Análise: o legado dos ônibus espaciais

Atlantis, Endeavour, Discovery, Columbia e Challenger. Os ônibus espaciais trouxeram benefícios e expuseram os erros do programa espacial americano

iG São Paulo |

O ônibus espacial foi vendido aos Estados Unidos e ao mundo como barato, seguro e confiável. Nunca foi nada disso.

O programa custou 196 bilhões de dólares (306 bilhões de reais) em mais de 40 anos, tirou a vida de 14 astronautas e fez menos da metade dos voos prometidos. Mesmo assim, realizou feitos consideráveis, completamente fora da expectativas: avanços científicos, fotos sensacionais do espaço, um veículo espacial que ajudou a aproximar inimigos da Guerra Fria, e algo para o Estados Unidos se gabar.

A Nasa lançou seu primeiro ônibus espacial em órbita em abril de 1981. O 135° e último voo aconteceu ytinta anos depois, nesta sexta-feira (8). Quando o Atlantis aterrissar ao fim de sua missão de 12 dias, ele e as duas naves remanescentes serão oficialmente peças de museu – as mais caras do mundo.

O custo final do programa foi o dobro do inicialmente calculado, 90 bilhões de dólares (140 bilhões de reais). O valor foi maior do que o gasto na ida à Lua, a bomba atômica e construção do Canal do Panamá, todos juntos, de acordo com uma análise feita pela Associated Press e o Instituto Smithsonian, com os devidos ajustes à inflação do período.

AP Photo/NASA
Em 1998, o cosmonauta russo Anatoly Solovyev abraça o astronauta americano Terrence Wilcutt, após abrirem o compartimento entre o Endeavour e a Mir
Até seus fãs mais ardentes concordam que os ônibus espaciais nunca cumpriram as expectativas. O programa, concebido há mais de quatro décadas, tinha como premissa vôos semanais, que fariam com que o custo das viagens espaciais caísse, e a jornada poderia ser barata e segura. Não foi o caso.

Dos cinco ônibus espaciais que foram contruídos, dois foram perdidos em explosões. A maior quantidade de vôos feitos em um ano foram nove – longe dos prometidos 50. O programa também conseguiu fazer o feito de tornar uma viagem espacial algo monótono, indo sempre ao mesmo lugar. Os ônibus circularam o planeta 20.830 vezes, mas nunca foram a um lugar realmente novo.

Seis anos atrás, até o administrador da Nasa na época, Michael Griffin, classificou o programa como um erro. Mas um erro que se compensou em jeitos inesperados, que não tiveram a ver com dinheiro ou confiabilidade.

Feitos científicos de uma nave internacional
Exemplos são as fotos magníficas do telescópio Hubble, que ajudaram a estabelecer a idade do Universo e demonstrar a existência da energia escura; as experiências da Estação Espacial Internacional; a multidão de satélites em órbita, usados em tudo, desde espionagem até pesquisas de mudanças climáticas; e equipamentos que exploram o sistema solar. Tudo isso deve sua existência aos ônibus espaciais.

O Hubble, por exemplo, não só foi lançado ao espaço a partir do ônibus espacial – ele também foi consertado e atualizado cinco vezes pela sua tripulação. Os astronautas também capturavam e consertavam satélites em órbita.

Este ano, os astronautas instalaram um acelerador de partículas na estação espacial, que pode descobrir provas da existência da matéria escura e explicar melhor aspectos da formação do Universo. Adicione aí as vantagens da presença americana contínua no espaço por mais de três décadas e um veículo perfeito para aulas de diplomacia internacional e de ciência.

Como uma versão real da série “Jornada nas Estrelas”, o ônibus espacial foi uma Nações Unidas espacial, transportando cidadãos de 16 países outros países. Os Estados Unidos se tornaram parceiros em seus programas espaciais e cientistas russos, após o fim da União Soviética, encontraram na Nasa um novo empregador. O ônibus espacial também trouxe um pouco de diversidade ao espaço, enviando a primeira mulher ao espaço, o primeiro afro-americano, bem como professores, legisladores e até um ex-trabalhador rural.

O melhor e o pior de dois mundos
Mas o professor de política espacial da Universidade do Colorado Roger Pielke Jr., que estudou os custos dos ônibus espaciais, afirma que os Estados Unidos poderiam ter gasto vários bilhões de dólares por ano em um programa de voo tripulado e ainda conseguido realizar mais.

Decolando como um foguete e pousando como um avião, o ônibus espacial era o híbrido definitivo. Era ao mesmo tempo um táxi, carregando astronautas para lá e para cá, com a capacidade de um caminhão, transportando maquinário pesado. Esta versatilidade se traduziu em custos maiores.

Quando naves transportam pessoas, medidas de segurança extra são necessárias e adicionam bastante à conta. Foguetes que levam grandes equipamentos – como partes da estação espacial ou telescópios gigantes – precisam de mais capacidade e combustível, o que também aumenta o preço da viagem. Como o ônibus fazia as duas coisas, o valor da viagem ia literalmente às alturas.

Se os sucessos dos ônibus espacial foram notáveis, seus fracassos também foram espetaculares. Sete astronautas morreram quando o Challenger explodiu um minuto após o lançamento em1986 e outros sete pereceram quando o Columbia se incendiou em seu retorno à Terra em 2003. Um a cada 67 voos resultou em morte – um índice de fatalidade que faria estremecer até o mais intrépido dos aventureiros. Baseado em mortes por milhão de quilômetros voados, o ônibus espacial é 138 vezes mais perigoso que um avião de passageiros.

“Embora seja um feito de engenharia, a complexidade e crença ingênua que um ônibus espacial poderia ser tão seguro quanto um avião foram seu calcanhar de Aquiles”, disse o ex-astronauta e ex-administrador associado da Nasa Scott Horowitz.

O problema é que o ônibus espacial foi produto de uma conciliação desde o começo, explica Howard McCurdy, professor da American University e autor de vários livros sobre a Nasa. A nave tinha que satisfazer a agência espacial e o Departamento de Defesa, que ditou o formato de suas asas e o tamanho de seu setor de carga, disse Roger Launius, curador sênior do Museu de Ar e Espaço Smithsonian.

O conceito se baseou num plano de três fases, a última em Marte, de acordo com George Mueller, considerado o pai do programa de ônibus espaciais. Para chegar a Marte, a Nasa precisava de uma estação espacial na orbite terrestre como ponto de partida. Para chegar a essa estação, Nasa queria um veículo completamente reaproveitável.

Segundo Mueller, o pior é que esse plano foi abandonado no meio do projeto. Cortes de orçamento da administração Nixon fizeram com que o tanque de combustível fosse ejetado a cada voo e os foguetes cairiam no mar, para serem resgatados e recuperados extensivamente. 

Estas mudanças, feitas para economizar, parecem pequenas, mas acabaram aumentando os custos de cada missão de uma maneira considerável, explicou o ex-funcionário da Nasa.

AP
Desde pequeno: menino de três anos brinca durante lançamento do Discovery em 2005
Anomalia da corrida ao espaço
O ônibus espacial irá para a história como uma anomalia do programa espacial americano. Antes dele, as naves eram cápsulas “descartáveis” como as do programa Apollo. E os projetos futuros da Nasa seguem essa linha, na maioria dos casos, o que sugere que os 30 anos de ônibus reutilizáveis que aterrissavam como aviões foram um desvio da evolução natural dos foguetes, disse McCurdy.

Pode ter sido uma anomalia, mas quem voou nele o chama de maravilha tecnológica por sua versatilidade e complexidade. O ex-astronauta e ex-senador John Glenn, de 89 anos, veterano tanto do ônibus quanto da cápsula Mercury, o chamou de “o veículo perfeito para seu tempo”. Ele disse que como qualquer piloto, ele preferiu comandar o ônibus, de pilotagem mais fácil. Mas disse entender porque o futuro estava em algo mais parecido com sua Mercury, mais barata e simples.

“O ônibus espacial é uma máquina incrível”, disse o astronauta Stan Love. “Supera qualquer coisas que possa voar agora e nos próximos 30 anos”. Mas, quando se trata do cumprimento da promessa feita há 40 anos, Love relembrou uma piada antiga dos funcionários da Nasa: o ônibus espacial deveria ter sido barato, seguro e tornar voos espaciais tão rotineiros que não teriam nada de especial. Desses objetivos, conseguiu um, o que não é um resultado tão ruim.

(Com informações da AP)

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