Anatomista celebridade ganha fãs por entrar em baleias

Joy Reidenberg alia seu trabalho de anatomia vocal de mamíferos com a fama de trabalhar em uma série de TV

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Joy Riedenberg e o veterinário Mark Evans, pouco antes de entrar no corpo de uma cachalote para um programa de TV britânico
A viagem de avião que Joy Reidenberg fez de Dublin a Nova York em janeiro de 2009 foi sem dúvida a mais constrangedora de sua vida.

A pele dela exalava um mau cheiro que lembrava o de uma geladeira há dias sem energia elétrica. Ela disse aos comissários de bordo que estava doente, e eles, discretamente, a transferiram para um lugar perto do banheiro. Aos outros passageiros, eles disseram que havia um pequeno problema com os banheiros.

Reidenberg, na verdade, estava perfeitamente saudável.

"A verdade era muito mais difícil de se explicar", disse ela: "Não se preocupem comigo, ontem eu estava dentro de uma baleia".

Três dias antes, Reidenberg (pronuncia-se "rai-den-berg") estava sentada em seu laboratório na Faculdade de Medicina Monte Sinai, em Manhattan, em meio a barbatanas de baleia, cabeças de camelo congeladas e das outras coisas que um anatomista comparativo mantém em seu local de trabalho. O telefone tocou.

Uma produtora da televisão britânica estava na linha, perguntando se ela poderia voar para a Irlanda naquela mesma noite. Eles estavam prestes a começar a filmar uma série sobre os maiores animais do mundo e, por pura coincidência, uma baleia de 65 toneladas tinha encalhado na costa sul da Irlanda. A ideia era filmar Reidenberg dissecando o animal logo no dia seguinte.

Mesmo antes dessa ligação, Reidenberg já era uma pesquisadora muito respeitada, que não tinha medo de pôr a mão na massa para aprender algo sobre o funcionamento do organismo dos animais. Ela já realizou mais de 400 dissecações de baleias encalhadas (todos os convites vieram por meio de chamados similares, sempre de última hora. "É impossível se planejar com antecedência para o surgimento de uma baleia", disse ela. "É preciso estar pronto assim que elas encalham".)

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Mas seu papel na dissecção televisionada da baleia a colocou como uma criatura muito mais exótica do que qualquer um dos animais que ela disseca: ela virou a celebridade dos anatomistas.

E tornou-se a figura central da série "Autópsia Animal", ao lado do cientista veterinário Mark Evans, do biólogo Watt Simon, e do biólogo evolucionista Richard Dawkins. O programa foi um sucesso na Grã-Bretanha, e agora chegou aos Estados Unidos, onde quatro episódios estão sendo exibidos na televisão aberta, e há planos para mais (o quarto, em que ela disseca leões e tigres, foi transmitido poucos dias atrás no país).

Na Irlanda, para começar a dissecação, Reidenberg teve que lidar com o gás bacteriano que estava se acumulando a níveis perigosos dentro da carcaça da baleia.

"Ela estava inflando como um dirigível", disse ela. "Se fosse feita uma incisão muito funda, esparramaria as entranhas da baleia por toda parte".

A solução foi fazer uma série de buracos na garganta da baleia. "É como desarmar uma bomba".

Uma rajada de vento soprou, produzindo uma sinfonia de flatulências. Levou uma hora até todo o gás sair.

Em seguida, ela usou um gancho de carne para se transportar por cerca de 3 metros até o topo da baleia de 20 metros de comprimento, onde fez incisões longas na lateral do corpo. O escavador de uma empresa de construção local foi usado para descascar a gordura em tiras longas. Reidenberg, então, poderia começar a cortar para ter acesso às tripas e levar os intestinos para fora do animal. Na manhã seguinte, ela subiu na cavidade abdominal, onde cada órgão tinha uma história específica. Localizou a pélvis vestigial, que remete aos ancestrais das baleias que viviam na terra, e extraiu a laringe, que era maior do que ela própria.

Dois dias depois, ela voltou para o hotel e tentou limpar a gordura da baleia. Quinze duchas e três banhos de banheira depois, ela ainda teve que pedir desculpas no voo para Nova York; passaram dias até que a gordura saísse completamente de sua pele.

Duas semanas mais tarde, os produtores de televisão, felizes com as filmagens, pediram-lhe para voltar, dessa vez para dissecar um tigre em Londres. Ela foi. Depois ligaram repetidamente, e ela voltou, para abrir uma cobra píton, um urso polar, um elefante, um tubarão e outros animais de grande porte, explicando sempre o funcionamento interno deles.

Reidenberg, de 50 anos, teve seu primeiro encontro com a anatomia quando estava no Ensino Médio e foi estagiária de um veterinário em Norwalk, Connecticut. A imagem de um cachorro sendo submetido a uma cirurgia a cativou.

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Um grupo de cientistas se prepara para dissecar um leão e um tigre diante da TV
"Estamos tão acostumados a olhar para o exterior dos animais. Olhamos como são bonitos, como correm de pressa, mas eles têm uma enorme beleza interior que as pessoas não vêem", disse ela.

Ela fez graduação na Universidade Cornell na esperança de se tornar veterinária ou ilustradora para a área médica. Mas desistiu dessas ideias quando descobriu que havia pessoas que trabalhavam fazendo novas descobertas anatômicas. No doutorado, foi para a Faculdade de Medicina Monte Sinai para trabalhar com Jeffrey T. Laitman, especialista em anatomia da cabeça e do pescoço.

Desde os anos 1970, Laitman pesquisa indícios anatômicos ligados à evolução da fala humana. Reidenberg ampliou o escopo de seu trabalho para estudar a anatomia vocal dos mamíferos, desde alces até coelhos. Em 1983, começou a lecionar no Monte Sinai e concentrou boa parte de sua pesquisa nas vozes mais notáveis dos mamíferos: as de baleias e de golfinhos.

As baleias e golfinhos respiram através das bolhas e, em seguida, fecham as narinas quando mergulham. Ainda assim, eles fazem sons poderosos debaixo d'água (para ver como isso é difícil, tente cantarolar com o nariz e a boca fechados).

As baleias dentadas, assim como as baleias cachalotes e os golfinhos, fazem estalidos de alta frequência que ricocheteiam em suas presas e nos arredores. Elas empurram o ar através de válvulas do conduto nasal, criando vibrações que irradiam a partir da cabeça.

Reidenberg descobriu que a laringe das baleias dentadas se estende até o conduto nasal, permitindo-lhes abrir a boca quando caçam, sem que a água penetre nas vias respiratórias.
"É como ter um tubo respiratório para mergulho interno", disse ela.

As baleias, por outro lado, produzem sons de baixa frequência que podem viajar centenas de quilômetros pelo oceano. Reidenberg descobriu que a laringe da baleia é ligada a uma bolsa gigante. Ela levantou a hipótese de que as baleias cantam ao bombear ar para as bolsas, que liberam então as vibrações pelas águas ao redor.

Recentemente, Adam Pack e seus colegas da Universidade do Havaí testaram a hipótese de Reidenberg acompanhar baleias jubarte com microfones capazes de detectar onde se originam as canções no corpo dos animais. Como ela havia previsto, os sons vêm da garganta.

Na Faculdade Monte Sinai, Reidenberg leva sua pesquisa de campo à sala de aula, mostrando aos estudantes de Medicina como a nossa própria anatomia é apenas uma das muitas variações produzidas pela evolução.

Em "Autópsia Animal", ela oferece algumas dessas mesmas lições aos seus espectadores.
Reidenberg espera que o programa ajude a chamar um pouco de atenção para a ciência da anatomia, que é muitas vezes ofuscada por campos de maior notoriedade, como a genética e a pesquisa com células-tronco. Os anatomistas descobrem regularmente novas adaptações que podem ter implicações para os seres humanos: a compreensão de como as baleias aguentam enormes pressões, por exemplo, pode levar a novos tratamentos para lesões cerebrais resultantes de explosões ocorridas em situação de combate.

Embora nunca tenha pensado na anatomia como uma forma de aparecer na televisão, ela adora ouvir de desconhecidos o quanto adoram aprender sobre as entranhas dos animais.

"Eu amo receber cartas de fãs", disse ela. "Eu não sei do que as celebridades reclamam".

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