Alfabetização muda área especializada no cérebro

Pesquisa que contou com brasileiros mostrou que neurônios que faziam outra função foram cooptados para a nova habilidade

Alessandro Greco, especial para o iG |

O cérebro é uma máquina viva capaz de se adaptar a certas situações novas. Uma delas, descobriram pesquisadores, é usar uma parte do cérebro antes utilizada para reconhecer faces para fazer o reconhecimento da forma visual das palavras. O estudo, publicado na Science desta semana e que teve a participação de cientistas brasileiros, mostrou que ao aprender a ler o cérebro realoca alguns de seus recursos para tomar conta desta nova habilidade.

O mais interessante é que esta realocação independe da idade (na infância ou na vida adulta) com que o aprendizado ocorre. “A maioria dos efeitos do aprendizado da leitura no córtex cerebral são visíveis tanto nas pessoas escolarizadas na infância quanto nas que foram alfabetizadas na idade adulta. Estes últimos raramente conseguem a mesma velocidade de leitura, mas a diferença pode ser devida exclusivamente à diferença de treino. Quando as velocidades de leitura são iguais, não observamos diferenças mensuráveis entre as ativações das pessoas que aprenderam a ler na infância ou na idade adulta”, afirmou ao iG Lucia Braga, presidente da Rede Sarah de Hospitais de Reabilitação e pesquisadora do Centro Internacional de Neurociências da Rede, uma das autoras da pesquisa. E completou: “Claro que o ideal seria todas as crianças irem para a escola na infância, mas os achados mostram a importância de investir no letramento do adulto. Ainda temos 14 milhões de analfabetos no Brasil segundo dados do IBGE de 2009”.

Para realizar essa nova função, a área do córtex cerebral que toma conta do processamento de rostos diminuiu de tamanho, nas pessoas que aprenderam a ler na infância ou na idade adulta. Ou seja: estes neurônios não perdem, na idade adulta, a habilidade de se adaptar para o aprendizado da leitura.

Por outro lado acontece uma competição entre os neurônios devido à esta especialização. “Existe a possibilidade de que nossa percepção de rostos possa sofrer na proporção em que aumentamos nossa capacidade de leitura, mas não provamos isto, precisamos de estudos futuros. Com o aprendizado da leitura a resposta a faces diminui levemente na ‘área visual da forma da palavra’ (hemisfério esquerdo), e a ativação às faces desloca-se parcialmente para o hemisfério direito. Mas, não sabemos, hoje, se essa competição tem conseqüências funcionais para o reconhecimento ou memória de faces ou se isto é bom ou ruim para o nosso cérebro.”, explicou Lucia. Os resultados mostraram também que a capacidade de ler induz a comunicação recíproca entre a linguagem falada e escrita no córtex cerebral.   

O trabalho, liderado por Stanilas Dehaene, do Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica (Inserm), da França, com a participação de pesquisadores do Brasil, Bélgica e Portugal, verificou esses efeitos em 63 brasileiros e portugueses (10 deles analfabetos, 22 que aprenderam a ler depois de adultos e 31 que aprenderam na infância) usando ressonância magnética funcional, ferramenta que permite enxergar o funcionamento do cérebro em tempo real. “Este tipo de trabalho é muito importante para a área da educação porque estuda as alterações que ocorrem no cérebro durante e depois do aprendizado da leitura”, explicou ao iG o professor Alfredo Pereira Jr. da UNESP em Botucatu, que não esteve envolvido com a pesquisa.

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