Cavalos e cães que participaram das expedições de Roald Amundsen e Robert Falcon Scott na Antártida viram nome de rota

Dezembro de 1911: Integrante da expedição de Amundsen posa para foto com cães
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Dezembro de 1911: Integrante da expedição de Amundsen posa para foto com cães
Com quase um século de atraso, a imortalidade cartográfica está sendo concedida aos cachorros e pôneis que sustentaram grande parte do fardo na corrida de 1911-12, entre o norueguês Roald Amundsen e o inglês Robert Falcon Scott, pelo primeiro lugar na chegada ao Pólo Sul.

Tanto o pólo sul quanto o norte eram o espaço sideral daquela época, misteriosos e desafiadores – e ser o primeiro a chegar lá havia gerado rivalidades pessoais e nacionais similares às da corrida à Lua, na década de 1960. A equipe de Amundsen chegou cinco semanas antes ao Pólo Sul, enquanto Scott e seus homens morreram de fome e frio em sua viagem de volta. Com sua morte, Scott foi celebrado como herói.

O atual mapa da Antártida é coberto pelos nomes dos dois e os de outros cientistas e exploradores, afixados em planaltos e vales, mares e plataformas de gelo. Mesmo seus patrocinadores e outros notáveis, incluindo realezas europeias hoje obscuras, são reconhecidos. Mas não se encontra, em nenhum lugar, uma ponta de gratidão pelas contribuições caninas e equinas, que foram indispensáveis, pelo menos no caso dos cachorros, às primeiras descobertas da Antártida, na opinião unânime de historiadores e especialistas.

Isso está mudando, de forma modesta, como resultado de uma inspirada campanha de um coronel da força aérea dos EUA – e em antecipação à comemoração, no próximo ano, do centenário dos feitos de Amundsen e Scott.

A partir desta semana, à medida que as aeronaves retomam os voos de suprimento após o cruel inverno austral, os mapas aeronáuticos da principal rota de tráfego aéreo entre a Nova Zelândia e a Estação MacMurdo, na Antártida, trarão os nomes de 11 cachorros de trenó de Amundsen e dos pôneis de Scott.

Pontos de navegação dessa estrada no céu irão homenagear, entre outros, Helge, Mylius e Uroa (cães da Groenlândia de Amundsen), e Jimmy Pigg, Bones e Nobby (pôneis siberianos e manchurianos de Scott). Dos nomes dos animais, vários foram modificados para se adequarem ao formato padrão de cinco letras para os pontos de referência – onde, em intervalos de algumas centenas de milhas, os pilotos devem reportar pelo rádio, aos controladores de tráfego aéreo, seu horário de chegada, posição e condições climáticas.

No novo mapa, por exemplo, o nome Helge aparece completo, mas o de Uroa se torna Urroa, e Jimmy Pigg é abreviado para Jipig. Antes, os nomes dos pontos de referência eram apenas uma série de letras gerada por computador, sem significado. Uma exceção, um dos últimos pontos próximo à costa da Antártida continuará sendo designado como Byrrd, homenagem ao almirante Richard E. Byrd, um dos exploradores americanos mais famosos do continente.

As mudanças no mapa dificilmente colocam Helge na classe de destaque com marcos como Marie Byrd Land, nome da esposa do almirante. E apenas navegadores e controladores de tráfego aéreo deverão deitar os olhos sobre a pequena cópia ao longo da rota A338, fazendo curva ao sul em Christchurch.
Para o coronel Ronald J. Smith, um navegador da força aérea e ex-comandante da Operação Deep Freeze, o braço militar de apoio às pesquisas na Antártida, o Mapa Aeronáutico Centenário Amundsen-Scott é resultado de uma campanha pessoal de dois anos pela reparação à falta de reconhecimento público do papel dos animais na corrida ao pólo.

Como os nomes de animais individuais não foram permitidos no mapa do continente em si, Smith, de 54 anos, focou seus esforços nos mapas que conhecia tão bem – depois de voar a rota Christchurch-McMurdo por muitos anos.

“Todas as pessoas com que eu falava diziam, ‘Parece ótimo, faça isso’”, contou ele em uma de diversas entrevistas na semana passada.

“A Autoridade da Aviação Civil da Nova Zelândia, responsável por aquele setor do espaço aéreo, aprovou o conceito e obteve a aprovação da Organização Internacional da Aviação Civil. A Fundação Nacional de Ciência, que gerencia pesquisas científicas naquela parte da Antártida, também aprovou. “E não houve problemas com os militares”, acrescentou Smith.

Então Lynne Cox, autora americana que está escrevendo um livro sobre Amundsen, ajudou o coronel a compilar os nomes dos 52 cachorros que iniciaram a missão com Amundsen em 19 de outubro de 1911, identificando aqueles que chegaram ao pólo – e os 11 que sobreviveram até o fim. Na Noruega, Cox trabalhou com arquivistas para determinar o destino daqueles que não sobreviveram e para filtrar as versões abreviadas dos nomes, descartando qualquer um que soasse mal, tolo ou ficasse parecido demais com nomes de outros pontos dos mapas internacionais.

“Ron foi tão cuidadoso a respeito dos nomes, certificando-se de que eles ficariam bem em qualquer idioma”, afirmou Cox, audaz nadadora de águas frias que já completou voltas na Antártida e através do Estreito de Bering.

Dois dos nomes usados, Uroa e Mylius, são de cachorros que terminaram a viagem completa, em 25 de janeiro de 1912. Três – Per, Frithjof e Lasse (sem parentesco com o collie de fama cinematográfica) – morreram na viagem de volta. Helge, fraca e moribunda após chegar ao pólo, foi sacrificada. Os exploradores algumas vezes sacrificavam alguns dos cachorros pela carne, usando-a para alimentar os cachorros restantes e até mesmo comendo eles mesmos alguns pedaços.

Em um dos muitos poemas que ele escreveu sobre sua própria experiência na Antártida, Smith abordou a desafortunada Helge. Parte do poema diz (tradução livre):

“Embora você tenha sucumbido
antes da fama,
o terreno indomado;
raça de selvagens exaltados,
nós conseguimos
graças ao seu sacrifício...''

Smith consultou arquivistas em Londres sobre os cinco nomes de pôneis para o novo mapa. Além de Jimmy Pigg como Jipig, Snippets foi alterado para Snipt, Bones para Boenz, Jehu para Jehoo e Nobby para Nobey
.
A estratégia de Scott na viagem era não depender somente de cachorros, mas usar também trenós motorizados, 10 pequenos cavalos e efetivo humano – os próprios homens puxando os trenós. Como Scott escreveu, “Em minha mente, nenhuma jornada jamais feita com cachorros pode se aproximar da elevação daquele grande conceito que se atinge quando um grupo de homens parte para encarar sofrimentos, perigos e dificuldades com seus próprios e independentes esforços”.

Mas os veículos motorizados falharam no começo da viagem, e os pôneis se mostraram inadequados para a tarefa. Eles foram sacrificados no caminho ao pólo. Durante a maior parte do caminho, os cinco homens assumiram completamente a carga.

A equipe de Scott partiu mais tarde, em 1º de novembro de 1911, e seu ponto de partida deu a Amundsen uma vantagem de 100 quilômetros no trajeto de 2,5 mil quilômetros. O inglês não chegou ao pólo até 17 de janeiro de 1912. Em seu diário, Scott escreveu: “Santo Deus! Este é um local terrível demais para que tenhamos nos sacrificado até ele sem a recompensa da prioridade”.

Na segunda metade do século passado, biógrafos reavaliaram o sucesso de Amundsen frente ao fracasso de Scott.

Roland Huntford, autor inglês do livro de 1999 “The Last Place on Earth: Scott and Amundsen’s Race to the South Pole” (O Último Lugar da Terra: A Corrida de Scott e Amundsen até o Pólo Sul, tradução livre), reconhece que o temperamento estável e as preparações do norueguês foram decisivos para vencer a corrida. Segundo sua tese, Amundsen abordou as dificuldades realisticamente, aplicando lições práticas que havia aprendido em sua experiência com esquimós no norte e apostando em cachorros bem treinados para puxar os trenós. Scott, ao contrário, adotou uma visão mais romântica de exploração, onde as dificuldades simplesmente tinham de ser atravessadas como um teste de heroísmo.

Em graus variados, essa avaliação ganhou um amplo grupo de adeptos. Mesmo que Amundsen tenha merecido seu sucesso, Scott pode não ter sito inteiramente responsável por seu destino. Diversos livros recentes tentaram restaurar o posicionamento heroico de Scott. Num livro de 2001, “The Coldest March” (A Marcha Mais Fria, tradução livre), Susan Solomon, meteorologista da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional, atribui grande parte da culpa pelo destino de Scott a uma nevasca excepcional que se abateu sobre sua equipe antes que eles pudessem chegar à base.

Com a aproximação do centenário estão sendo planejadas cerimônias na extremidade do mundo, no posto operado por americanos, conhecido como Estação Amundsen-Scott, no Pólo Sul. Navios de cruzeiro estão oferecendo viagens turísticas especiais em águas antárticas, e pessoas de diversos países estão solicitando permissão às autoridades para refazer as jornadas polares. A Noruega propôs uma nova corrida ao pólo, com motos de neve.

Provavelmente, porém, nenhum cachorro será convidado para a ocasião. Na década de 80, foi descoberto que eles estavam disseminando a cinomose – doença que se mostrou fatal às focas nativas. E assim, sob um acordo internacional de 1993, os cachorros foram banidos do continente gelado onde já ajudaram a fazer história.

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