter sido influenciados pelo fenômeno climático, já que ele aumenta a seca e destrói plantações em uma sociedade já fragilizada.

A equipe mapeou a ocorrência do fenômeno climático El Niño de 1950 a 2004 e relacionou com conflitos civis. Os dados incluíram 175 países que 235 conflitos, sendo que mais da metade deles resultou na morte de mais de mil pessoas. A equipe calculou que o fenômeno climático influenciou 21% das guerras civis, pelo menos, 30% nos países afetados pelo fenômeno.

Nos países que sofrem as alterações no padrão climático por causa do El Niño, os pesquisadores perceberam que os períodos de ocorrência do La Niña (quando as chuvas aumentam) as chances de conflito foram de 3% enquanto que durante o El Niño dobrou para 6%. Países pouco afetados pelo fenômeno permaneceram com 2% de chance todo o tempo.

A equipe fez a comparação dos dados e embora tenha detectado relação entre o fenômeno climático e conflito civil, afirma que é preciso mais estudos para que se identifiquem possíveis causas desta relação. “Os efeitos do El Niño podem estar ligados a causa do impacto no suprimento de alimentos. As pessoas ficam mais desconfortáveis e ficam a fim de brigar. O nosso estudo não pretende revelar todos os mistérios que fazem todas estas pessoas brigarem”, disse Cane em coletiva de imprensa.

Um dado importante do estudo, é que a Austrália, um país rico e fortemente influenciado pelo El Niño, nunca teve uma guerra civil.

Mudanças climáticas
Embora os autores defendam que a influência do El Niño nos conflitos civis, mesmo não sabendo exatamente o motivo, eles são mais cautelosos em relação a previsões catastróficas em relação as mudanças climáticas. “O clima tem um impacto substancial na propensão de um conflito civil. Mas ainda não está provado que as mudanças climáticas vão provocar o mesmo impacto apresentado pelo El Niño”, disse Kyle Meng que participou do estudo.

O El Niño é um fenômeno climático é caracterizado pela mudança de temperatura da superfície da água do Pacífico equatorial, o que afeta a circulação atmosférica no mundo e influencia os padrões climáticos. A grosso modo, os trópicos tendem a ficar mais quentes e secos. No fenômeno La Nina ocorre exatamente o contrário.

Os autores usando dados históricos do clima dividiram o mapa do mundo entre os 93 países que são fortemente atingidos pelo El Niño, como Austrália, Gana, Laos e Sudão; e os outros 82 que não vivenciam os efeitos do fenômeno, como Afeganistão, Grécia, Suécia e Tunísia, por exemplo.

De acordo com Andrew Solow, do Instituto de Oceanografia Woods Hole de Massachusetts e que não participou do estudo, os pesquisadores conseguiram identificar relação significante entre os conflitos e o El Niño. “Relacionar comportamentos humanos tão complexos a fatores ambientais precisa de estudos mais detalhados focados na dinâmica humana”, disse em artigo que acompanha o estudo.

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